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1. O monstro assimilador revisitado*
Uma vez eu disse que o capitalismo é um monstro assimilador, um monstro capaz de assimilar para si tudo aquilo que é usado contra ele, absorvendo todos os discursos que usamos para criticá-lo e todas as ações que visam destruí-lo. Ele usa nossos conhecimentos e meios de ação para se fortalecer e expandir. Nossas estratégias e teorias são transformadas em algo que beneficie o modelo econômico capitalista, e isso é feito sem que nós percebamos ou até mesmo com o nosso consentimento. O processo de assimilação ocorre numa velocidade cada vez maior, porque a cada movimento assimilado ele aumenta sua capacidade de assimilar novos movimentos.
Mas o monstro assimilador não tem identidade definida. Por causa de sua habilidade de assimilação, ele está em constante mutação. Logo, ele não é exatamente capitalista, não é representado por este ou por aquele aspecto ou interesse, é uma mistura cada vez mais confusa de todas as coisas. O importante não é exatamente aquilo que o compõe, mas o seu arranjo. Ele pode ser composto de coisas que em si são muito boas, mas que participam de uma estrutura que num todo é insustentável. Essa estrutura não é fixa, mas fluída. Não é mecânica, mas orgânica. Não é linear, mas sistêmica. Comporta contradições sem que isso impeça seu funcionamento. O seu caos aparente revela uma complexa harmonia interna que mantém um número crescente de elementos em desarmonia. Isso dificulta a análise do processo, porque não sabemos distinguir onde a coisa começa e onde acaba.
Um exemplo de monstro assimilador aparece no filme Astro Boy (2009). Nele, uma tecnologia criada para a paz é usada para guerra, sai fora de controle, e acaba assimilando partes da utopia tecnológica que a criou para aumentar seu poder destrutivo, ameaçando toda a existência. No filme, a solução é deixar que o monstro assimile o herói, que contém em si a energia contrária ao do monstro. E quando as energias contrárias se juntam, elas se anulam, destruindo ambos. Você pode ver essa mesma ideia em muitas outras estórias e mitos. Mas essa solução não está disponível para nós, porque nosso monstro mistura energias opostas sem se destruir, pois ele não tem um fundamento definido. Ele consegue manter elementos contraditórios dentro de si sem deixar que eles se anulem, usando-os para gerar movimento, tal qual um pêndulo. Ele é contraditório, mas compreende a própria contradição, unindo a tese e a antítese numa síntese evolutiva. Isso é necessário para a sobrevivência de qualquer monstro assimilador pós-moderno.
2. A ascensão da biocivilização
Um dos discursos que a civilização assimilou é a crítica feita pelos movimentos que seguem uma visão ecológica e sistêmica da vida. Em 1982, no livro Ponto de Mutação, o físico Fritjof Capra usou uma visão orgânica para contrapor a visão cartesiana presente em vários aspectos da cultura. Essa visão seria a causa de nossos problemas sociais e ambientais. Para perceber como esse discurso foi assimilado, veja como ele é usado pelo economista Ignacy Sachs[1], criador do termo “eco-desenvolvimento”, que deu origem ao termo “desenvolvimento sustentável”, e é um dos maiores defensores da convergência entre ecologia e economia.
A proposta de Sachs é a emergência de uma nova civilização, a biocivilização. A biocivilização se baseia no uso de biocombustíveis e numa nova era de desenvolvimento rural. Já que a biomassa do planeta é limitada, deverá haver um equilíbrio entre produção de comida e geração de energia. O etanol será produzido a partir da celulose de resíduos florestais, graças ao uso de árvores de crescimento rápido que gastam menos água. Enfim, trata-se um aproveitamento racional e eficiente da biomassa. Uma vez que a fome não é causada pela falta de produção de alimentos, resolvê-la depende da distribuição das fontes de renda, e isso seria feito com a produção de biocombustíveis que, substituindo o petróleo, se tornariam uma fonte de riqueza inestimável. Contudo, isso exige que o foco do desenvolvimento recaia sobre o campo, e não mais sobre a cidade. Portanto se trata do fim da era urbana e industrial, e um retorno à agricultura familiar, que resolveria os problemas de emprego e renda, graças a uma nova revolução verde[2].
Para que isso seja alcançado também seria necessário que os interesses da “segurança alimentar” e da “segurança energética” não sejam submetidos aos interesses de indústrias como a petrolífera e a automobilística, por exemplo. Mas como isso poderia ser feito? A sociedade deveria controlar o mercado, criando sistemas integrados de produção de alimento e energia. Segundo Sachs, o Brasil poderia ser um pioneiro nessa área. Para isso, seria preciso obrigar o Estado a unir os interesses sociais aos ambientais. Seria preciso resolver o conflito entre sociedade e Estado, o que pode ser bem mais complexo do que Sachs faz parecer.
A visão de progresso expressa por Sachs coloca os caçadores e coletores no primeiro degrau de uma escalada para eficiência na produção de comida e energia. Enquanto as técnicas de produção avançavam, passando pela agropecuária e pela era dos combustíveis fósseis, os danos ambientais também aumentavam. Mas na biocivilização isso não vai mais acontecer, porque há um retorno para a fonte primária, a energia do Sol. Teremos veículos mais leves e poderemos conciliar a mobilidade com o desenvolvimento local. Pelo menos é assim que ele espera que aconteça. Não há nenhuma evidência segura de que isso sequer seja possível. Pelo que sabemos, nenhuma alternativa é tão eficiente e versátil quanto o petróleo. E mesmo que isso seja alcançado, a questão parece reduzida à economia. Tudo que importa são as condições econômicas para manter um processo progressivo. Nenhuma palavra é dita sobre qual é o sentido desse processo.
3. Origens da biocivilização
É fácil perceber a relação desse discurso com as idéias de Capra: “A nova cultura que está emergindo compartilha uma visão de realidade que ainda está sendo discutida e explorada, mas que se consolidará finalmente como um novo paradigma, destinado a eclipsar a visão de mundo cartesiana em nossa sociedade”[3]. Capra fala de uma visão que tem o destino de se tornar global. Trata-se de uma crença no progresso, segundo a qual a civilização transcende sua forma atual e alcança um novo “estágio evolutivo” que promete nos dar tudo o que desejamos. Em outras palavras, é uma abordagem historicista, na qual a história conspira pelo bem da civilização. A mudança será um resultado inevitável do desenvolvimento histórico do próprio capitalismo. O agente da mudança é a própria sociedade. Mas essa mudança de paradigma depende de uma aceitação prévia de novos pressupostos, que não podem ser derivados da visão anterior, porque esta não os comporta. O velho paradigma teria gerado os males do nosso mundo, e por isso pode ser descartado em prol de uma “mudança de mente”. Afinal, a verdade depende de um determinado momento histórico, e não existe por si mesma. Quem discordar disso estará sendo um ideólogo reacionário.
A revolução cultural gera uma nova visão de mundo que não precisa ser comprovada, porque não se considera como uma verdade objetivamente válida, mas é apenas uma nova visão de mundo. Ela mesma afirma que não há verdades objetivamente válidas, e por isso não pode ser criticada com argumentos. O fato de ser uma nova visão é suficiente para que ela se justifique. Essa visão abandonou as referências universais, o que restou é o ponto de vista individual. Nada de substantivo pode ser dito sobre aquilo que não se manifesta fenomenologicamente ao indivíduo. A distinção entre verdadeiro e falso é substituída pela distinção entre adequado e inadequado em relação ao novo quadro conceitual. A crítica a esse esquema enfrenta a enorme dificuldade de demonstrar qual a distinção entre conhecimento válido e opinião pessoal, para aqueles que partem do ponto de vista de que “o homem é a medida de todas as coisas”. Por fim, a revolução cultural seria um fluxo constante de diferentes momentos históricos que se conjugam um após o outro, formando um presente eterno. Toda a esperança é depositada no desenvolvimento tecnológico, que às vezes é chamado de “criatividade” ou “capacidade humana de superação dos limites impostos pela natureza”.
4. A autopoiese como nova visão de mundo
Se quisermos identificar o fundamento dessa nova forma de ver o mundo, deveríamos olhar para o conceito de autopoiese[4]. Este é provavelmente o conceito científico mais importante para o novo espírito da civilização, e só pode ser entendido a partir do pensamento complexo, que leva em conta a relação entre o todo e as partes. Ele indica uma nova forma de estudar os fenômenos biológicos, vendo os seres-vivos como seres que produzem sua própria existência de modo dinâmico, num processo de ‘autonomia dependente’, isto é, sua autonomia é dada pelo meio do qual dependem. Este conceito acaba influenciando não apenas a biologia, mas uma nova visão do homem e da sociedade, numa era que trocou a física pela biologia.
Segundo Maturana e Varela, o organismo é determinado por sua estrutura, mas esse determinismo estrutural não significa que o organismo seja pré-determinado. Ao contrário, sua identidade está na sua organização. A organização determina a percepção da realidade. Por isso, não se pode mais falar de conhecimento objetivo. O conhecimento objetivo só se garantia com base na obediência a uma autoridade. A valorização do raciocínio lógico só teria servido para manter uma estrutura de poder e para separar o ‘eu’ do mundo, criando uma visão fragmentada. A visão sistêmica sugere que a verdade não é a mesma para todos, porque ela depende da percepção de um determinado ponto de vista num determinado momento. Tudo está em mutação. A mudança do indivíduo e a mudança do meio se correspondem, sendo que nenhum tem prerrogativa sobre o outro. Apesar de cada individualidade perceber uma realidade diferente, o diálogo entre dois indivíduos é possível porque eles partilham um contexto consensual, isto é, são pares estruturados.
O diálogo entre um par estruturado é diferente de uma simples transmissão ou transferência de informações. Os indivíduos se entendem porque a conduta de um combina com a conduta do outro, pois as estruturas de ambos são comunicantes. Nenhum deles dita normas de conduta ao outro. Na natureza não haveria obediência incondicional. As semelhanças de conduta seriam determinadas pelas semelhanças de estrutura, já que o comportamento é determinado pela estrutura. Isso garantiria a autonomia dos indivíduos e excluiria a necessidade de submissão ou determinação exterior, isto é, coerção. Essa seria a base de rejeição ao domínio de uma estrutura social vigente, vista como algo que impede a autonomia dos indivíduos.
5. Autopoiese como princípio
Segundo a teoria de Maturana e Varela, os humanos produzem subjetividade por estímulos condicionantes. De algum modo, eles criam a violência contra a autopoiese, contra a dinâmica da vida. A teoria evolucionista aplicada à sociedade serviu apenas para colocar a espécie acima do indivíduo. Mas a fenomenologia biológica da autopoiese coloca o indivíduo no centro, defendendo que não há indivíduos “descartáveis”, porque todos podem ser úteis ao todo. O princípio hierárquico de sistemas que contém outros sistemas possibilitaria a compreensão da complexidade da vida. A autopoiese individual é por isso compreendida como subordinada à autopoiese social. Mas negar a autopoiese da parte seria negar a autopoiese do todo, por isso não faria sentido dizer que a preservação do social tem precedência sobre a preservação do indivíduo. Ao contrário, a sociedade só pode ser autopoiética se satisfazer a autopoiese dos seus membros. Qualquer sistema que descarte membros produtivos seria patológico. Mas se um membro se torna improdutivo, quer dizer que perdeu sua autopoiese. Há aí uma valorização da eficiência e da produtividade.
De acordo com os defensores dessa tese, se você não concorda com essa visão mundo, é apenas porque foi condicionado pelo pensamento linear, não aprendeu a pensar complexamente, e por isso não tem condições de perceber as coisas dessa forma. Você também perdeu sua autopoiese. As ideias têm que combinar com o paradigma, não a realidade objetiva, mesmo porque, de acordo com o próprio paradigma, nem sequer existe realidade objetiva. A realidade não é a mesma para todos. Esta circularidade justifica tudo.
A velha cultura seria competitiva e excludente, a nova cultura seria integradora e inclusiva. A nova cultura, assim como o novo capitalismo, defende a matemática do “jogo de soma não nula”, isto é, a vitória de um não depende da derrota de outro. Podemos todos vencer, podemos todos ter qualidade de vida. Filosoficamente, se trata da aceitação da doutrina da síntese dos contrários, que sustenta a filosofia do progresso mútuo, quantitativo e qualitativo, mas sem base objetiva. A única base é o próprio potencial aparentemente infinito do homem.
A nova cultura inspira competência e não competição. Ao invés de lutar contra os outros, a luta pela sobrevivência seria uma luta para superar contingências. Seus defensores esperam que a mudança cultural leve a um auto-aperfeiçoamento individual. Quer dizer que podemos criar uma cultura em que todos os avanços possam ser usados para o bem da humanidade, basta sabermos lidar com o risco crescente e com a mudança contínua, o assim chamado “fluxo da vida”. O critério de competência não seria excludente porque a competência é um fator estrutural, que depende de um momento específico e não de uma verdade eterna. Logo, não importa quem você é, mas sim como você está. Isto reabre as possibilidades de progresso individual, e suporta as teses da micro-revolução ou revolução pessoal. Se não conseguirmos nos adaptar a tal fluxo da vida... Bem, não será culpa de ninguém, é só azar. Mas a força que faz o fluxo da vida correr cada vez mais rápido é a mesma que fragiliza as relações humanas e nos leva à desintegração por um processo acelerado de desestruturação e reestruturação.
6. Fluidez como novo imperativo
Como se trata de uma síntese dos contrários, a nova cultura não descarta nada. Ela cria uma mistura confusa de discursos que não chegam a nenhum consenso senão o de que não há consenso. O novo paradigma valoriza essa fluidez como sendo necessária. Nossa sociedade seria um aspecto patológico da vida exatamente porque valorizou o que é estático, e não o que é dinâmico. Todas essas ideias são apenas frutos do desenvolvimento da própria cultura civilizada, passando do seu estágio moderno ou sólido para seu estágio pós-moderno ou líquido[5]. Este pretenso equilíbrio destrói o significado autêntico das coisas que ele tenta unir.
Essas ideias fundamentam não apenas a pseudo-ecologia, mas também a ecologia a ecologia integral e a ecologia profunda, que influenciam um novo paradigma político e econômico. O social é defendido a partir da autonomia individual. A nova cultura é um produto do liquidificador da pós-modernidade, e é a base para o discurso da biocivilização.
Aldous Huxley estava interessado na liberdade. Ele compreendia que o Estado poderia dominar corpo e mente, fazendo o indivíduo amar a servidão por meio de reforço positivo (prazer) e hipnopedia (aprendizado inconsciente). Ele estava interessado em distinguir o verdadeiro do falso, mas não deu nenhum critério senão o pragmático. Falou sobre a possibilidade de que a ciência e a tecnologia sejam colocadas a serviço do homem, que um paradigma biológico substitua o físico e que a mística substitua a fé. Enfim, que a eficiência substitua a tradição, e isso é facilmente considerado como verdadeiro por mentes que são herdeiras do iluminismo. Ele foi um visionário da nova civilização. Por exemplo, veja como a fragilização dos laços sociais combina com a proposta dos Clubes de Adoção Mútua no romance A Ilha: “Os nossos sociólogos chamam a isso de hibridação de micro-culturas e dizem que os efeitos são tão bons quanto aqueles que permitem a obtenção de diferentes variedades de milho ou de galinha”[6].
Huxley queria misturar o melhor dos dois mundos, ocidental e oriental. Acontece que, em termos de crítica à civilização, isso faz pouca diferença. Mas esse discurso está por trás do ideal de Capra, quando este defende, por exemplo, o consumo de orgânicos e de alimentos integrais porque a agroindústria fez o agricultor perder a liberdade e a criatividade no processo de produção, ficando restrito a reproduzir técnicas e modelos escolhidos por outras pessoas. É o problema da autonomia e impondo-se como causa de todos os outros. O problema seria o desequilíbrio entre os contrários, Yin e Yang, como exposto no seu Tao da física. O produto orgânico representa um uso mais eficiente da energia, e logo podemos constatar que Capra crê numa relação direta entre autonomia e eficiência energética, justamente como prega o paradigma da autopoiese, que por sua vez é resultado do desenvolvimento de uma cultura naturalista que tem por resultado a biocivilização.
É preciso notar que todas essas questões, tais como a instabilidade, o hibridismo, o nomadismo e a descentralização são produtos do desenvolvimento da civilização. Se em algum momento nós fomos separados de alguns desses elementos, somos agora reintegrados a eles por meio das relações artificialmente criadas num novo estágio da cultura civilizada. Quer dizer que o que é aceito de volta é aquilo para o qual se criou um espaço dentro da civilização onde aquilo pudesse permanecer “civilizado”[7].
7. Relações entre o monstro assimilador e visão sistêmica
Revisando o conceito de monstro assimilador como um processo sem identidade definida, podemos fazer a relação entre aquilo que a civilização se tornou no presente, seu processo de desenvolvimento e a visão de mundo pressuposta nos conceitos biológicos que ganharam espaço nas últimas décadas. O conhecimento necessário para manter esse processo funcionando parece diminuir, na medida em que o processo começa a ganhar a autonomia de uma máquina programada para reproduzir, gerenciar, corrigir e modificar a si mesma. O monstro está em constante mutação. Significa que qualquer dos seus elementos pode ser criticado sem ameaçar o todo. O que ele não pode criticar é seu próprio arranjo, ou seja, sua estrutura adaptativa.
Tal como os seres-vivos vistos sob a teoria da complexidade, a identidade do monstro não está na sua composição, mas na sua organização dinâmica. Ele não está externamente determinado, mas é determinado por sua própria estrutura, que é mantida por indivíduos. Não quer dizer que a civilização seja equivalente a um organismo vivo, mas que se apropriou desse modelo assim como nós nos inspiramos na natureza para criar as máquinas. Não apenas imitamos o funcionamento, mas assimilamos as capacidades e habilidades da natureza para expandir nosso próprio poder. Por outro lado, devemos também considerar a hipótese de que os conceitos com os quais compreendemos os fenômenos vivos tenham sido, de certa forma, influenciados pelo desenvolvimento da cultura civilizada.
Certamente a civilização possibilita coisas boas. A questão é o que sustenta essas coisas na estrutura da civilização. Elas podem ser resultados de um mau uso das nossas capacidades. Sendo uma estrutura fluída, é cada vez mais difícil determinar isso. Ela chega a um grau de complexidade em que passa a depender de um caos crescente para manter-se de pé.
De certa forma, a civilização não começa há 10 ou 12 mil anos atrás, ela começa no momento em que essas ideias entram na cabeça de alguém. Determinar o ponto histórico em que essas ideias começaram a surgir não é tão importante quanto compreender como elas se reproduzem atualmente, já que a causa não é simplesmente material. A civilização é um sistema de crenças. Ela toma controle, como um vírus, de nossas funções vitais, e as transforma em funções domesticadas.
Lovelock e John Gray[8] tendem a ver o homem como uma praga natural ao invés de criticar a civilização. Eles não negam que o homem faz parte da natureza como qualquer outro animal, nem que ele está degradando o meio em que vive. Para eles, o homem não está doente, nem é a fonte da doença. O homem é a própria doença. Se tudo é natural, a civilização também é natural. Mas pragas naturais são úteis à natureza. Se seguirmos essa linha de raciocínio, diremos que homem é regido por suas vontades, e suas vontades são expressões de suas necessidades. Ele não pode evitar a degradação do meio porque é primariamente egocêntrico. Logo, é preciso ser cético quanto à crença de que o conhecimento possa levar ao bem, ou de que a crença em algo transcendente seja mais do que um consolo. Se o conhecimento humano não leva ao bem, nada pode levar. Se a crença em algo transcendente não melhora a nossa situação mundana, então ela não serve para nada. Só podemos retardar o inevitável. E o corolário dessa linha raciocínio é que a vida não tem sentido. Isso é o que acontece quando se deposita todas as esperanças no homem.
8. Conclusão: Seu sistema foi atualizado.
Provavelmente o leitor poderá levantar muitas objeções quanto à minha afirmação de que o paradigma sistêmico já foi absorvido pelo monstro assimilador. Em primeiro lugar, isso não significa que eu despreze este paradigma. Não significa que você pode ser ignorante em relação a ele, mas o contrário, que você precisa conhecê-lo para compreender o atual estágio da civilização.
Eu estou apontando uma solução, mas não uma solução para a civilização, porque ela faz parte do problema. Não é a civilização que está doente, nem o homem é a doença, mas é o homem que está doente, sua doença afeta o resto do mundo, e a civilização é o sintoma dessa doença. Minha sugestão inicial é que se critique a civilização desde seus pressupostos mais básicos. Se ao invés disso atacamos somente este ou aquele aspecto, vamos apenas fazer parte da fluidez pós-moderna. Parece que as pessoas não querem uma solução para a civilização como um todo, porque isso seria “jogar fora o bebê junto com a água suja”. É como se não pudéssemos evitar, como se a civilização fosse existencialmente necessária ao homem, ou como se o homem autêntico fosse o homem civilizado. O verdadeiro motivo parece ser o medo de perder confortos com os quais já nos acostumamos. O erro é justamente pagar qualquer preço para preservar aquilo que é dispensável. A civilização é a fonte de benefícios injustos que ninguém quer abrir mão.
Hoje em dia, você raramente vai encontrar alguém que não se preocupa com a questão ecológica. No máximo, verá empresários preocupados em ver seu crescimento ameaçado por causa de defensores do meio-ambiente. Eles acreditam que a ecologia não pode impedir o crescimento econômico, porque a crise econômica pode atingir a todos e piorar as coisas. Mas o movimento ecológico também acredita nisso. O problema para os novos ecologistas se resume ao uso eficiente da energia, então não há porque prejudicar a economia, mas ao contrário, sustentabilidade pode ser um bom negócio. Sempre vai haver alguém para nos lembrar que uma coisa não impede a outra, podemos lucrar preservando, basta pensar diferente. O ser humano é tão criativo, com certeza ele inventará um modo de fazer o que deseja sem destruir o planeta.
Por outro lado a civilização é oriental o suficiente para não se apegar a nada. Até a necessidade de crescimento pode ser passageira, como indicam os recentes movimentos pelo decrescimento[9]. O monstro não é capitalista, ele simplesmente é. Mesmo o crescimento não é mais importante que o desenvolvimento e a própria superação do estágio atual. As pessoas têm criticado o progresso quantitativo, mas não o qualitativo. O novo espírito da civilização não rejeita nada, ele combina suas necessidades com aquilo que há de mais atraente, aquilo que achamos que há de melhor em nós. Ele é jovem, rápido, inteligente, divertido, interativo... É um show de comédia de improviso. Ele vai interpretar qualquer papel para te impedir de vê-lo pelo que ele realmente é.
“Só há uma coisa a fazer: você tem que escolher”
* A primeira vez que eu usei o termo “monstro assimilador” foi num artigo chamado “Como matar um monstro assimilador”, do livreto “Por uma mudança”, publicado em 2007, mas escrito alguns anos antes. O seguinte artigo está embasado no que aprendi desde então, principalmente com o autor do artigo “Crise do capitalismo global e o ethos da pleonexia”, Anderson Clayton Pires.
[1] As biocivilizações do futuro e o potencial brasileiro. Entrevista com Ignacy Sachs. http://www.ecodebate.com.br/2009/03/05/as-biocivilizacoes-do-futuro-e-o-potencial-brasileiro-entrevista-com-ignacy-sachs/
[2] A revolução verde foi provavelmente ainda pior que a revolução industrial em termos de impacto ambiental. Querer uma nova mudança dessas é ignorar que as soluções civilizadas parecem ser ouroboros, isto é, soluções que geram mais problemas.
[3] CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação. Editora Cultrix, 1982, p. 255.
[4] MARIOTTI, H. 1999. Autopoiese, Cultura e Sociedade. http://www.geocities.com/pluriversu/autopoies.html
[5] "A modernidade da qual estamos saindo era negadora; a supermodernidade é integradora. Não mais a destruição do passado, e sim sua reintegração, sua reformulação no quadro das lógicas modernas do mercado, do consumo e da individualidade. Quando até o não moderno revela a primazia do eu e funciona segundo um processo pós-tradicional, quando a cultura do passado não é mais obstáculo à modernização individualista e mercantil, surge uma fase nova da modernidade." (LIPOVETSKY, Gilles. Os tempos hipermodernos. Trad. Mário Vilela. São Paulo: Barcarolla, 2004. p. 57-58)
[6] HUXLEY, Aldous. A Ilha. São Paulo: Globo, 2001, p. 149.
[7] "As experiências de tempo e espaço movediços e polimorfos, as incertezas políticas, as mestiçagens étnicas, o nomadismo do desejo, os hibridismos culturais, os descentramentos da identidade produzidos pelas sombras do outro estão de tal modo entranhados na constituição da nossa cultura que pouca ebulição os debates pós-modernos estavam fadados a produzir em nós." (SANTAELLA, Lucia. Culturas e artes do pós-humano: da cultura das mídias à cibercultura. São Paulo: Paulus, 2003. p. 70)
[8] “A destruição do mundo natural não é resultado do capitalismo global, da industrialização, da ‘civilização ocidental’ ou de quaisquer falhas em instituições humanas. É a consequência do sucesso evolucionário de um primata excepcionalmente rapace.” (GRAY, John N. Cachorros de palha: Reflexões sobre humanos e outros animais. Record, 2005, p. 23)
[9] Ver o texto “Gordura e crescimento”, de Cristovam Buarque. http://mentenovacuo.blogspot.com/2010/11/gordura-e-crescimento.html
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