Este trabalho visa mostrar alguns fatores que tornam o atual modelo econômico insustentável. Estes fatores são observados claramente quando se relaciona a economia com outras áreas do conhecimento, como a biologia e a física. Também visa mostrar como este modelo econômico se torna insustentável através de idéias anteriores a ele, provenientes de sistemas filosóficos e religiosos.
De acordo com Kuhn, toda ciência realizada dentro do paradigma atual chama-se normal. A ciência que sai do paradigma atual chama-se revolucionária. Quando a ciência revolucionária supera a ciência normal, de forma a eliminar os paradoxos e prover explicações para novos problemas, o próprio paradigma é mudado, e a ciência revolucionária passa a ser ciência normal. Quanto maior a influência do paradigma atual, mais difícil será mudá-lo, pois menos se realizará a ciência revolucionária. Para que uma descoberta revolucionária seja aceita, a ciência revolucionária já deve estar sendo praticada. Mas como começar a praticar uma ciência revolucionária sem um outro paradigma científico já existente, porém não aceito? É preciso uma visão pré-analítica antes que qualquer ciência revolucionária seja tentada. Esta visão pré-analítica não passa de uma intuição (pré-concepção sem base no conhecimento estabelecido), no entanto esta visão vai permear toda a ciência que será desenvolvida a partir de então, caso o paradigma seja bem sucedido. Algumas vezes o paradigma se torna tão importante para nós que a visão que o iniciou é esquecida como tal ou mesmo não considerada como visão, mas como revelação. Por revelação, eu quero usar o termo em que alguma informação é dada como verdade inquestionável e, portanto, imutável. Não pretendo com isso fazer uma mistura inapropriada de termos científicos e religiosos, pois, como iremos ver a seguir, o ponto a ser tratado é um em que a dicotomia entre religião e ciência se torna irrelevante.
Quando as leis da dinâmica foram descobertas, a física literalmente se mudou para dentro dela, e a mecânica passou a ser apenas mais um componente. Algo parecido com isso deveria ter acontecido com a biologia quando a ecologia foi descoberta. De maneira similar, a ecologia nós dá uma visão mais ampla de como funciona a vida. Ao invés de observarmos a natureza espécie por espécie, podemos observar suas relações em ecossistemas. E assim como a dinâmica explica o movimento do que até então parecia ser estático na física, o conhecimento sobre a evolução das espécies dá movimento ao que até então parecia estático na biologia. Porém, há pelo menos uma área do conhecimento humano que permanece praticamente inalterado pelas mudanças paradigmáticas da física e da biologia: a economia.
Isto é grave, já que a economia é uma área essencial para a compreensão da ação humana. Isto ocorre não por culpa dos economistas, mas porque a visão que constrói o paradigma econômico atual é quase tão importante para nós como a nossa própria matemática. Que visão é essa, só poderemos perceber através de um certo esforço de regressão: Vamos voltar aos egípcios. Por que as pirâmides foram construídas? Ainda é um mistério qual seria a verdadeira função delas, mas vejamos o que se encontrava na sua própria construção. No Egito surgem posições hierárquicas complexas como nunca antes vistas. Era preciso que o faraó estabeleça esta nova visão social através de uma realização tão grande e dispendiosa quanto uma guerra. Construindo as pirâmides o povo teve a oportunidade de se acostumar com o poder das hierarquias. A forma de pirâmide serve até mesmo de metáfora para essa nova visão, em que a base suporta todo o peso e o topo não precisa suportar nenhum. Como isso se aplica na economia? A visão continua a mesma, com a complexidade das hierarquias sempre aumentando, o que chamamos de progresso não passa da construção de pirâmides cada vez mais altas. Descobrimos recentemente que não eram só escravos, mas cidadãos que participaram da construção das pirâmides.
Nosso paradigma econômico atual preza o crescimento como principal característica do desenvolvimento. Isto significa, em resumo, que para se tornar melhor, um sistema econômico tem que se tornar maior e mais complexo. Se ele continua do mesmo tamanho, a complexidade não pode aumentar e o sistema acaba entrando em crise. Assim como um esquema de pirâmide de dinheiro, se novos membros não entram no esquema, ele acaba. E assim como um esquema de pirâmide de dinheiro, o lucro total é zero. O que acontece não é geração de capital, mas apenas redistribuição de capital. Só com o conhecimento provido pela ecologia podemos compreender que nossa economia faz parte de um sistema maior de troca de matéria e energia. O empreendimento que chamamos de civilização é redistribuição de matéria e energia da Terra para a humanidade. Enquanto construímos nossa pirâmide econômica, retiramos mais da Terra do que ela é capaz de regenerar. E assim como uma máquina de movimento perpétuo desafia as leis da dinâmica, nossa economia de crescimento perpétuo desafia as leis da ecologia e, em conjunto, da própria física.
Este paradigma foi baseado numa visão pré-analítica que não só isola o homem do resto da natureza, mas o coloca superior a ela. Tal visão só poderia ter partido de uma fonte: a crença de que a natureza foi feita para o homem e o homem para governá-la. Isto significa que, mesmo que seja ateu, todo economista partilha de alguns princípios religiosos, pois essa visão permeia todo o paradigma. Tal axioma ou dogma não é cristão, mas vem de uma interpretação da ordem que Deus dá ao ser humano no Gêneses: “Crescei e multiplicai-vos”. Numa certa instância, tudo que chamamos de civilização não passou do desenvolvimento de meios de aumentar nossa população indefinidamente, e toda tecnologia desenvolvida foi incentivada principalmente pela necessidade de acomodar o maior número de pessoas possível no mesmo lugar. É bom lembrar que esta idéia não está presente nas tribos antigas. Daniel Quinn, em seu texto Nossas religiões, são elas religiões da humanidade?, observa que as religiões que se modernizaram tentam separar o homem do mundo, por isso não demonstram interesse real pelo mundo:
Para os cristãos, o mundo não é o lugar onde os humanos pertencem. Não é nosso lar, é só uma sala de espera para nosso verdadeiro lar, o paraíso. Para os budistas, é outro tipo de sala de espera, que visitamos diversas vezes até nos libertamos no nirvana.
Se o mundo fosse o lar da humanidade para as nossas religiões, nós não pertenceríamos a ele, porque somos pecadores ou imperfeitos demais. Não somos perfeitamente humanos, não atingimos nosso grau último de humanidade.
“Num sistema fechado, é apenas uma questão de tempo para se tornar claro que simplesmente não existe taxa de crescimento pequena”. O que esta afirmação de Gotelli aponta é que não existe crescimento sustentável. Esses dois termos não se misturam. E, sendo que no atual paradigma não existe economia sem crescimento, podemos concluir que nele não é possível uma economia sustentável. Portanto, se pretendemos levar a cabo o que a ecologia descobriu sobre sustentabilidade e até mesmo respeitar nossos limites físicos nesse mundo, o paradigma da economia precisa mudar. A solução não ocorrerá reduzindo o crescimento ou aumentando medidas de preservação, tais como reciclagem de materiais, porque não importa o quanto reduzamos os efeitos do problema, se as causas do problema continuam crescendo. Mesmo que sempre encontrássemos mais recursos para usar, com a taxa de crescimento acelerando, cada vez mais recursos precisariam ser encontrados em cada vez menos tempo. Eventualmente seria impossível prover recursos novos e o sistema desmoronaria. Veja o inicio do livro Bilhões e bilhões de Carl Sagan para saber porquê. A reciclagem total de materiais também não demostra saída possível para o crescimento desenfreado, pelo mesmo motivo e porque a energia não pode ser reciclada.
Para dar uma idéia de como uma visão pode se instaurar profundamente numa dada cultura, veja o seguinte exemplo: num programa de tevê, um cientista afirma que não há nada que se possa fazer a respeito do lixo tóxico: “A humanidade gera lixo tóxico”. Ao ouvir isso, um antropólogo não tem opção senão rir do fato de que ele conhece pelo menos 2 milhões de pessoas que não são seres humanos. Enquanto nós usamos mais de 10 calorias de combustível fóssil para gerar apenas uma de comida, os islandeses de Nova Guiné produzem 21 calorias de comida gastando apenas uma de esforço corporal. Por mais que produzamos mais sem aparente esforço com nossa tecnologia, gastamos mais energia da Terra. Desperdício é a palavra mais apropriada. Desperdiçamos energia com métodos que auxiliam no crescimento econômico sem grande esforço em detrimento do equilíbrio ecológico. O que não significa que a tecnologia em si é má. Fritjof Capra, em sua palestra Ciência para uma vida sustentável, nos lembra que é possível desenvolver tecnologia baseada na natureza, e que o fato de termos uma tecnologia que é tão prejudicial à natureza é que nós as desenvolvemos com um paradigma insustentável, no qual este resultado é o único possível.
É perceptível como essa visão nos guiou para um caminho afastado da própria evolução. Evolução, segundo conceitos atuais, não pode ocorrer se não for uma co-evolução. Ela não ocorre em uma espécie isoladamente, mas ela mesma não é nada mais que o resultado das interações entre meio e espécies. Evolução é ecologia em movimento. Não é sem motivo que a noção de que a humanidade não mais depende de evolução biológica tem se tornado comum. Porém, ela não precisa de evolução para progredir quantitativamente, para construir pirâmides mais altas, o que é invariavelmente insustentável. Para termos um investimento em longo prazo, como toda mudança evolucionária, precisamos levar em consideração a interdependência dos ecossistemas e subordinar a nossa economia à ecologia.
Dissemos antes que a economia, no seu atual paradigma, é invariavelmente insustentável, e por isso auto-destrutiva. Quais os seus efeitos? Às vezes confundida com uma crise em si, a superpopulação não passa de um efeito do crescimento econômico. Como dissemos antes, a economia precisa sempre expandir mercados. Ela precisa usar cada vez mais recursos ou entra em colapso. Quando falamos de superpopulação é comum imaginar que isso só é um problema em países como a China, Japão, Índia, etc. O problema não é exatamente de distribuição. Seis bilhões de pessoas bem distribuídas sobre o globo ainda são seis bilhões de pessoas que consomem e desperdiçam mais que a Terra e o homem juntos são capazes de reciclar. Ao contrário do que pensam aqueles que se deixam levar pelas baixas taxas de natalidade dos países desenvolvidos, este problema está longe de se estabilizar. E mesmo que se estabilize o crescimento populacional, o uso de recursos per capita continua aumentando com o crescimento da economia. Da mesma maneira que simples doações de comida não resolvem o problema da fome, mais na verdade o piora, distribuir melhor a riqueza não resolve o problema do crescimento, mas na verdade o piora. Se todas as pessoas consumissem na mesma taxa que os EUA, por exemplo, os recursos da Terra acabariam muito mais rápido, o que significa que teríamos muito menos tempo para tentar uma alternativa antes que o planeta se torne um lugar inabitável. Tomar medidas contra a superpopulação antes de estabilizar o crescimento econômico é como tentar apagar uma fogueira com uma mão e jogar combustível nela com a outra.
Um outro efeito importante tem a ver com a psicologia: é a insatisfação. O crescimento da insatisfação e de outros problemas como stress, depressão e distúrbios comportamentais é tão grande quanto o da própria população. Pode parecer que nosso modo de vida nos proporciona um estado de maior conforto se comparado com outros modos de vida mais primitivos. Porém, quando se leva em consideração o conforto mental, e não somente físico, isto é discutível. A busca crescente de refúgios longe das cidades, de práticas orientais de relaxamento, de formas esotéricas de alívio e do uso de drogas com efeitos calmantes apontam para essa tendência. As pessoas que estão acostumadas com o uso de drogas, legais ou ilegais, não se dão conta que, apesar de que elas sempre foram usadas pela humanidade, a dosagem delas tem aumentado assustadoramente, e isso não é mero reflexo de imunização hereditária. Esta insatisfação se mostra em todos os degraus da pirâmide. A causa desses problemas pode ser o uso que fazemos do nosso cérebro. Nosso cérebro não se desenvolveu com o aumento dos conhecimentos teóricos, mas com os conhecimentos práticos. O conhecimento teórico que é cada vez mais exigido de nós no trabalho não estimula o cérebro tanto quanto, por exemplo, as práticas primitivas de caça estimularam. Segundo estudos neurológicos, nossa rotina não é só mentalmente estafante, é mentalmente prejudicial, não porque estamos usando nosso cérebro demais, mas porque usamos apenas uma parte, deixando a maior parte dele sem muito estímulo. Na História de B, Daniel Quinn diz que o gosto que temos por tentar prever resultados ou tentar reconstruir o passado a partir de pistas vem do nosso passado como rastreadores de pegadas.
Apesar de que sejamos capazes de conter todos os efeitos negativos do crescimento econômico, eles continuarão aumentando seu potencial e eventualmente “explodirão”. Mesmo que inicialmente o crescimento econômico mostre ser extremamente vantajoso, sua natureza é necessariamente auto-destrutiva: quando aumentamos a complexidade quantitativa de um sistema, a resposta a problemas se torna lenta e menos eficaz. A falta de interconexões variáveis faz com que qualquer mudança interna possa causar uma grande reação adversa. Diversidade e flexibilidade diminuem os riscos de que isso aconteça, enquanto impede que uma falha se espalhe pelo sistema todo. Assim funciona um ecossistema, criando mais complexidade em termos de diversidade que em termos de universalidade. Os sistemas humanos, em sua maioria, seguem a regra contrária. Temos muitos exemplos de coisas que inicialmente funcionam bem, por mais que contenham em si algo essencialmente contrário à própria função. Um sujeito que fuma em busca de mais parceiras sexuais, por exemplo, pode realmente aumentar o número de parceiras sexuais pelo simples fato de fumar, apesar de que isto cause impotência sexual no futuro. Isto porque o cigarro pode ter um efeito imediato positivo, porém, em longo prazo, negativo. Com o passar do tempo, é claro, o efeito negativo supera os efeitos positivos, reduzindo cronicamente aquilo que inicialmente aumentou, no caso, a atividade sexual.
A diferença entre complexidade evolucionária, como a dos ecossistemas, e complexidade progressiva é basicamente que a primeira se constrói de dentro pra fora: as peças se desenvolvem lentamente dentro do sistema num padrão de diversidade, flexibilidade e equilíbrio, por isso sempre se adaptam perfeitamente à função para que foram feitas e não desperdiçam energia ou matéria. Ao contrário, o progresso quantitativo desenvolve as peças do lado de fora e encaixa-as segundo um modelo universal. Elas buscam um padrão de uniformidade e universalidade, vias de crescimento contínuo e linear, e preferem despender energia para lidar com as dificuldades depois que elas aparecem do que antes, em sua prevenção. O empreendimento progressivo funciona perfeitamente num plano ideal, onde não se considera o imprevisto, mas não revela tamanho sucesso quando aplicado no mundo real, onde há inúmeros fatores que não podem ser calculados. Espera-se que a natureza seja adaptada à criação humana, assim como espera-se que nós nos adaptemos ao sistema que criamos da forma que ele é. Quando o sistema começa a apresentar defeitos, é sempre à alteração das pessoas que nós recorremos primeiro, e não do funcionamento do sistema. Prisão, reeducação e conscientização são exemplos disso. Muito embora possamos fazer leis, nenhuma lei realmente corrige uma má adaptação do homem ao sistema, ela somente o restringe exteriormente na tentativa de mudá-lo. As leis naturais não são restrições, são verdadeiros limites. Nada, dentro do processo evolutivo, quebra as leis da natureza, inclusive a humanidade. O que não significa que más adaptações não possam acontecer. Quando acontecem, são excluídas por processo de seleção. A humanidade mostra sintomas de que está sofrendo esse processo de extinção natural, por mais que sua população esteja aumentando, porque parte da sua má adaptação é exatamente o crescimento desequilibrado. Ao invés de tentar corrigir essas más adaptações no ser humano, é muito mais passível de sucesso criar um novo modo de vida que se adapte melhor a nós. Um sistema que se conecte menos agressivamente ao outros sistemas. O problema de adaptação está simplesmente aí, e não em nós nem na natureza. Tal sistema depende de um paradigma econômico que tenha uma visão diferente. Uma visão baseada em outra forma de desenvolvimento e que leve em conta uma gama mais ampla de relações com outros sistemas.
Quando foi que a visão de crescimento foi estabelecida? Quando ela começou a ser tratada como revelação? Em primeiro lugar, devemos mostrar como ela realmente não passa de uma visão e não de uma modificação genética. Se fosse uma modificação genética, então poderíamos identificar uma tendência para crescimento econômico em povos tribais, por exemplo. Embora posamos perceber semelhanças, “germes de civilização” no modo de vida tribal, isso é mera analogia, pois a estrutura do Estado se parece muito mais com o modo de vida das abelhas, por exemplo, do que com o modo de vida tribal. Se observarmos a tendência evolucionária dos mamíferos grandes, comparando-a com seus antecessores, veremos que os indivíduos se desenvolvem mais lentamente, porém com mais cuidados e aproveitado melhor a energia; que o crescimento populacional é equilibrado de acordo com cada região, a mortalidade também e eles se especializam em sobreviver em locais específicos. Nós seguimos o caminho contrário: prezamos o desenvolvimento rápido e meramente eficiente, o aproveitamento de energia vem se reduzindo, temos alto crescimento populacional, alta mortalidade e alta distribuição no globo, além de vivermos quase da mesma maneira. Os comportamentos necessários para a formação de Estados se parecem muito mais com os dos insetos que com os dos mamíferos e dos tribais, portanto não parece ser genética.
Junto com a crença de que o crescimento perpétuo é uma verdade inquestionável, há também a crença de que não poderia haver outra visão economica possível. Dawkins chama de memes as idéias que formam uma estrutura cultural. Os memes são para a evolução cultural o que os genes são para evolução biológica. Os memes também têm a capacidade de se reproduzir dentro de uma cultura específica, e memes mal adaptados são excluídos ou levam à exclusão da própria cultura. Memes nem sempre são óbvios, e na verdade, quanto mais se espalham, menos visíveis ficam, pois mais acostumados a eles nos tornamos. Um exemplo de um desses memes é a crença de que o aumento da complexidade quantitativa é uma necessidade evolutiva. O fato de que as criaturas se tornaram mais complexas não significa que essa complexidade seja necessária para a evolução, pois isso seria o mesmo que afirmar que a seleção natural escolhe as criaturas mais complexas e exclui as mais simples, o que não é verdade. O retro-vírus e uma evolução do vírus, e no entanto é bem mais simples. A complexidade surge porque a evolução necessariamente parte de uma simplicidade máxima, e o que ocorre é variação aleatória. Com o aumento da variação, a complexidade também aumenta, mas não linearmente. Se fosse assim a árvore genética dos seres-vivos seria um tronco sem galhos. Portanto, assim como na evolução biológica, não precisamos evoluir culturalmente para um sistema mais complexo. E, como foi notado também, a complexidade progressiva é mais prejudicial que benéfica, mesmo que traga benéficos em curto prazo.
Como também dissemos antes, os memes que constroem nossa visão econômica se assemelham com alguns memes religiosos. Na verdade, eles são os mesmos. Max Weber identificou, em Ética protestante e o espírito do capitalismo, alguns desses memes, porém hoje podemos ir mais fundo. Podemos ver memes que surgem com o princípio do monoteísmo e que mais tarde possibilitaram a dominação do mundo através da tecnologia. A idéia de que a humanidade é uma exceção da regra natural é aceita e usada em áreas inteiras do conhecimento humano. As religiões primitivas identificam o homem como pertencente ao mundo, e o mundo como lugar sagrado, e por isso estabelecem uma relação com a natureza que se parece com a atual visão ecológica. Isto não acontece por consciência ou nobreza, mas porque, em certo sentido, essa relação já estava lá antes da racionalidade. Isto não significa que eles acreditem em preservar o meio-ambiente, porque a visão de que “somos responsáveis pela natureza” é puramente nossa. Diferindo de muitos ambientalistas, o que faz os povos tribais sustentáveis é que a relação entre homem e natureza para eles não é nem de dominação nem de submissão, mas de cooperação. Os ecologistas estão mais preocupados com a preservação, por isso nunca lidam com a causa principal do desequilíbrio, mas somente com os efeitos. Ao pedir “amor à natureza”, eles apelam muito mais aos sentimentos que a uma verdade científica. “A ecologia precisa deixar de ser tratada como religião e voltar a ser ciência”, segundo Michael Crichton, ou mais danos irão surgir tentando reparar efeitos com este raciocínio do que não fazendo nada.
Qualquer um está livre para duvidar das descobertas da antropologia, afinal, foi só recentemente que pudemos ampliar nosso conceito de humanidade. Foi só recentemente, com Darwin, que pudemos explicar de onde viemos sem recorrer a explicações religiosas. Porém, levando em conta a possibilidade de estarmos errados, vamos observar o chamado darwinismo social. De acordo com a sociologia, a evolução cultural acontece de forma que as sociedades mais complexas sempre triunfam. Porém, se elas triunfam fazendo guerra, não é por meio de evolução cultural, porque o que ocorre entre elas não é o mesmo que ocorre com as espécies que competem entre si na natureza. A cultura mais “fraca” não é naturalmente excluída, mas é aniquilada por recursos. Elas não se respeitam como culturas diferentes, mas se tratam como recursos a serem pilhados. O argumento usado é que a cultura que é aniquilada não se adaptou bem. Mas estar bem adaptada à guerra não é necessário para estar bem adaptada ao meio. Apenas insetos, como os cupins, demonstravam esse tipo de comportamento antes de nós. O que foi praticado na colonização da América não representa seleção de culturas, mas somente aniquilação e assimilação. Os colonizadores não tinham idéia dos recursos culturais valiosos que estavam destruindo para adquirir seus recursos materiais. Nem tinham como saber que aumentar seu território apenas expandiria seus próprios problemas.
A cultura também pode alterar a evolução biológica. Podemos escolher extinguir algumas espécies e preservar outras para vantagem da nossa cultura. Nunca fazemos isso para o benefício dos seres-humanos como um todo, mas apenas para um benefício cultural. No entanto, assim como nossa visão de progresso funciona bem somente num plano ideal, a evolução natural só funciona bem num plano real, que é ultimamente incompreensível. Mesmo que nossa economia seja um produto da evolução natural, se ela não está bem adaptada a nós ou ao meio, pode gerar nossa extinção.
Se concordarmos em mudar o paradigma econômico, precisamos falar da possibilidade de realizar economia revolucionária hoje. Vamos começar com um exemplo: depois de ler Ismael, de Daniel Quinn e The ecology of commerce, de Hawken, o empresário Ray C. Anderson, dono da Interface, empresa líder na produção de carpetes, resolveu usar matéria 100% reciclada para fazer carpetes 100% recicláveis. A rendas subiram por causa da baixa dependência de petróleo e a empresa passou a reciclar carpetes. Isto forçou seus competidores a seguir a mesma trilha, transformando todo o mercado de carpetes num negócio mais econômico e mais sustentável. Uma coisa é clara: não é modificando as leis ou qualquer outro fator regulador que se alcança uma mudança no sentido da sustentabilidade. Na verdade, é exatamente pelo fato de só aplicarmos esse tipo de mudança que pioramos o problema. Está mais nos memes que formam a estrutura da sociedade do que na maneira que ela funciona. Como Willian Ashworth escreveu em Economia da natureza: Repensando as conexões entre ecologia e economia: não é uma questão de parar de crescer, mas sim de parar de pensar no crescimento como único gerador de desenvolvimento. Podemos falar, por exemplo, de economia tribal, como sugere Quinn em Além da civilização. Uma economia tribal valoriza não a produção, mas a troca e a convivência. A troca não é exatamente material, o que é trocado é energia humana, capacidade de cooperação. Ao pensar nisso a fundo, esbarramos num conceito cultural: o de que o homem só persegue sua satisfação pessoal depois de que suas necessidades básicas foram realizadas. Mas não é assim que parece funcionar numa tribo. É mais provável que as tribos tenham se formado buscando mais a satisfação pessoal do que a necessidade de aumentar a provisão de comida, contrariando a teoria de Roberto Da Matta. A convivência não foi estimulada para gerar riquezas, mas a convivência é a própria riqueza, porque ela otimiza a capacidade de ação de um grupo em torno de qualquer objetivo comum, mesmo que não seja material. Em relação a isso, o socialismo mostra a mesma falha do capitalismo. Numa sociedade socialista a visão de crescimento e a valorização do trabalho humano enquanto gerador de uma riqueza continuam, o que significa que as pessoas param de construir pirâmides para seus chefes e passam a construir pirâmides para si mesmas. Mas isso não soluciona o fato de que o sistema é insustentável, porque as relações ecológicas continuam sendo ignoradas.
Como qualquer trabalho que segue um modelo de paradigma alternativo, este trabalho levanta mais questionamentos do que soluciona. Isso é necessário, uma vez que nenhum paradigma nasce fechado, mas ao inverso, ele abre espaço onde o desenvolvimento será realizado. O objetivo aqui é mostrar que, mesmo que não seja diretamente proibido realizar empreendimentos sustentáveis, a estrutura cultural forma uma enorme barreira para a realização delas. O que nos importa não são as leis federais, mas as leis físicas contra a realização das atuais práticas, e essas leis não podem ser burladas. Podem ser evitadas por um dado tempo, mas não sem um custo crescente. Se os canais de entrada e de saída de matéria e energia para uso humano exclusivo continuarem crescendo, eventualmente diminuirão a diversidade do planeta a um nível fatal, e esse tipo de dano é irreparável. Muitos estudiosos enxergam a sociedade como um sistema fechado, colaborando para que a natureza seja vista meramente como um importante acessório. Mas segundo a Segunda lei da termodinâmica, é impossível reutilizar toda energia gasta num sistema fechado. Por causa do ciclo entrópico, continuar com medidas paliativas em relação ao ambiente, é entrar num beco sem saída. Não podemos sobreviver por conta própria, existem certos limites sobre até onde podemos controlar o ambiente sem que os efeitos se voltem inevitavelmente contra nós e contra o equilíbrio do mundo todo. Enquanto isso não aconteceu, no entanto, a solução é mais fácil do que parece. É uma mera questão de transformação de idéias, e sempre que alguma idéia mudou não foi porque leis foram aplicadas ou porque as pessoas foram forçadas a agir diferente, mas porque as pessoas encontraram algo que valesse a pena. A substituição de memes mal adaptados pode ajudar mais do que imaginamos, e pode ser feito tão imperceptivelmente como a disseminação deles é feita através dos meios de comunicação. Nenhum grande líder precisa ser eleito, nenhuma religião precisa ser seguida, nenhuma guerra precisa ser travada. Se o paradigma econômico mudar vai ser porque as pessoas trabalharam em torno de uma nova visão e, se fizeram isso, é simplesmente porque perceberam algo mais vantajoso além de seu próprio paradigma.
Baseado na tese de Mark S. Meritt:
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