sábado, 4 de dezembro de 2010

Autopoiese como princípio

(Parte 5 de 8 da série Civilização 2.0)


Segundo a teoria de Maturana e Varela, os humanos produzem subjetividade por estímulos condicionantes. De um modo misterioso, eles criam a violência contra a autopoiese, contra a dinâmica da vida. A teoria evolucionista aplicada à sociedade serviu para colocar a espécie acima do indivíduo. Mas a fenomenologia biológica da autopoiese coloca o indivíduo no centro, defendendo que não há indivíduos “descartáveis”, porque todos podem ser úteis ao todo. O princípio hierárquico de sistemas que contém outros sistemas possibilitaria a compreensão da complexidade da vida. A autopoiese individual é por isso compreendida como subordinada à autopoiese social. Mas negar a autopoiese da parte seria negar a autopoiese do todo, por isso não faria sentido dizer que a preservação do social tem precedência sobre a preservação do indivíduo. Ao contrário, a sociedade só pode ser autopoiética se satisfazer a autopoiese dos seus membros. Qualquer sistema que descarte membros produtivos seria patológica. Mas se um membro se torna improdutivo, quer dizer que perdeu sua autopoiese.
De acordo com alguns defensores dessa tese, se você não concorda com essa visão mundo, é apenas porque foi condicionado pelo pensamento linear, não aprendeu a pensar complexamente, e por isso não tem condições de perceber as coisas dessa forma. Você também perdeu sua autopoiese. As ideias têm que combinar com o paradigma, não a realidade objetiva, mesmo porque de acordo com o próprio paradigma, nem sequer existe realidade objetiva, pois a realidade não é a mesma para todos. Com esta circularidade, tudo está justificado. A velha cultura seria competitiva e excludente, a nova cultura seria integradora e inclusiva. A nova cultura, assim como o novo capitalismo, defende a matemática do jogo de soma não nula, isto é, a vitória de um não depende da derrota de outro, podemos todos vencer, podemos todos ter qualidade de vida. Filosoficamente, se trata da aceitação da doutrina da síntese dos contrários, que sustenta a filosofia do progresso mútuo, quantitativo e qualitativo, mas sem base objetiva. A única base e o próprio homem.
A nova cultura inspira competência e não competição. Ao invés de lutar contra os outros, a luta pela sobrevivência seria uma luta para superar a si mesmo. Seus defensores esperam que a mudança cultural leve a um auto-aperfeiçoamento individual. Quer dizer que podemos criar uma cultura em que todos os avanços possam ser usados para o bem da humanidade, basta sabermos lidar com o risco e com a mudança contínua, o assim chamado “fluxo da vida”. O critério de competência não seria excludente porque a competência é um fator estrutural, que depende de um momento específico e não de uma verdade eterna. Logo, não há problema em ser quem você é, mas sim em estar como você está. Isto reabre as possibilidades de progresso individual, e suporta as teses da micro-revolução ou revolução pessoal. Se não conseguirmos nos adaptar a tal fluxo da vida... Bem, não será culpa de ninguém, é só azar. Reconfortante? Só se você ignorar que a força que faz o fluxo da vida correr cada vez mais rápido é a mesma que fragiliza as relações humanas e nos leva à desintegração por um processo acelerado de desestruturação e reestruturação, que, aliás, não tem sentido nenhum. É um fim em si mesmo.

(Atualizado em 2011)

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