segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A individualização do selvagem como domesticação da natureza


Natureza domesticada e domesticação naturalizada


O artigo “A natureza como um espetáculo – A imagem da natureza selvagem versus o selvagem” faz parte das publicações da Revolução Feral, uma corrente do anarco-primitivismo que se baseia no resgate do elemento selvagem e pré-civilizado no indivíduo. Neste artigo há a pretensão de fazer uma distinção entre a imagem da natureza e a natureza como ela realmente é. Em resumo, o artigo defende que o selvagem reside no interior do indivíduo, enquanto a natureza é uma imagem imposta ao indivíduo a partir do exterior. O autor parece ter usado alguns conceitos da Sociedade do Espetáculo, de Guy Debord, para tecer seus argumentos.

Ele começa afirmando que o conceito de uma natureza maligna vem do Antigo Testamento. Esta é a primeira afirmação que podemos questionar, já que, segundo a teologia do Antigo Testamento, Deus concebeu a criação como boa e ordenada, de onde brotava vida eterna. A concepção da natureza como fonte do mal parece na verdade se originar de outras visões de mundo, que na verdade eram opostas ao judaísmo e ao cristianismo. Segundo algumas crenças pagãs, o homem, como elemento espiritual, seria bom, enquanto o mundo, como elemento material, seria mal.

O artigo também afirma que esta primeira concepção civilizada da natureza servia para nos afastar dela, criando uma imagem aterrorizadora da vida selvagem. Aqui, podemos questionar se o medo do selvagem poderia surgir antes da separação em relação ao selvagem. Como é possível temer aquilo no qual ainda se está inserido sem nenhum grau de alienação? Segundo o artigo, o conceito de natureza maligna teria criado uma dicotomia entre humano e natureza. Mas como pessoas vivendo sem esta dicotomia criariam este conceito de natureza, passando a ter medo da realidade da qual faziam parte integralmente e a qual estavam tão bem adaptadas? É muito difícil compreender como se pode criar tal conceito sem que houvesse algum tipo de separação entre homem e natureza. 

Esta separação entre homem e natureza está pressuposta na idéia de viver em termos dos seus desejos individuais. Viver exposto a eventos naturais externos ao homem, e que nem sempre o beneficiam, não é visto como algo que produz liberdade. Não podemos pressupor uma harmonia pré-estabelecida entre os desejos dos indivíduos e o funcionamento da natureza. A vida natural não é absolutamente livre, mas antes exige que os seres vivos se adaptem ao meio, se auto-regulem e limitem a si mesmos dentro do seu próprio território. O conceito de selvagem apresentado pelo texto é justamente aquilo que nega a submissão do indivíduo a qualquer realidade externa e superior a ele.

A civilização não poderia existir sem o desejo de viver em "termos dos seus desejos". O desejo de domínio é tão humano e natural quanto qualquer outro desejo, e está relacionado ao desejo de não ter suas potencialidades negadas por agentes externos. Este é por sua vez um desejo indispensável para a geração de acúmulo e expansão do homem para além dos limites naturais, que se tornam obstáculos a ser superados para que o homem realize seus desejos.

Segundo o artigo, o conceito de natureza como fonte de inspiração e beleza seria posterior ao conceito de natureza maligna, que por si só impediria a expansão humana. Haveria uma relação de medo e desejo. Francis Bacon comparava a natureza com uma bruxa que a inquisição deveria interrogar para extrair seus segredos, mesmo que sob tortura. Bacon teria afirmado que a ciência é o meio com que o homem estabelece poder sobre a natureza. A civilização teria se utilizado dessas duas concepções contraditórias, mantendo o homem ao mesmo tempo afastado e sempre em busca da natureza, para extrair dela recursos e para desfrutar da sensação de paz que ela proporciona. Mas este conceito de natureza boa parece ser derivado de algo anterior, que foi distorcido pela civilização, mas não criado por ela.

O autor do artigo afirma que domesticação é simplesmente viver de acordo com valores externos, e não de acordo com seus desejos, o que dificulta a tese da auto-domesticação humana. Assim, rejeita toda moralidade enquanto um tipo de opressão. O conceito de natureza seria então uma imagem criada por uma autoridade buscando reforçar seu poder. A cultura usaria essa imagem da natureza para vender produtos. Mas como uma autoridade poderia criar essa imagem sem que houvesse previamente uma alienação? O autor afirma que a imaturidade, a loucura, a delinqüência, o crime e a imoralidade podem ser aspectos do selvagem na civilização. Dessa forma, confunde a crítica à civilização com a crítica à autoridade, como se fossem a mesma coisa. A causa da confusão é a associação entre poder e autoridade. Os aspectos da civilização que o autor chama de “selvagens” poderiam ser nada mais que sintomas da civilização, ou ainda articulações que a tornam mais flexível e ampliam seu alcance.

Com esta ideia se rejeita toda ação, humana ou não, sempre que esta não confirme os desejos e caprichos do indivíduo. Esta visão rotula de “domesticação” qualquer intervenção na realização de escolhas individuais, mesmo que seja uma intervenção natural. Se o homem não agisse moralmente por si mesmo, sem ser forçado a isso, então o moralismo também não existiria. Da mesma forma, se o homem não aceitasse naturalmente a autoridade legítima, não seria necessário passar uma falsa imagem de autoridade para estabelecer poder. Em outras palavras, se o homem fosse naturalmente rebelde como o autor propõe, não existiria civilização ou tradição. A autoridade não poderia ser verdadeira ou falsa, simplesmente não poderia ter significado.

O artigo rejeita o conceito de natureza porque provavelmente parte da premissa que coisa alguma pode coagir o indivíduo a partir do exterior. Esta crença conceitua a liberdade como liberdade individual, isso é, considera o indivíduo como um agente incondicionado. Nós seríamos criadores de uma falsa imagem da natureza. Porém, o critério não é mais uma verdade objetiva, e sim individual e subjetiva. A questão é o significado que a natureza tem para nós, que nos impulsiona a ter uma relação instrumental com ela. Mas o autor desdenha da possibilidade de que haja modos corretos e incorretos de se relacionar com a natureza. Qualquer tentativa de estabelecer um modo correto de se relacionar com a natureza serviria apenas para abastecer uma indústria lucrativa. Defende assim uma espécie de incorrigibilidade do sujeito, e afirma que a natureza não pode ser algo maior que nós, rejeitando qualquer tipo de submissão.

Ser selvagem seria liberar desejos reprimidos e usar essa energia desencadeada para se opor à imposição da cultura. Mas o atual estágio da civilização também investe na liberação dos desejos, e não mais prioriza a repressão. A manutenção de algum tipo de repressão serve de estímulo para manter o movimento entre esses dois opostos que se completam na sociedade complexa.

A natureza selvagem é conceituada como a livre energia potencial dos indivíduos, que pode se manifestar a qualquer momento. Parece claro que o autor está se utilizando de critérios psicanalíticos, opondo felicidade à civilização. Buscar uma coisa seria idêntico a negar a outra. Ele recusa os papéis sociais que nos são forçados, opondo a isso o “viver em termos de nossas paixões, desejos e caprichos”. Em outras palavras, o que o autor conceitua como viver fora da civilização é viver a epithumia, termo grego que significa desejo de transgressão. Isto é concluído a partir do conceito de civilização como simples repressão e aceitação forçada de regras fixas.

Para o autor, dizer que os seres humanos são únicos e imprevisíveis significa dizer que eles são totalmente livres. Ser selvagem seria abandonar seus deveres e apenas “brincar ferozmente”, ou seja, fazer o que quiser sem se limitar por regras externas: “Mas se, no meio da cidade, em qualquer momento nós ativamente recusamos nossa domesticação, recusamos ser dominados pelos papéis sociais que nos são forçados e ao invés disso vivamos em termos de nossas paixões, desejos e caprichos, se nós nos tornamos os seres únicos e imprevisíveis que repousam escondidos por trás de nossas funções, nós somos, naquele momento, selvagens”. O autor talvez se esqueça que os desejos também são regulados por regras que não estão imunes à influência da cultura, por mais instáveis que sejam.

Neste caso, ser selvagem seria viável numa sociedade não civilizada? Os seres humanos viviam em termos de suas paixões, desejos e caprichos antes da civilização? Outras culturas, com seus tabus e tradições, provavelmente seriam prisões para um indivíduo “selvagem”. De fato, o artigo aponta para uma dicotomia entre “liberdade de espírito” e "lei da sobrevivência", apontando para a idéia de que a civilização é a preservação de um processo social, em oposição a uma vida livre, que seria como uma dança caótica, em constante mutação, composta por indivíduos auto-determinados estabelecendo entre si nada mais que relacionamentos livres. Para este autor, “descivilizar” significa deixar fluir aquilo que a cultura solidificou. Porém, é exatamente isto que a modernidade líquida faz.

É preciso compreender o verdadeiro papel dos desejos na civilização. Pois se não houvesse desejo de domínio, como o homem teria criado a civilização? O texto acusa a civilização de conceituar a natureza como maligna, porém defende uma concepção civilizada de indivíduo.

Heráclito defendeu que a natureza (physis) era regida por uma lei imanente (logos). Aristóteles acreditava no equilíbrio entre a lei eterna (natural) e a lei mutável (humana). Os estóicos diziam que a physis determina o nomos (lei). Mas de acordo com o convencionalismo, estes critérios não existem, porque não há bem em si. Tudo depende das circunstâncias, o que permitiu aos sofistas afirmarem que “o homem é a medida de todas as coisas”. A moral seria uma criação historicamente determinada, sem valores universais, ou seja, este argumento depende de um relativismo moral. As duas concepções fazem parte da civilização.

A única lei natural que os convencionalistas aceitam é a busca do prazer e do poder, que seria inerente ao homem. Protágoras foi o precursor do mito de que a sociedade tem origem em acordos sociais que estabelecem regras de convivência e limitam o poder dos fortes. Foi uma inspiração para Hobbes, Locke e Rousseau. A moral individualista, onde tudo é resultado de acordo, tem por princípio a ideia de homem como ser guiado somente por suas paixões, e afirma a primazia da vontade. A questão é que se aceitamos tal premissa, não há nenhum fundamento com o qual seja realmente legítimo criticar a civilização, senão o interesse próprio.

Dessa forma, a busca por uma vida selvagem que afirme a prioridade do sujeito e a individualização da moral seria muito mais próxima de uma auto-domesticação em estágio avançado do que de uma crítica à civilização.

0 comentários: