Consumindo ecologia - Parte 3 de 7
Talvez esteja sendo gerada a crença de que se investirmos uma parte do nosso lucro para a preservação da natureza, então nós vamos prosperar ecológica e economicamente. O discurso eco-econômico diz que a preservação da natureza só será possível quando os bens naturais forem contabilizados como parte do capital. Ou seja, a ecologia só passa a ser possível dentro do discurso econômico. É isso que está acontecendo quando se fala de créditos de carbono, pegada ecológica, capital natural... Estabelecemos uma relação economicamente racionalizada com a natureza enquanto fonte de recursos materiais. O emblema desse eco-capitalismo é o planeta sendo segurado por mãos humanas, que provavelmente representa uma crença humanista.
A figura central da revolução ecológica é o consumidor. Quem é o consumidor? O consumidor não é uma pessoa, é um papel assumido por uma pessoa. O papel de consumidor consciente ou do cidadão ambientalmente responsável é encarnado por uma pessoa, mas é apenas mais um estilo de vida, que como qualquer produto cultural, é propagado por uma indústria que explora esse segmento de mercado. A cultura incentiva uma mudança social útil e necessária ao atual estágio civilizatório: substitui o pouco que resta dos valores humanos por direitos e deveres do consumidor. Propaga uma ética da eficiência, que ignora o que é fazer o bem, e se concentra em consumir bem. Transforma toda sabedoria ancestral em sabedoria para consumir bem, que é confundido com viver bem. Atribui-se uma responsabilidade meramente nominal a um sujeito que não recebeu condições para ser responsável. Pede-se que ele crie uma consciência que na prática é rejeitada pela cultura. Provoca uma retro-alimentação de sentimentos de culpa, sem qualquer possibilidade de correção.
Nós não conseguimos distinguir quando estamos sendo o agente ou o paciente da devastação da natureza. Uma imagem usada por Ítalo Calvino descreve essa situação: “O exército dos helenos que serpenteia entre os entre os desfiladeiros das montanhas e os vaus, entre contínuas emboscadas e saques, não mais distinguindo onde passa de vítima a opressor, circundando também na frieza dos massacres pela suprema hostilidade da indiferença e do acaso, inspira uma angústia simbólica que talvez só nós possamos entender”[1]. Nesta situação, tanto faz avançar ou desistir, ambas as escolhas não oferecem qualquer sentido para além do presente.
O consumo se tornou entretenimento, assim como a própria crítica ao consumismo. Mas o consumo ainda sustenta a economia, que se tornou dependente do espetáculo. Quando se reduz o crédito se diminui o consumo, e isso gera crise. Para evitar o colapso, é preciso injetar dinheiro como se fosse uma droga estimulante. Eles irão emprestar dinheiro para que você gaste o que não tem naquilo que não precisa, porque sem aumentar as suas dívidas não há desenvolvimento econômico, e sem isso não há investimento e sem investimento não há lucro, sem lucro a competitividade diminui e empresas tendem a falir, levando embora o seu emprego e sua possibilidade de consumo. A cultura apresenta aquele que não consome como avarento, e o que consome como um ser superior (um Net, um Ligador, etc...) reforçando assim uma representação que tem o objetivo de gerar coerção social[2].
[1] Citado por Carlos Vogt. O consumidor e o consumido.
[2] Entre os muitos exemplos, podemos destacar o adulto sem carro, sem casa própria e sem emprego fixo. Ainda que ele possa viver bem sem isso, continua sendo considerado o mais patético dos seres humanos, sendo prejudicado onde mais dói: nas relações afetivas. Ver http://www.pavablog.com/2010/10/05/patetico/
(Atualizado em 2011)
2 comentários:
Muito interessante e, mais ainda, assustador. rs
Mas, considerando uma situação hipotética: Você não acha que alguma espécie de Educação Ambiental (não necessariamente a institucionalizada que nos empurram na acadêmia) pode, se aplicada de forma não-formal, partindo de valores biocêntricos e disseminada horizontalmente, desenvolver na sociedade uma real "capacidade de ser responsável" por uma transformação social (com preceitos ecológicos)?
A perguta fico meio confusa. rs
Perguntei porque me parece, por esse seu texto, que, de forma alguma, pode partir de baixo uma mudança social em direção à um modo de vida mais sustentável.
Me enganei?
Abraço
Carlos,
Eu acho que o termo "valores biocêntricos" implica na centralização de um conceito biológico de vida, e não necessariamente na valorização da vida. Não é possível colocar a vida em primeiro lugar dentro deste modo de vida insano. O que se coloca em primeiro lugar é um conceito civilizado de vida. Isso também é disseminado horizontalmente por veículos não institucionais, mas não fica claro como isso pode gerar "capacidade de ser responsável". Nós usamos a palavra "responsabilidade" num sentido moderno, sem entender muito bem o que ela significa. Qualquer um pode dizer que "assume a responsabilidade" por algo sem ser realmente responsável, porque não adquiriu a capacidade de ponderar suas ações de acordo com um critério.
Por exemplo, hoje assisti uma reportagem na televisão mostrando um projeto de educação ambiental para crianças. Eles perguntavam para as crianças o que elas aprenderam, e o máximo que elas conseguiam dizer é: "Que precisamos preservar a mata atlântica", mas nenhuma indicação do que isso significa. Para elas, a ideia é que os adultos matam animais indefesos porque são maus, e amar os animais é suficiente. E para piorar, termina com a apresentadora dizendo: "É, vamos todos preservar a mata atlântica". É um nível nauseante de hipocrisia. Esta hipocrisia é a verdadeira lição que as crianças estão aprendendo.
Certamente nós precisamos de educação de verdade, e a escola dificulta isso mais do que facilita. Mas mesmo fora da escola, a situação não é diferente. A cultura não se restringe à propagação formal de sua ideologia, mas o meio informal também está dominado. Não sei se respondi, ou se isso não ficou claro. Mas é preciso rever esse clichê de que o sistema nos domina somente de cima para baixo ou por meio de instituições. A grande mudança é justamente que agora o processo ganhou autonomia para ocorrer também de baixo para cima. Não há mais polaridade entre "vontade do povo" e "vontade política", a ideologia joga de todos os lados. O cerco se fechou de tal forma que agora falar de mudança social rumo a um modo de vida sustentável é como falar de um salto por um abismo coberto por uma névoa densa. Quer dizer, não sabemos exatamente onde queremos chegar. Como diz Michael Ende, se o navio que está rumando para a direção errada, mover-se da proa para a popa não faz muita diferença. Temos agora que partir de algo mais baixo ainda, e ao mesmo tempo de algo mais acima. Tanto para o interior mais profundo de nós mesmos, quanto para aquilo que transcende a sociedade. Só uma coisa é incompleta sem a outra.
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