terça-feira, 30 de novembro de 2010

Origens da biocivilização

(Parte 3 de 8 da série Civilização 2.0)

            É fácil perceber a relação desse discurso com as idéias de Capra: “A nova cultura que está emergindo compartilha uma visão de realidade que ainda está sendo discutida e explorada, mas que se consolidará finalmente como um novo paradigma, destinado a eclipsar a visão de mundo cartesiana em nossa sociedade”[2]. Ele fala de uma visão que tem um destino inevitável de se tornar global. Trata-se de uma crença no progresso, segundo a qual a civilização transcende sua forma atual e alcança um novo estágio de evolução que promete nos dar tudo o que desejamos desde nossos primórdios. Em outras palavras, é uma abordagem historicista, na qual a história conspira pelo bem da humanidade. A mudança será um resultado inevitável do desenvolvimento histórico do próprio capitalismo. O agente da mudança é a própria sociedade. Mas essa mudança de paradigma depende de uma aceitação prévia de novos pressupostos, que não podem ser derivados da visão anterior, porque esta não os comporta. O velho paradigma teria gerado os males do nosso mundo, e por isso pode ser previamente descartado em prol de uma “mudança de mente”. Afinal, a verdade depende de um determinado momento histórico, e não existe por si mesma. Quem discordar disso pode ser imediatamente tachado de ideólogo reacionário, e ser prontamente ignorado. Em outras palavras, depende de uma aceitação acrítica de pressupostos que não estão calcados numa análise bem fundamentada da realidade.
            A revolução cultural gera uma nova visão de mundo que não precisa ser comprovada, porque não se considera como uma verdade objetivamente válida, mas é apenas uma nova visão de mundo. Ela mesma afirma que não há verdades objetivamente válidas, e por isso não pode ser criticada com argumentos. O fato de ser uma nova visão é suficiente para que ela se justifique. Essa visão abandonou as referências universais, o que restou é o ponto de vista individual. Nada de substantivo pode ser dito sobre aquilo que não se manifesta fenomenologicamente ao indivíduo. A distinção entre verdadeiro e falso é substituída pela distinção entre adequado e inadequado em relação ao novo quadro conceitual. A crítica a esse esquema enfrenta a enorme dificuldade de demonstrar qual a distinção entre conhecimento válido e opinião pessoal para aqueles que partem do ponto de vista sofista de que “o homem é a medida de todas as coisas”. Uma discussão dessas sempre privilegia o sofista. Por fim, o conceito de revolução cultural é transformado num fluxo constante de diferentes momentos históricos que se conjugam um após o outro, formando um presente eterno. Toda a esperança é depositada no desenvolvimento tecnológico, mas às vezes outros termos são usados no lugar deste, como “criatividade” ou “capacidade humana de superação”. Não importa qual o nome que se dê, se trata de uma crença que deve ser questionada.


[2] CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação. Editora Cultrix, 1982, p. 255.

(Atualizado em 2011)

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