sábado, 21 de julho de 2007

O campo de concentração


Era uma vez um grupo de pessoas que foi colocada num campo de concentração, e assim ficaram por tantas gerações que até tinham esquecido porque foram colocadas lá. Com o passar do tempo, sem ter acesso ao seu passado, as pessoas começam a achar que sempre viveram num campo de concentração, e que nenhuma outra vida é possível, a não ser talvez num paraíso mítico.

Apesar da vida sofrida, se acostumaram tanto com isso que começaram a tratar as cercas como proteções necessárias e benéficas. Começaram a tratar as restrições e proibições do campo como limites morais. Os guardas também se esqueceram de como isso começou, e passaram a ser vistos não como inimigos, mas como membros de status elevados, cuja função é essencial para a organização e o funcionamento adequado da sociedade. Então quando os guardas morriam eram substituídos por membros da sociedade, de acordo com seu mérito.

Então um dia alguém pergunta se a vida humana foi sempre assim, se é possível viver fora do campo de concentração, e sem os guardas. E o que as pessoas responderam foi: "É claro que não. Seria um caos se vivêssemos fora das cercas e sem os guardas para nos organizar. Lá fora é perigoso. Estamos bem melhor aqui."

Então um dia alguém encontrou um diário muito antigo, que estava enterrado bem fundo na terra. No início, as pessoas acharam que o diário era falso, e até hoje muitas delas não acreditam nele. O diário descrevia a vida de alguém que viveu antes do campo de concentração. Havia liberdade, apesar de não ser uma vida perfeita, mas pelo menos as pessoas não viviam confinadas em pequenos espaços, obrigadas a fazer atividades pesadas e todos podiam escrever poesia ou andar de bicicleta, não apenas os guardas. Mas as pessoas disseram: "Essas pessoas eram primitivas e atrasadas, não queremos voltar a viver como elas! Naquele tempo, antes dos guardas rasparem nosso cabelo, nós vivíamos cheios de parasitas asquerosos chamados 'piolhos'. Ninguém quer ter piolhos. É bem melhor com o cabelo raspado, não suportaríamos ter cabelos novamente. Nós abandonamos essa vida atrasada, somos avançados agora, não podemos voltar atrás."

Mas algumas pessoas disseram: "Se vivemos em liberdade um dia, podemos viver novamente. Não precisamos das cercas e dos guardas, podemos viver de uma outra maneira". E o que as pessoas responderam foi: "Vocês estão loucos? Como esperam sobreviver sem cumprir as regras do campo? Essas regras foram criadas para nosso bem. Imagine se parássemos de cavar as covas coletivas? Onde colocaríamos os cadáveres das execuções? E se parássemos com as execuções, como manteríamos as pessoas na linha? Vocês são preguiçosos e querem fazer bagunça, essa proposta é completamente absurda".

Muito bem, essa estorinha foi ótima, mas a hora de contar estórias acabou. Agora volte para sua cela.

3 comentários:

Samuka: disse...

Janos, vc consegue ser muito, muito mal e insolente. E eu adoro isso! hohoho
Abraços!

Ana Lívia Brasil disse...

Mto bom seu texto, sou leitora dos textos do Claiton Santos e adorei este post.
Mto bom msm.

Thales Gaspari disse...

Nossa, eu achei este conto muito bom!
Parabéns, Janos. Vou até dar uma divulgada aqui. Abraços