A história dos seres humanos está em continuidade com a história dos hominídeos, que por sua vez está em continuidade com a história dos primatas e assim por diante até o primeiro ser vivo. Mas geralmente o que é chamado de história da humanidade não passa da história de uma cultura: nossa cultura. Qual o nome de nossa cultura? Nunca demos um nome porque sempre a chamamos de “humanidade”. Mas a tradução dos nomes que os povos tribais povos escolhem para chamar a si mesmos também é “humanidade”. Todos os povos chamam a si mesmos de humanidade, e nós somos apenas um desses povos.
Tudo aquilo que existe apenas em nossa cultura não pode ser essencial para a humanidade. Dizer que algo é essencial para uma espécie e que isso se encontra em apenas uma cultura é uma contradição. Então tudo que criamos em nossa cultura que não existe em nenhuma outra cultura pode ser essencial para nós, mas não é essencial para a humanidade. Direitos humanos não são essenciais, leis jurídicas não são essenciais, literatura não é essencial, e assim por diante...
A história de nossa espécie é recente se comparada com a história de outros primatas. Mas a história de nossa cultura é ainda mais recente, mesmo se comparada apenas com a história de nossa espécie. A história de nossa cultura está marcada pelo acúmulo. Nós acumulamos muitas vezes mais pessoas, coisas e problemas do que todos os outros povos do passado. Um único país pode conter mais gente do que toda a população humana de mil anos atrás.
Acumular é uma constante em nossa cultura, e o acúmulo não pode durar para sempre. O acúmulo exige muitas coisas: exige um modo de vida completamente diferente daquele para o qual os seres humanos evoluíram e se adaptaram. Exige um controle cada vez maior da natureza e do próprio homem, porque a tendência natural do acúmulo é que ele seja temporário. Para concentrar e manter o acúmulo, é preciso um controle cada vez maior, que também tem um limite.
Misturar evolução com o surgimento de nossa cultura é problemático. Certamente a evolução está envolvida nisso, mas não quer dizer que nossa cultura seja “mais evoluída” que as outras. Tal afirmação consiste num erro porque não há uma escala evolucionária. Todos os seres e culturas existentes são resultados diferentes da evolução, mas são todos tão evoluídos quanto podem. A extinção abre espaço para uma espécie nova, mas não necessariamente melhor. Para saber se algo foi um sucesso ou um fracasso é preciso um tempo muito grande. Mesmo o que é sucesso agora por se tornar um grande fracasso no futuro. As espécies não estão se aperfeiçoando, estão apenas mudando.
As histórias de outras culturas que tinham o acúmulo por fundamento foram bastante curtas, o que não é bom sinal para nós. É muito difícil manter um sistema que depende de cada vez mais complexidade. É como fazer um castelo de cartas. Nossa cultura exige cada vez mais esforço apenas para continuar em pé. Nós até mesmo sabemos que isso não vai durar para sempre: chamamos esse evento de “fim do mundo”. Mas a idéia pressuposta nisso é que nossa cultura é a humanidade, logo o fim de nossa cultura só poderá ser o fim do mundo.
Tendemos a ver tudo que está fora de nossa história como irrelevante. É como se tudo fosse um prelúdio para nossa história, tudo aconteceu para que nós surgíssemos. Essa crença no destino humano impede qualquer tentativa de compreender a história humana como algo natural.
Há uma solução para nossa cultura? Podemos mudar nossa história futura? A especialidade de nossa cultura é o acúmulo, e o acúmulo é insustentável, então não podemos nos salvar e salvar esta cultura ao mesmo tempo. Mas podemos mudar de cultura. Podemos criar uma nova cultura assim como criamos as outras. Isto dependerá inteiramente de cada um de nós, seres humanos imersos nesta cultura.


16 comentários:
Oi. Achei o post interessante. Só queria deixar um olhar meu sobre uma reflexão em uma frase sua.
"O acúmulo exige muitas coisas: exige um modo de vida completamente diferente, para o qual os seres humanos não estão adaptados porque nunca experimentaram antes."
Penso que esta frase poderia ser melhorada, pois ela passa uma idéia de que se a nossa cultura se adaptar de tal forma que assimile ou crie uma possível cultura de acúmulo, o acúmulo seria justificável nesta nova cultura. O que não concordo.
Penso que para vivermos de uma forma que esteja nas condições de vida que o Planeta e nós podemos ter é eliminando qualquer forma de acúmulo, seja ele alimentício, populacional, cultural e etc.
abraço!
Na verdade, não vejo nada de errado na idéia de que se nossa cultura pudesse realmente se adaptar ao modo de acúmulo, então não haveria nada de errado nela. Nós não podemos proibir um modo de vida por si só, só podemos criticar se ele não funciona. Se ele funcionasse, porque eu seria contra? Funciona com cupins. O fato é que não funciona conosco, e provavelmente nunca vai funcionar, mas é preciso entender porque não funciona, e não simplesmente dizer que é errado porque é acúmulo.
Bom, então vamos começar a acumular para ver se conseguimos nos adaptar a este modo de vida. E deixemos de criticar o capitalismo também, afinal ele está tentando descobrir uma nova forma de modo de vida.
Outra coisa, o acúmulo populacional de seres humanos também não deveria ser criticado, afinal existe uma possibilidade, em algum dado momento, de ele poder dar certo, afinal, de repente, poderemos estar adaptados, como se fossêmos uma sociedade de cupins (ah esqueci, cupins não detonam com o meio ambiente, não alteram todo o ecossistema do planeta). Vamos tentar, tentar é que o há. É o que vale!
Viva à liberdade de adaptação! Vivas! Viva à liberdade de descobertas de modos de vida, mesmo que seja o que tiver que ser.
PS> Deixando a ironia de lado, não concordo com isso. Não é nossa cultura que não está adaptada ao modo de vida de acúmulo, ela está. O que não está adaptado é o resto do Planeta. É o planeta que não suporta nosso modo de vida que é baseado no acúmulo.
Minha idéia não é proibir modos de vida, mas tentar modos de vida que condigam com a realidade do planeta; realidade de capacidade de vida que pode haver nele.
Vou repetir a frase para ver se você me entende:
"Penso que para vivermos de uma forma que esteja nas condições de vida que o Planeta e nós podemos ter é eliminando qualquer forma de acúmulo, seja ele alimentício, populacional, cultural e etc."
Eu concordo com sua frase, eu só estava procurando possíveis brechas, como você fez com minha frase. Mas você está certo, eu não quis dizer que o acúmulo é errado porque ainda não nos adaptamos a ele, mas porque nós já estamos adaptados a outro modo, e quando eu digo adaptação não estou dizendo adaptação cultural, dessas que mudam facilmente, mas adaptação genética, dessas que a gente não escolhe.
É por isso que não podemos esperar que as coisas se adaptem a esse modo de vida, mas precisamos de um modo de vida que se adapte a esse planeta, porque ele muda muito mais lentamente que nosso modo de vida.
Eu não quis dizer que nossa cultura não está adaptada ao acúmulo, mas que nós, como seres humanos, não estamos adaptados à cultura do acúmulo. Nós tentamos, mas não conseguimos fazer ela funcionar. É como um carro que não funciona, você pode andar nele, mas não vai chegar longe.
Muito obrigado pelos comentários.
levando em conta sua sugestão, vou mudar a frase para:
"O acúmulo exige muitas coisas: exige um modo de vida completamente diferente, para o qual os seres humanos não se adaptam BIOLOGICAMENTE."
Oi. Não quero ser chato, eu juro! Mas sua nova frase tomou tom reducionista. Sou contra reducionismo? Não! Mas ela poderia ser mais direta e ampla, o que seria mais correto.
Penso que não é biologicamente o problema com o acúmulo. O problema é com as causas que ele impõe sobre o meio em que habitamos. O ser humano até se adapta (adaptaria) ao modo de vida baseado no acúmulo; é o que está à nossa volta que é destruído com ele e "de quebra" nós vamos juntos, já que dependemos do que está à nossa volta (meio) para podermos viver (hoje, com todas as alterações que fizemos, sobreviver). Afinal, somos resultado de uma infinidade de alterações que ocorreram em nível genético mas que são inteiramente dependentes do meio que a condicionou (estou falando da influência do meio relativa às características que temos, características biológicas, diga-se de passagem) para que a vida em nós possa continuar até que se complete o ciclo.
As consequências que o nosso modo de vida gera, e que está nos levando rumo ao suicídio civilizatório, vão diretamente sobre o meio e nós sofremos com todas as alterações que provocamos nele, pois nosso desenvolvimento biológico foi, de certa forma, suplantando pela velocidade de desenvolvimento cultural que conseguimos gerar. Biologicamente, todos os seres que estão à nossa volta, incluindo nós, seguem um desenvolvimento que é muito mais lento do que a velocidade de alterações que nosso acúmulo cultural (civilização) pode gerar sobre o Planeta. De certa forma, a curva "J" expressa isso, o que nos leva a enxergar que este modo de vida que temos hoje é totalmente inviável.
Mas qualquer coisa, esqueça isso.
Estou me sentindo um tanto desconfortável falando dessa forma. Parece que fico tentando corrigir, grudando em detalhes idiotas e não é essa a idéia. É apenas um ponto de vista meu. Aqui o conceito de latifúndio vale sobre as frases que você escreve, afinal, elas são tuas, de sua autoria. Eu não tenho nada que querer melhorá-las ou criticá-las. No plano das idéias podemos aplicar a mesma regra.
Enfim, você sabe muito mais sobre isto do que eu e suponho que você sabe muito bem onde suas frases "pisam".
flw!
Você não está sendo chato, suas observações são ótimas, embora eu já saiba de tudo que você está falando. Estamos tendo problemas técnicos. Veja só, uma espécie só pode estar biologicamente adaptada a um modo de vida se este modo de vida estiver adaptado ao meio, já que toda adaptação biológica é lenta e depende da conservação não só da espécie, mas do seu ecossistema. Claro que a civilização contradiz a ecologia humana porque destrói nosso habitat natural, e é por isso que nós não podemos nos adaptar biologicamente a ela.
Talvez você pergunte: mas e se dominarmos a genética humana e adaptarmos nossos genes à civilização, como de fato estamos tentando fazer? Mas aí seria não seria uma adaptação biológica, seria uma adaptação tecnológica, uma adaptação artificial. Por incrível que pareça, a biologia não mais seria aplicável a nós. Precisaríamos de uma nova área, porque não estaríamos estudando fenômenos espontâneos e sim fenômenos criados. Em outras palavras, não seríamos mais seres naturais no sentido biológico do termo, seríamos seres artificiais. Tudo que está suscetível à engenharia do homem é artificial.
"uma espécie só pode estar biologicamente adaptada a um modo de vida se este modo de vida estiver adaptado ao meio"
Isso não poderia ser mais amplo? Veja, temos a espécie, o modo de vida e o meio. O modo de vida tem influência direta da atuação do meio e de características que biologicamente ocorreram durante dezenas de centenas de anos, pois algumas características que a espécie desempenha no seu modo de vida são consequências de suas capacidades e, no caso, elas são principalmente biológicas. No entanto, as ações que a espécie aplica ao meio (no caso poderíamos tomar o modo de vida) também alteram-no, o que gera uma espécie de holismo (por favor, não encontrei outro termo melhor) que acontece lentamente em todo o planeta. Por esse holismo acontecer de forma lenta isso o torna viável (e o único meio mais sustentável que posso ver por agora, pois ele é natural) pois, além de ocorrer sob influências de atuações climáticas, as alterações que as espécies provocam no meio também se encadeiam a ele o que gera um ciclo de existência e manutenção da vida na Terra.
Só que a nossa espécie, a espécia humana, tem a capacidade de alterar o meio de forma tão rápida que faz todo o resto do sistema não conseguir acompanhar estas alterações, nem nós mesmos podemos nos acompanhar, pois como somos dependentes biologicamente do meio as consequências das alterações recaem diretamente sobre nós, mas muitos não conseguiram enxergar isto.
Vou parar por aqui. Percebi que ampliar demais a "coisa" poderia não ajudar, ao contrário, torna complexo demais, o que penso não ser a idéia, pois a idéia inicial é fazer com que as pessoas entendam que este modo de vida não condiz com a realidade de vida que o planeta pode nos dar ou que podemos desempenhar nele. Se ficarmos buscando complexidade demais nos esquecemos do mais básico, mudar mentes com uma realidade que é simples.
Eu ia comentar o restante da sua frase mas isso não vai chegar a nenhum bom lugar para nós, nem para alguém que futuramente ler estes comentários. Melhor agir com idéias simples e diretas, e neste caso, esta sua frase uma espécie só pode estar biologicamente adaptada a um modo de vida se este modo de vida estiver adaptado ao meio, já que toda adaptação biológica é lenta e depende da conservação não só da espécie, mas do seu ecossistema segue perfeitamente esta "lei".
Enfim, obrigado pela compreensão.
flw!
De qualquer forma alterei novamente a frase para "Acumular é uma constante em nossa cultura, e o acúmulo não pode durar para sempre. O acúmulo exige muitas coisas: exige um modo de vida completamente diferente daquele para o qual os seres humanos evoluíram e se adaptaram."
Você acha que ficou melhor? Ou piorou? Pode falar.
[Acumular é uma constante em nossa cultura, e o acúmulo não pode durar para sempre. O acúmulo exige muitas coisas: exige que ignoremos todos os outros fatores naturais que ao longo de milênios contribuiram para a manutenção da vida no planeta, incluindo a nossa - ignorando os outros seres vivos e aquilo que é inanimado, os quais, de alguma forma direta ou indireta, desempenham papéis que contribuiem para que a nossa vida seja possível; exige um modo de vida completamente diferente daquele para o qual os seres humanos evoluíram e se adaptaram - como somos resultados de milhões de anos de combinações biológicas que estão conosco graças à relação que temos com o meio em que estamos, esta nossa cultura de alterar o meio de forma irreparável, muito rápida e inconsequente, nos baseando em valores que são exclusivamente nossos, tem nos feito caminhar contra tudo aquilo que está intrínseco em nosso ser natural; exige um controle cada vez maior da natureza e do próprio homem, porque a tendência natural do acúmulo é que ele seja temporário. Para concentrar e manter o acúmulo, é preciso um controle cada vez maior, que também tem um limite.]
Espero ter ajudado. Pode criticar o que acrescentei, se quiser.
Acho que entendi. Você queria adicionar mais pontos negativos, porque achou que eu estava sendo neutro demais. Alguma pessoa que lesse diria: "sim, realmente precisamos de mais controle, e é bom que tenha mos um modo de vida diferente, porque ele é melhor!"
Realmente não foi minha intenção deixar isso claro nessa passagem. O seu acréscimo ficou ótimo para deixar bem claro, mas eu não costumo a fazer isso. As coisas que você acrescentou vão se tornar claras se a pessoa procurar entender a civilização, e se ela não quiser entender, elas não vão adiantar nada.
Você tem contribuído muito comigo e eu adicionaria suas palavras ao texto com prazer, mas não estou certo se é necessário. O meu ponto aqui não é se a civilização é boa ou má, ou as coisas ruins que ela tem que fazer para existir, e sim que ele é insustentável. Até coisas boas podem ser insustentáveis. E a maioria das pessoas não está pronta para admitir, conscientemente, que a civilização não é uma coisa boa.
Compreendo esta sua posição. Desejo que dê certo.
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