domingo, 28 de novembro de 2010

A ascensão da biocivilização

(Parte 2 de 8 da série Civilização 2.0)


Um dos discursos que o capitalismo assimilou é a crítica feita pelos movimentos que seguem uma visão ecológica e sistêmica da vida, tais como grupos de defesa do meio ambiente. Em 1982, no livro Ponto de Mutação, o físico Fritjof Capra usou uma visão orgânica para contrapor a visão cartesiana que ele identificou em vários aspectos da cultura. Essa visão seria a causa de nossos problemas sociais e ambientais. Para perceber como esse discurso foi assimilado, veja como ele é usado pelo economista Ignacy Sachs[1], criador do termo “eco-desenvolvimento”, que deu origem ao termo “desenvolvimento sustentável”, e é um dos maiores defensores da convergência entre ecologia e economia.
A proposta de Sachs é a emergência de uma nova civilização, a biocivilização. A biocivilização se baseia no uso de biocombustíveis e numa nova era de desenvolvimento rural. Já que a biomassa do planeta é limitada, haverá um equilíbrio entre produção de comida e geração de energia. O etanol será produzido a partir da celulose de resíduos florestais, graças ao uso de árvores de crescimento rápido que gastam menos água. Enfim, trata-se um aproveitamento racional e eficiente da biomassa. Uma vez que a fome não é causada pela falta de produção de alimentos, resolver o problema depende da distribuição das fontes de renda, e isso seria feito com a produção de biocombustíveis que, substituindo o petróleo, se tornariam uma fonte de riqueza inestimável. Contudo, isso exige que o foco do desenvolvimento recaia sobre o campo, e não mais sobre a cidade. Portanto se trata do fim da era urbana e industrial, e um retorno à agricultura familiar, que resolveria os problemas de emprego e renda.
Para que isso seja alcançado também seria necessário que os interesses da “segurança alimentar” e da “segurança energética” não sejam submetidos aos interesses da indústria petrolífera e automobilística, por exemplo. Mas como isso poderia ser feito? A sociedade é quem deveria controlar o mercado, criando sistemas integrados de produção de alimento e energia. Segundo Sachs, o Brasil poderia ser um pioneiro nessa área. Para isso, seria preciso obrigar o Estado a unir os interesses sociais aos ambientais. Bastaria resolver esse conflito entre sociedade e Estado. Mas a questão pode ser bem mais complexa do que Sachs faz parecer.
            A visão de progresso expressa por Sachs coloca os caçadores e coletores no primeiro degrau de uma escalada para eficiência na produção de comida e energia. Enquanto as técnicas de produção avançavam, passando pela agropecuária e pela era dos combustíveis fósseis, os danos ambientais também aumentavam. Mas na biocivilização isso não vai mais acontecer, porque há um retorno para a fonte primária, a energia do Sol. Teremos veículos mais leves e poderemos conciliar a mobilidade com o desenvolvimento local. Pelo menos é assim que se espera que aconteça. Não há nenhuma evidência segura de que isso sequer seja possível. Pelo que sabemos, nenhuma alternativa é tão eficiente e versátil quanto o petróleo. E mesmo que isso seja alcançado, a questão parece reduzida a um materialismo. Tudo que importa são as condições materiais e econômicas para manter um processo progressivo e acelerado. Nenhuma palavra é dita sobre qual é o sentido de manter esse processo.


[1] As biocivilizações do futuro e o potencial brasileiro. Entrevista com Ignacy Sachs. http://www.ecodebate.com.br/2009/03/05/as-biocivilizacoes-do-futuro-e-o-potencial-brasileiro-entrevista-com-ignacy-sachs/

(Atualizado em 2011)

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