(Parte 1 de 8 da série Civilização 2.0)
Alguns anos atrás eu chamei o capitalismo de monstro assimilador. Um monstro que tem o poder de assimilar para si tudo aquilo que é usado contra ele, absorvendo todos os discursos que usamos para criticá-lo e todas as ações que visam destruí-lo. Ele usa nossos próprios conhecimentos e meios de ação para se fortalecer e expandir. Nossas estratégias e teorias são transformadas em algo que beneficie o modelo econômico capitalista, e isso é feito sem que nós percebamos ou até mesmo com nosso consentimento. O processo de assimilação ocorre numa velocidade cada vez maior, porque a cada movimento que ele assimila, ele aumenta sua capacidade de assimilar novos movimentos.
O problema é que o monstro assimilador não tem identidade definida. Por causa de sua habilidade de assimilação, ele está em constante mutação. Logo, ele não é exatamente capitalista, não é representado por este ou por aquele aspecto ou interesse, mas é uma mistura cada vez mais confusa de todas as coisas. O importante não é exatamente aquilo que o compõe, mas o arranjo dessas coisas. Por exemplo, ele pode ser composto de coisas que em si são muito boas, mas que participam de uma estrutura que num todo é insustentável. Essa estrutura não é fixa, mas fluída. Não é cartesiana, mas sistêmica, e comporta contradições sem que isso impeça seu funcionamento. O seu caos aparente revela uma complexa harmonia interna que mantém um número crescente de elementos em desarmonia consistente. Isso dificulta a análise do processo, porque não sabemos distinguir onde a coisa começa e onde acaba. Sua localização é tão imprecisa quanto de uma partícula subatômica. De certa forma, o monstro seria um morto-vivo. Um ser capaz de perpetuar sua própria morte por um tempo indefinido, e que ao mesmo tempo tem um poder sobrenatural de consumir vida. O pior não é causar a morte do que é vivo, mas sim perpetuar a morte absorvendo a vida.
Um exemplo recente de monstro assimilador apareceu no filme Astro Boy (2009). Nele, uma tecnologia criada para a paz é usada para guerra, sai fora de controle, e acaba assimilando partes da utopia tecnológica que a criou para aumentar seu poder destrutivo, ameaçando toda a existência. No filme, a solução é deixar que o monstro assimile o herói, que contém em si a energia contrária ao do monstro, e quando as energias contrárias se juntam elas se anulam, destruindo ambos. Você pode ver essa mesma ideia em muitos filmes. Mas essa solução não está disponível para nós, porque nós perdemos a capacidade de distinguir entre uma força e outra. Além disso, nosso monstro mistura as duas coisas sem se destruir. Ele pode fazer isso porque consegue manter elementos contraditórios dentro de si sem deixar que eles se anulem, mas usando-os para gerar movimento, tal qual um pêndulo perfeito. Ele é contraditório, mas compreende a própria contradição, unindo a tese e a antítese numa síntese. Isso é necessário para a sobrevivência de qualquer monstro assimilador pós-moderno.
[Notas: Minha crítica original ao monstro assimilador vem de um artigo chamado Como matar um monstro assimilador, o terceiro texto do livro Por uma mudança, que publiquei em 2007. A seguinte crítica está baseada em textos que li no decorrer desse tempo, e no que aprendi com o autor do seguinte texto: Crise do capitalismo global e o ethos da pleonexia]
(Atualizado em 2011)
11 comentários:
cara perfeito muito do que penso... seu blog inteiro. gostaria de rolar idéia contigo. me adcione no msn. se der...
cheguei a adciona-lo de um site seu em um email...
meu email:
ruggeriu@hotmail.com
por onde moro, existe uma ideia do pessoal q "contesta o sistema" de buscar não fugir da assimilação mas ser indigesto. A primeira vista achei interessante a idéia e ja tinha vislumbrado isso em outros lugares, ate tentando buscar isso... mas não me parece eficaz...mas...
Há uma letra bem interessante sobre o tema, é da banda Demonkratzie, chama-se Capitalismo
Eles estão nos rodeando e
analisando todos os nossos movimentos
A espera do momento certo, para tornar sua rebeldia
a nova engrenagem do mercado
Somos capturados diariamente
Pelo monstro assimilador!
Não espere por fantasmas do passado
seus ídolos estão descansando em paz
Seja a sombra da escuridão
Desconstrua seus valores
Como matar esse monstro assimilador?
Ande em passos largos e silenciosos!
Valeu Xi Drinx. Eu já conhecia essa, e tem outras bandas que também se inspiraram nessas idéias.
silenciar pra que, pra não ser assimilando? onde começa e onde termina a assimilação? ai a resposta; onde começa e onde termina o silencio?
Anônimo,
Quem falou de silenciar? Não sei do que está falando.
me refiro aos passos silenciosos e largos do xi drinx - vide acima...
porq se pensarmos bem, se uma idéia for rebelde não seria bom q fosse difundida para q sempre depois nos deparemos com ela e nos mantem relembrados desta rebeldia?
isso em todas as mídias
A referência a "passos largos e silenciosos" é parte da letra da música do Demonkratzie, que aliás de chama Captalismo, e não Capitalismo.
Difundir idéias "rebeldes" tem a ver com isso sim, vide o sucesso do filme V de Vingança. Nossa sociedade consome rebeldia. A letra diz justamente isso: "tornar sua rebeldia a nova engrenagem do mercado". Diz também "Somos capturados diariamente pelo monstro assimilador", ou seja, de acordo com a metáfora, capturados significa capitalizados. Agora, eu acho que o final, "desconstrua seus valores" e "ande em passos largos e silenciosos" tem a ver com algumas idéias relacionadas ao desconstrutivismo de Derrida, e talvez a ver com algumas idéias que expus no texto "O tao da subversão", que fala sobre ser silencioso no sentido de não chamar atenção para si, mas agir "nas sombras", quando ninguém estiver olhando. Isso combinava com minhas idéias na época. Não é o que eu defendo hoje.
O desconstrutivismo é um pós-modernismo, elimina a metafísica e os critérios de verdade, e se perde no vazio por causa disso, tal qual o niilismo. Já a questão do "Tao da subersão" é uma coisa que posso reavaliar em outro momento. A princípio, eu diria que meu texto, que tinha o subtítulo "A arte de ser perigoso e discreto ao mesmo tempo", se baseava também numa percepção pós-moderna, e provavelmente no medo. Infelizmente foi um texto que influenciou pessoas, pelo número de citações que teve.
Saudações Janos,
Quanto aos monstros assimiladores, por tudo que tenho visto, só posso constatar que os malditos monstros só tem dois fins possíveis, ser assimilado por outro monstro maior que ele, ou morrer num colapso gerado pelo seu própio tamanho ingovernável Quase sempre é um misto de ambos.
Isso tem me deixado muito triste ultimamente, pois não sei o que é pior conviver com essa praga que destrói tudo que é potencialmente bom, ou pensar em toda destruição proveniente de seu colapso.
Abraços, Hélio de Paiva Jr.
Saudações Janos,
Quanto aos monstros assimiladores, por tudo que tenho visto, só posso constatar que os malditos monstros só tem dois fins possíveis, ser assimilado por outro monstro maior que ele, ou morrer num colapso gerado pelo seu própio tamanho ingovernável Quase sempre é um misto de ambos.
Isso tem me deixado muito triste ultimamente, pois não sei o que é pior conviver com essa praga que destrói tudo que é potencialmente bom, ou pensar em toda destruição proveniente de seu colapso.
Abraços, Hélio de Paiva Jr.
Olá Hélio,
Vamos supor que, com a globalização, seja o monstro, e não os monstros. Já estão todos unidos. E este monstro assimilou o bastante para saber como evitar o tamanho ingovernável. Tem uma frase muito interessante no filme Tropa de Elite 2: "O sistema corta uma mão para salvar o braço. O sistema não tem cara, se reorganiza sempre". Mas não se preocupe, ainda há outros meios.
Participem do grupo de discussão: http://groups.google.com/group/civilizacao
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