Provavelmente o leitor poderá levantar muitas objeções quanto à minha afirmação de que o paradigma sistêmico ou ecológico já foi absorvido pelo monstro assimilador. Em primeiro lugar, isso não significa que eu despreze essas coisas. Não significa que você pode ser ignorante em relação a essas coisas, mas o contrário, que você não pode ignorar como as coisas mudaram. Ignorar seria continuar perseguindo fantasmas do passado, que já não têm relação com o atual estágio de desenvolvimento do monstro.
“Mas você está criticando sem apontar nenhuma solução, por isso sua crítica não tem valor”. Isto não é verdade. Eu estou apontando uma solução, mas não uma solução para a civilização, porque ela faz parte do problema. Não é a civilização que está doente, nem o homem é a doença, mas é o homem que está doente, e a civilização é o sintoma da sua doença. Minha sugestão inicial é que se critique a civilização desde seus pressupostos mais básicos. Se ao invés disso atacamos somente este ou aquele aspecto, vamos apenas fazer parte da fluidez pós-moderna. Parece que as pessoas não querem uma solução para a civilização como um todo, porque isso seria “jogar fora o bebê junto com a água suja”. Este argumento faz analogia entre a civilização e um inocente bebê. É como se não pudéssemos evitar, como se a civilização fosse existencialmente necessária ao homem, ou como se o homem autêntico fosse o homem civilizado. O verdadeiro motivo parece ser o medo de perder confortos com os quais já nos acostumamos.
O erro é justamente pagar qualquer preço para preservar aquilo que não precisa ser preservado. A civilização é a fonte de benefícios injustos que ninguém quer abrir mão. Hoje em dia, você raramente vai encontrar alguém que não se preocupa com a questão ecológica. No máximo verá empresários preocupados em ver seu crescimento ameaçado por causa de defensores do meio-ambiente. Eles acreditam que a ecologia não pode impedir o crescimento econômico, porque a crise econômica pode atingir a todos e piorar as coisas. O movimento ecológico também acredita nisso. O problema para ele se resume ao uso eficiente da energia, então não há porque prejudicar a economia, mas ao contrário, sustentabilidade pode ser um bom negócio. Sempre vai haver um eco-capitalista para nos lembrar que uma coisa não impede a outra, podemos lucrar preservando, basta pensar diferente. O ser humano é tão criativo, com certeza ele inventará um modo de comer o bolo e preservá-lo ao mesmo tempo, de modo racional.
Por outro lado a civilização é oriental o suficiente para não se apegar a nada. Até a necessidade de crescimento pode ser passageira, como indicam os recentes movimentos pelo decrescimento[8]. O monstro não é capitalista, ele simplesmente é. Mesmo o crescimento não é mais importante que o desenvolvimento e a própria superação do estágio atual. Mesmo o acúmulo e a expansão não são mais importantes que a evolução do monstro. As pessoas têm criticado o progresso quantitativo, mas não o qualitativo. O novo espírito da civilização não rejeita nada, ele combina suas necessidades com aquilo que há de mais atraente, aquilo que achamos que há de melhor em nós. Ele é jovem, rápido, inteligente, divertido, interativo... É um show de comédia de improviso. Ele vai interpretar qualquer papel para te impedir de vê-lo pelo que ele realmente é.
“Só há uma coisa a fazer: você tem que escolher” – Frase não encontrada no Google.
[8] Ver o texto “Gordura e crescimento”, de Cristovam Buarque. http://mentenovacuo.blogspot.com/2010/11/gordura-e-crescimento.html
(Atualizado em 2011)
(Atualizado em 2011)
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