Como se trata de uma síntese dos contrários, a nova cultura não descarta nada. Ela aceita um “equilíbrio” entre o velho e o novo, e mesmo entre racionalidade e irracionalidade. O que há é uma mistura confusa de discursos, que hora são empiristas e hora são sentimentalistas, mas não chegam a nenhum consenso senão o de que todo consenso é burro. O paradigma valoriza essa fluidez como sendo necessária. Nossa sociedade seria um aspecto patológico da vida exatamente porque valorizou as coisas, que são estáticas, e não as pessoas, que são dinâmicas. Mas tudo isso não passa de um jogo retórico. Todas essas ideias são apenas frutos do desenvolvimento da própria cultura civilizada, passando do seu estágio moderno ou sólido para seu estágio pós-moderno ou líquido[4]. Este pretenso equilíbrio destrói o significado das coisas que ele tenta unir.
É importante notar que essas ideias fundamentam não apenas a pseudo-ecologia, mas a ecologia como paradigma para outras ciências. Está incluída aí a visão da ecologia integral e da ecologia profunda, que também determinam um novo paradigma político e econômico, relacionado à defesa da democracia. O social é defendido a partir da autonomia individual. A nova cultura é um produto do liquidificador da pós-modernidade, e é a base para o discurso da biocivilização.
Não podemos deixar de notar como isso se relaciona também com as idéias de Aldous Huxley. Embora ele tenha criticado mais do que proposto, deixou claro que estava interessado na liberdade. Ele compreendia que o Estado poderia dominar corpo e mente, fazendo o indivíduo amar a servidão por meio de lavagem cerebral, que não precisaria ser necessariamente dolorosa, como ocorre em 1984, mas poderia ser prazerosa, como em Admirável Mundo Novo. Por tanto ele estava interessado em distinguir o verdadeiro do falso, a sanidade da felicidade, mas não deu nenhum critério para isso senão o critério pragmático. Falou sobre a possibilidade de que a ciência e a tecnologia sejam colocadas a serviço do homem, que um paradigma biológico substitua o físico, que a mística substitua a fé, que o utilitarismo substitua todas as filosofias. Enfim, a eficiência substitua a tradição, e isso é facilmente considerado como mais verdadeiro por mentes que são herdeiras do iluminismo. Ele foi um visionário da nova civilização, mas sua visão acabou influenciando o resultado. Muitas pessoas se guiam por ideias semelhantes às expostas ali. Por exemplo, a fragilização dos laços combina com a proposta dos Clubes de Adoção Mútua do romance A Ilha. Segundo Huxley: “Os nossos sociólogos chamam a isso de hibridação de micro-culturas e dizem que os efeitos são tão bons quanto aqueles que permitem a obtenção de diferentes variedades de milho ou de galinha”[5].
Outro exemplo seria sobre o conflito entre liberação sexual e repressão, que parece ter sido sintetizada na forma de uma cultura da futilidade. Huxley queria misturar o melhor dos dois mundos, ocidental e oriental. Acontece que, em termos de crítica à civilização, isso faz pouca diferença. Mas esse discurso continua sendo considerado como alternativa viável para a mudança. É por isso que vemos Capra defendendo o consumo de orgânicos e de alimentos integrais com a justificativa que o agricultor perdeu sua liberdade e sua criatividade no processo de produção, ficando restrito a reproduzir técnicas e modelos escolhidos por outras pessoas. É o problema da autonomia e impondo-se como causa de todos os da liberdade causa de todos o outrosessoas, porque pessoas sdo Edgar Morin. outros. O problema seria o desequilíbrio entre os contrários, Yin e Yang, como exposto no seu Tao da física. O produto orgânico representa um uso mais eficiente da energia, e logo podemos constatar que Capra crê numa relação direta entre autonomia e eficiência energética, justamente como prega o paradigma da autopoiese, que por sua vez é resultado do desenvolvimento de uma cultura materialista ou naturalista. Para Capra, como para Sachs, a fome é um problema social e político, por isso deve ser resolvido pela biocivilização.
Mas é preciso notar que todas essas questões, tais como a alteração da noção de tempo e espaço, a instabilidade, o hibridismo, o nomadismo e a descentralização são produtos da evolução esperada da civilização. Se em algum momento nós fomos separados desses elementos, somos agora reintegrados a eles por meio das relações artificialmente criadas num novo estágio da cultura civilizada. Quer dizer que o que é aceito de volta é aquilo para o qual se criou um espaço dentro da civilização, onde aquilo pudesse permanecer “sob controle”[6].
[4] "A modernidade da qual estamos saindo era negadora; a supermodernidade é integradora. Não mais a destruição do passado, e sim sua reintegração, sua reformulação no quadro das lógicas modernas do mercado, do consumo e da individualidade. Quando até o não moderno revela a primazia do eu e funciona segundo um processo pós-tradicional, quando a cultura do passado não é mais obstáculo à modernização individualista e mercantil, surge uma fase nova da modernidade." (LIPOVETSKY, Gilles. Os tempos hipermodernos. Trad. Mário Vilela. São Paulo: Barcarolla, 2004. p. 57-58)
[5] HUXLEY, Aldous. A Ilha. São Paulo: Globo, 2001, p. 149.
[6] "As experiências de tempo e espaço movediços e polimorfos, as incertezas políticas, as mestiçagens étnicas, o nomadismo do desejo, os hibridismos culturais, os descentramentos da identidade produzidos pelas sombras do outro estão de tal modo entranhados na constituição da nossa cultura que pouca ebulição os debates pós-modernos estavam fadados a produzir em nós." (SANTAELLA, Lucia. Culturas e artes do pós-humano: da cultura das mídias à cibercultura. São Paulo: Paulus, 2003. p. 70)
(Atualizado em 2011)
(Atualizado em 2011)
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