Se quisermos identificar o fundamento dessa nova forma de ver o mundo, deveríamos olhar para o conceito de autopoiese[3]. Este é provavelmente o conceito científico mais importante para o novo espírito da civilização, e só pode ser entendido a partir do pensamento complexo, que leva em conta a relação entre o todo e as partes. Ele indica uma nova forma de estudar os fenômenos biológicos, vendo os seres-vivos como seres que produzem sua própria existência de modo dinâmico, num processo de ‘autonomia dependente’, isto é, sua autonomia é dada pelo meio do qual dependem. Este conceito acaba influenciando não apenas a biologia, mas uma nova visão do homem e da sociedade numa era que trocou a física pela biologia.
Segundo Maturana e Varela, o organismo é determinado por sua estrutura, mas esse determinismo estrutural não significa que o organismo seja pré-determinado ou previsível. Ao contrário, sua identidade está na sua organização. A organização determina a percepção da realidade. Por isso, não se pode mais falar de conhecimento objetivo. Este só se garantia com base na obediência a uma autoridade. A valorização do raciocínio lógico serviu para manter uma estrutura de poder e para separar o ‘eu’ do mundo, criando uma visão fragmentada. A visão holística sugere que a verdade não é a mesma para todos, porque ela depende da percepção de um determinado ponto de vista num determinado momento. Mas tudo está em mutação. A mudança do indivíduo e a mudança do meio se correspondem, sendo que nenhum tem prerrogativa sobre o outro. Apesar de cada individualidade perceber uma realidade diferente, o diálogo entre dois indivíduos é possível porque eles partilham um contexto consensual, isto é, são pares estruturados.
O diálogo entre um par estruturado é diferente de uma simples transmissão ou transferência de informações. Os indivíduos se entendem porque a conduta de um combina com a conduta do outro, pois as estruturas de ambos são comunicantes. Nenhum deles dita normas de conduta ao outro. Na natureza não haveria obediência incondicional. As semelhanças de conduta seriam determinadas pelas semelhanças de estrutura, já que o comportamento é determinado pela estrutura. Isso garantiria a autonomia dos indivíduos e excluiria a necessidade de submissão ou determinação exterior, isto é, coerção. Isto serviria como base de rejeição ao domínio de uma estrutura social vigente, já que esta era vista como algo que impedia a autonomia dos indivíduos.
[3] MARIOTTI, H. 1999. Autopoiese, Cultura e Sociedade. http://www.geocities.com/pluriversu/autopoies.html
(Atualizado em 2011)
(Atualizado em 2011)
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