Uma matéria da revista Marie Claire de dezembro 1999, chamada “Dez mandamentos modernos”, revela alguns imperativos da cultura global. Na linguagem da revista, os "fanáticos" de hoje em dia substituíram os mandamentos bíblicos por mandamentos da globalização. "O código contemporâneo recebe obediência cega, que vem não do temor a Deus, mas do temor aos outros. A punição não é mais o inferno, e sim a exclusão. O decálogo do mundo 'globalizado' é um retrato das compulsões modernas."
Essas compulsões são apresentadas como normas de comportamento que devem ser seguidas por uma mistura paradoxalmente equilibrada de pressão externa e interna. As pessoas precisam se enquadrar “por si mesmas”, não por imposição. Agem em resposta ao medo de ser excluídas, mas ao mesmo tempo não devem sentir-se obrigadas a isso, mas sim encarar como algo preferencial. “É importante resistir à cobrança, à pressão geral”. “As pessoas não são homogeneizadas, não são globalizadas, não precisam aceitar esses modelos”. Ninguém quer ser excluído, mas ninguém quer seguir uma cartilha, pois viver sob um conjunto de leis bem definidas caracterizaria o fanatismo, algo que deve ser evitado porque também gera exclusão. "É um roteiro perverso, se seguido ao extremo". A não acomodação aos modelos é a maior de todas as obrigações. O roteiro deve ser seguido, mas deve ser adaptado a cada pessoa e ocasião.
O jogo deve ser jogado sob a observação de uma "regra de ouro": "O mercado global faz com que as pessoas tenham que cumprir um único mandato, que se sintam impulsionadas a adotar novas leis". É preciso ser mutante, pois a regra de ouro é a instabilidade.
Esta regra de ouro implica que nenhuma lei pode ser chamada de lei, mas deve ainda ser cumprida. Para que o papel dado pela cultura global seja corretamente seguido, os atores devem usar uma boa dose de improviso, sem fugir do papel, mas sem se ater ao script, que não foi escrito. A pressão externa deve se ocultar por trás da aparência de uma escolha pessoal e livre, criando uma ilusão de liberdade. "Isto significa cumprir os novos papéis, mas mantendo a subjetividade". É um paradoxo, e ainda assim é exatamente o que os "especialistas" sugerem.
"O que ele sugere é o bom-senso do equilibrista: dar igual peso ao que vem de fora e ao que se tem por dentro". As pessoas não devem sentir-se obrigadas a aceitar esses modelos, porém não podem deixar de segui-los, de criar constantemente novos modelos igualmente adaptados à vida moderna globalizada.
O "bom senso do equilibrista" é como o imperativo do movimento contínuo. “Quando se patina sobre o gelo fino, a segurança está na nossa velocidade.” - Ralph Waldo Emerson. A globalização que valoriza a diferença, o valor do sujeito (subjetividade), se tornou um ídolo que exige sacrifício “voluntário”, porém sob uma ameaça implacável da exclusão, o que faz da “liberdade” uma grande mentira.
Pois, "a vida líquida é uma vida precária, vivida em condições de incerteza constante. As preocupações mais intensas e obstinadas que assombram esse tipo de vida são os temores de ser pego tirando uma soneca, não conseguir acompanhar a rapidez dos eventos, ficar para trás, deixar passar as datas de vencimento, ficar sobrecarregado de bens agora indesejáveis, perder o momento que pede mudança e mudar de rumo antes de tomar um caminho sem volta. A vida líquida é uma sucessão de reinícios, e precisamente por isso é que os finais rápidos e indolores, sem os quais reiniciar seria inimaginável, tendem a ser os momentos mais desafiadores e as dores de cabeça mais inquietantes. Entre as artes da vida líquido-moderna e as habilidades necessárias para praticá-las, livrar-se das coisas tem prioridade sobre adquiri-las." - Vida líquida, Zygmunt Bauman
1 – Amarás o dinheiro sobre todas as coisas. Poderia ser substituído por “Amarás a si mesmo sobre todas as coisas”. A sociedade canaliza os prejuízos para quem não tem dinheiro. Ninguém quer ser pobre porque os pobres são os que pagam a conta de toda corrupção. Então é preferível compactuar com a corrupção para ter dinheiro do que sacrificar a si mesmo sendo uma das suas vítimas. O dinheiro conforta por representar o não-sofrimento. Escalar para o topo é o que se exige para se ter o mínimo de conforto material. Ganhar mais dinheiro se tornou necessário para evitar ser penalizado pelo sistema econômico, que eleva progressivamente o custo de vida.
2 - Não envelhecerás. O medo de envelhecer é o medo de morrer sem ter vivido. Quanto menos se vive, mais se quer parar o tempo. A morte se torna sem sentido porque a vida se tornou sem sentido, e o presente se separa do passado e do futuro, vivemos separados da história, dentro de uma história individual. Por termos apenas o presente, este está sempre escoando por entre os dedos. Por mais que se mantenha a beleza, ela nunca permanece por tempo suficiente, porque permanece a separação que desfaz tudo no vazio.
3 - Cobiçarás todas as informações. Estar conectado com o mundo passou a significar saber o que está acontecendo nas áreas de interesse da cultura civilizada. Estar atualizado com algo irrelevante, consumir os mais novos produtos e valores e discutir o que há de mais recente. Aquele que não corre é atropelado, portanto o desejo pela informação é o desejo de não ser deletado junto com os arquivos velhos, como alguém que corre por uma escada cujos degraus vão sumindo quando são pisados.
4 - Terás orgasmos múltiplos. O paradoxo é que não devemos nos sentir obrigados a ter prazer para que, com isso, possamos nos sentir liberados para maximizar o prazer.
5 - Não deprimirás. Deveria ser “Não demonstrarás sua tristeza”. Ninguém quer demonstrar sua tristeza ao outro porque ao mesmo tempo ninguém quer saber da tristeza do outro, apenas da sua própria.
6 - Serás consumidora voraz. Também revela o imperativo de não ser impedido de preencher seu vazio com aquilo que esta cultura oferece: produtos. Coisas que te fazem sentir-se bem temporariamente. São as coisas que tornam suportável uma vida vazia.
7 - Não engordarás. Por trás das desculpas de que “é uma questão de saúde”, “meu trabalho exige” ou “me sinto bem assim”, se encontra o medo de ser descartada. A manutenção da aparência disfarça a insuficiência da essência. Luta-se contra a balança para não se encarar a si mesma. É como se tudo estivesse bem enquanto parece bem. Mas seja feliz com isso ou não, a escravidão à balança permanece.
8 - Trabalharás domingos e feriados. Representa o fim de todo valor não-utilitário para o tempo. “Tempo é dinheiro”. Não há mais dias santos, estes só podem ser respeitados pelo prazer que proporcionam. Significam reabastecimento de energia para o trabalho, e nada mais. Não ter tempo para “nada” é exigência de adequação. Mas por trás disso há o fato de que o trabalho também nos impede de pensar sobre o que realmente importa, mantendo nossa mente ocupada.
9 - Honrarás o grupo e os amigos. Aqui há uma divisão do tipo “tudo ou nada”: ou estamos nos movendo na rede de conexões, ou ficamos isolados, não há meio termo. Trata-se de uma luta para evitar ficar preso na teia. Ou você é a aranha, tecendo teias num fluxo de conexões que se fazem e se desfazem rapidamente, ou você fica preso como uma mosca. A convivência passou a ser regida pela troca de mensagens, por mais insignificantes que sejam. O mero ato do “diálogo” toma precedência sobre o seu conteúdo e sobre a efetiva durabilidade ou significância da relação.
10 – Levarás vantagem em tudo. Também poderia ser “Cobiçarás o outro e pelo outro serás cobiçado”. A cobiça gera a busca por ser cobiçado. “A vida é uma luta, uma questão de eficiência”. Mas ao mesmo tempo é mais importante aparecer do que ter ou ser. É uma luta por espaço sob o holofote. Como se aqueles que não fazem qualquer coisa para estar sob o holofote não estivessem sendo prejudicados por uma cultura da competição, mas prejudicando a si mesmos.
Todos esses imperativos são disfarçados de liberdade, de escolha pessoal. Naturalizados como se a vida fosse assim, como se nada pudesse ser pior que viver em contraste com essa cultura. A compulsão então é tratada como um “saudável” (e neurótico) equilíbrio entre ambição e desprendimento, um “saudável” (e ególatra) cuidado para com você mesmo. Só na valorização do indivíduo se encontra o valor da vida humana. Mas não pode haver nada de saudável em se adequar a uma cultura doentia. Isso é apenas a internalização da doença. Todos os exemplos são de pessoas “bem sucedidas”. É como se o recomendável fosse adoecer-se por conta própria antes que a sociedade te penalize por não ser tão doente quanto ela. Escolher a sua própria morte dentre os tipos disponíveis, oferecidos pela globalização.
0 comentários:
Postar um comentário