
O termo “crescimento populacional acelerado” é facilmente substituído por “redução da mortalidade”, um termo muito mais positivo. A crescente dependência tecnológica é chamada de “aumento da qualidade de vida”. E ainda que a superpopulação seja um problema, a estabilidade populacional é vista como algo que apenas o desenvolvimento econômico pode nos dar. O que parece estranho é que tínhamos uma população estável antes da civilização, e a mortalidade não era um problema terrível. Numa população pequena, o número de mortos também é pequeno. Certamente aqueles que estão defendendo a “redução da mortalidade” não estão interessados se mais pessoas estão morrendo. Mas ao dizer isso é como se não se importassem realmente com o valor da vida humana, mais vale milhões morrerem num mundo com “baixa mortalidade” que apenas alguns milhares morram num mundo com “alta mortalidade”.
Outro dado importante é que mesmo que a mortalidade tenha caído, a taxa de mortes violentas e de suicídios aumentou desproporcionalmente, assim como o número de doenças. As cidades são o ambiente perfeito para microorganismos causadores de doenças, e para a expansão da indústria farmacêutica também. Bactérias e vírus se tornaram muito mais fortes quando nós quebramos as fronteiras populacionais e criamos meios de transporte que podem fazer uma epidemia se alastrar pelo mundo em poucas horas. A maioria dessas doenças foi transmitida pelos animais que nós domesticamos e matamos para comer. Câncer, doenças do coração, diabetes, enfisemas, hipertensão e cirrose são hoje 75% das causas de morte no mundo. Todas essas doenças praticamente não existiam antes da civilização.
A questão do “aumento da expectativa de vida” é outro mito. A expectativa de vida começou a cair desde a criação da agricultura, e tem se recuperado apenas recentemente por causa do avanço da medicina, mas apenas para quem pode pagar. Trabalhadores pobres continuam tendo uma expectativa de vida menor que a que tínhamos antes da civilização. Mas chamar o desenvolvimento econômico de solução para todos os problemas é ignorar que ele não pode existir sem desigualdade, e que foi a desigualdade que deu origem a nossos problemas. Não pode haver “redução da mortalidade” sem desenvolvimento tecnológico, já que ela é um resultado da medicina moderna. Mas antes que haja desenvolvimento tecnológico, precisou haver um modo de vida voltado à produção, que por sua vez não pode existir sem divisão de trabalho. Um modo de vida que retira o aspecto sagrado da terra, tratando-o como mera propriedade. Quando a comida é vista como um produto do trabalho humano, e não como uma dádiva da terra, a própria terra passa a ser não mais do que um objeto.
A relação do homem com a natureza precisou se modificar completamente antes que o crescimento populacional fosse possível. Em outras palavras, a mudança de visão de mundo é a verdadeira causa desses eventos, e é esta visão que inaugura e fundamenta a civilização. A causa da superpopulação não é falta de desenvolvimento. O crescimento populacional acelerado não aconteceu por fatores meramente externos, não fomos vítimas dela. Nossas escolhas culturais foram suas causadoras, e o crescimento populacional não é sempre benéfico, especialmente nessa proporção. Sem mudar a visão que propicia o crescimento, não é possível resolver os problemas gerados por ele, apenas mudá-los de lugar. Ainda que tenhamos uma população estável novamente, será preciso cada vez mais desenvolvimento. É apenas questão de tempo até não sermos capazes de adicionar mais nada. Aprenderemos com nossos erros antes disso?
14 comentários:
voce nao considera a hipotese de as pessoas voluntariamente parerem de terem filhos?
Desconsidero. É uma hipótese que só poderia funcionar se todos mudassem de mente. Mas se todos mudassem de mente, não teríamos mais este modo de vida, e logo não seria necessário parar de ter filhos "voluntariamente", porque não haveria fomento para o crescimento populacional, ou seja, querendo ou não não poderíamos ter tantos filhos quanto estamos tendo agora. Mas essa é uma questão complexa. De uma forma ou de outra, não adianta achar que se resolve a superpopulação sem se resolver todo o problema paradigmático da civilização. E este problema não se resolve com mero "voluntariado". Será que fui claro?
bom, eu sei que o crescimento da agricultura promove o aumento da populaçao, mas seja quão expansiva for a agricultura, ela nao impede que as pessoas parem de terem filhos...certo ou errado?
agora, voce ja afirmou que essa cultura é a cultura do acumulo, acumulo de alimentos, de populaçao e etc.. nesse caso a civilização necessitaria de grande populçao para continuar em frente?
se esse for o caso eu retiro oque disse no primeiro paragrafo. =)
Uma boa questão, e complexa também, hehehe. Antigamente a agricultura era uma variável simples num sistema econômico simples, mas hoje a economia é complexa. De fato, nós dependemos de acúmulo, e isso significa crescimento, mas nada impede um decrescimento estratégico. Uma guerra, por exemplo, destruir para reconstruir é MUITO lucrativo.
Não precisamos de mais pessoas para arar a terra, porque temos tratores, nem precisamos de muitas pessoas para comer, e precisamos de consumo elevado para gerar lucro. Podemos industrializar, aumentando o consumo e o desperdício e os gastos... Antigamente a poluição e o descaso ambiental era lucrativo porque economizava gastos destinados à produção em massa. Agora, o mesmo é lucrativo porque gera mais produção, de "soluções ecológicas". Mas quando isso chega num limite?
A Itália está com uma baixa taxa de crescimento populacional, mas o consumo continua crescendo. Se não cresce, há crise. E há outro tipo de crise, o do fundo de garantia. Se o número de jovens diminui o número de idosos aumenta e a aposentaria se torna impossível de pagar.
Estes são apenas alguns problemas. Não, não precisamos de grande população, mas isso tem sido a maneira mais fácil de gerar crescimento. O fim da superpopulação é como o fim do petróleo, uns dizem que não é nada demais, outros apontam uma catástrofe sem precedentes. Do meu ponto de vista será ruim de uma forma ou de outra, ou teremos catástrofe e muitos morrerão, ou teremos continuação do atual processo, e a vida perderá cada vez mais o sentido, até que um colapso maior ainda aconteça e ainda mais pessoas morrerão... Parece pessimista, mas infelizmente não há uma perspectiva otimista e realista disponível...
Nossa, artigo e argumentos péssimos. Sinceramente, eu achei o texto leviano demais, beirando a ingenuidade.
Qual seria a soluçaõ? Voltarmos para as florestas? Esquecer tudo que construímos? Vivermos talqual macacos? Fala sério! E quanto a mortalidade? Devemos começar a matar pessoas? Imagine: - Bem, senhor, você já tem mais de 50 anos, está com câncer... não vou operá-lo pois há uma super população e vou mandá-lo para o "saco" para esvaziar o planeta...rsrsrsrs ridículo!
Amigão, a solução para este problema, mesmo que você não tenha tocado nela, é a redução da natalidade. Se temos 2 filhos, estamos, a princípio, gerando a manutenção da população. Se temos 3 estamos aumentando em 1 a população. Se temos 1, somente, estamos decrescendo em 1. Ao meu ver é a única maneira de diminuir a quantidade de pessoas no planeta. Mas você sabe o por quê de não haver campanhas de controle de natalidade? Porque o sistema capitalista precisa desta superpopulação para girar o mercado de cada país. Uma massa miserável, mas que compra. Se diminuirmos a natalidade, diminuimos a população e consequentemente a quantidade de recursos que precisaremos retirar da Terra. A solução é esta, porém os grandes líderes mundiais, os burocratas, magnatas, marajás...rsrsrs, estes estão muito contentes com o sistema atual e não estão dispostos a mudanças.
Olha, outra besteira imensa que você disse é que a expectativa de vida no passado era maior. Ah, pelo amor de Deus, um homem num passado longínquo vivia não mais de 25 a 30 anos. Temos uma média hoje de 75 anos. Até mesmo os homens que não têm recursos vivem em média muito mais do que viviam. Em geral de 50 a 55 anos.
Olha, pode até não parecer, mas sou ambientalista roxo, de carteirinha. Estou para o ambientalismo como a Gaviões da Fiel está para o Corinthians, mas só não me venha com esta balela de que o desenvolvimento é sinônimo de superpopulação e degradação ambiental. Balela!!!!!
Olá Mimetismo Fabuloso,
Bem, eu não sou um fanático pelo ambientalismo, de fato eu não me identifico com este movimento, por diversos motivos que posso explicar depois.
Você tem razão, o texto não tem bons argumentos, especialmente sobre a expectativa de vida. Porém, acho que a idéia de "voltar para a floresta" tão ingênua quanto continuar fazendo o mesmo apenas porque não podemos "abandonar o que construímos". Dizer que não-civilizados são "macacos" é uma ofensa aos povos indígenas. Não faz sentido dizer que devemos continuar quando estamos rumando para um abismo. Mas de forma alguma eu sugeri matar pessoas. Eu estava tentando problematizar uma questão, embora neste texto eu realmente não tenha sido muito claro, e ainda compreendia pouco.
Acho que esta idéia de que qualquer um que fale de superpopulação quer matar as pessoas é uma crítica fácil e vazia. Você diz que a solução é redução da natalidade. Mas como a natalidade cresceu? O que causou isso? Redução da natalidade é sugerido pelos próprios capitalistas. Em países onde a população diminuiu ou parou de crescer, o consumo não diminuiu. Há problemas econômicos, mas de qualquer forma a questão não se resume à quantidade de recursos que consumimos, mas inclui a visão de mundo voltada ao consumo, ainda que "consciente". Culpar os "líderes mundiais" também me parece ingênuo.
O fato é que a expectativa de vida diminuiu na transição do modo de caça-coleta para o modo de vida agrário. Mas uma questão que ninguém coloca é que se a expectativa de vida do ser humano foi de 40 anos desde sua origem até os últimos séculos, compreendendo aí 250 mil anos mais ou menos, porque nós achamos que devemos viver mais? Como pode uma espécie surgir e viver por tanto tempo com "baixa expectativa de vida"? Ou nós simplesmente prolongamos a vida muito além do limite natural? Há controvérsias. E já viu a expectativa de vida das pessoas mais miseráveis do planeta? São poucas em proporção aos 7 bilhões de habitantes, mas muitas comparadas com a média da população humana durante 99% da história.
Estou disposto a discutir isso de forma clara e sem ofensas pessoais. Eu não penso que dizer que "desenvolvimento é sinônimo de degradação ambiental é balela" seja um bom argumento, pois nem sequer foi isso que eu disse. Se quiser responder, mande diretamente para meu e-mail, janosbirozero@gmail.com, ou participe do grupo de discussão civilizacao.rg3.net
Boa tarde,
Estamos no início do processo de coleta de dados de uma pesquisa sobre o controle da taxa de crescimento populacional em relação ao crescimento do consumo e não como uma mudança de mentalidade.
Há pouco estudo especifico a esse respeito, mas há uma enorme quantidade de publicações reproduzindo um único argumento de que o crescimento populacional é a causa do aumento do consumo e de quase toda a desgraça do mundo. Mas o que foi fácil concluir é que os maiores defensores do controle do crescimento populacional são financiados por empresas multinacionais, que são os motores do consumo no mundo, o que aparentemente é uma contradição, na verdade é aplicação de algumas técnicas de engenharia social.
Marcio,
Obrigado pela informação. Desde de Francis Galton que a engenharia social tem essa pretensão de controle populacional. Apesar de toda polêmica, o problema permanece. Alguns dizem que o crescimento populacional não é de fato a causa de coisa alguma, mas o efeito do aumento da produção, uma vez que essas pessoas a mais não são feitas de ar. Um maior número de pessoas significa, a grosso modo, mais biomassa sendo convertida em biomassa humana, apesar de que este é um esquema simplista para representar a dinâmica populacional e a ecologia humana. A queda na população também pode não implicar na queda do consumo.
Entre esses dois lados, deve haver algum bom senso sobre o problema.
Abraços
Janos
Interessante seu comentário sobre a biomassa, de fato o cálculo do balanço de biomassa é simples, pois a biomassa na terra aparentemente é constante, mas só aparentemente pois não se costuma associar ao ciclo do carbono o carbono originado do carbonato de cácio marinho, da queima e combustíveis fósseis e do carbono das rochas sedimentares como fonte potencial para o incremento de biomassa.
O que leva à seguinte questão:
Se há uma potencial capacidade da biosfera em aumentar a biomassa utilizando o carbono disponível, haverá um aumento na demanda de nitrogênio. No meu modo de ver o nitrogênio é o compostos responsável pelo feedback negativo no incremento da biomassa. Qualquer trabalho em meio ambiente que não considere o nitrogênio em suas ponderações é pseudocientífico.
Marcio,
Eu confesso que eu não tenho conhecimento suficiente para discutir com termos de bioquímica.
Eu nao vejo o consumo em si como o grande vilao ambiental, com certeza desmatamento eh um problema muito maior que consumo, e, as causas do desmatamento sao diretamente ligadas a populacao, seja pela criacao de mais areas de habitacao ou com o uso de mais areas de lavoura e cultivo.
Todavia, com uma populacao estabilizada poderiamos manter um nivel de consumo crescente e consequentemente mantermos o capitalismo funcionando, mas, mantendo regioes naturais que, efetivamente poderiam amortizar os efeitos deste consumo.
Eh inegavel o quanto nossa tecnologia melhorou em relacao a reciclagem e eficiencia em aproveitamento de recursos, nao fosse isto este planeta estaira envolto em nuvens de poluicao, entretanto, todos estes beneficios nao sao percebidos devido justamente ao avanco populacional.
Se o crescimento populacional é que causa o desmatamento, então quem é o vilão, o que executa o crime ou o mandante do crime? Os economistas são bastante claros em afirmar que temos que desmatar, porque essa coisa de preservar a natureza é bonito, mas não pode impedir o crescimento econômico, porque os danos seriam ainda maiores.
Eu concordo com o seu segundo parágrafo, lembrando que ainda que se possa "estabilizar" certos problemas ambientais com a tecnologia, não se sabe quais são os novos problemas que podem ser gerados. E ninguém está esperando resolver isso sem avanço tecnológico, como você mesmo demonstrou no terceiro parágrafo.
Mas eu questiono a efetividade da reciclagem. Acompanhou o que aconteceu no SWU? Reciclagem se tornou atrativo. Porém, o que se aproveita é somente uma parte da matéria-prima, enquanto o processamento para criar novos produtos ainda é poluente e consome energia. E outra, que isso serve de desculpa para aumentar o consumismo, que causa danos humanos que indiretamente também afetam a ecologia humana e o meio ambiente.
O problema é que esses "benefícios" estão contribuindo para o crescimento de novos problemas no subterrâneo, que emergirão para superfície mais cedo ou mais tarde. Não se mexe com fogo por muito tempo sem se queimar.
E não adianta varrer para debaixo do tapete.
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