(Parte 7 de 8 da série Civilização 2.0)
Revisando o conceito de monstro assimilador como um processo sem identidade definida, podemos fazer a relação entre aquilo que a civilização se tornou no presente, seu processo de evolução e a visão de mundo pressuposta nos conceitos biológicos e ecológicos que ganharam espaço na cultura nas últimas décadas. O conhecimento necessário para se criticar este processo é maior do que o conhecimento necessário para mantê-lo funcionando. Este último tem se tornado cada vez mais desnecessário, na medida em que o processo começa a ganhar a autonomia de uma máquina programada para reproduzir, gerenciar, corrigir e modificar a si mesma. O monstro está em constante mutação. Significa que qualquer dos seus elementos pode ser criticado sem ameaçá-lo. O que não pode ser questionado é seu modo próprio de mudar, ou seja, sua estrutura adaptativa.
Tal como os seres-vivos vistos sob a teoria da complexidade, sua identidade não está na sua composição, mas na sua organização dinâmica. Ele não está determinado de fora, mas por sua própria estrutura, que é mantida por indivíduos. Isso seria impensável sem o conceito de autopoiese. Não quer dizer que a civilização seja equivalente a um organismo vivo, mas que se apropriou desse modelo assim como nós nos inspiramos na natureza para criar as máquinas. Não apenas imitamos o funcionamento, mas assimilamos as capacidades e habilidades da natureza para expandir nosso próprio poder. Por outro lado, devemos também considerar a hipótese de que estes conceitos que aplicamos na nossa compreensão dos fenômenos vivos tenham sido, de certa forma, influenciados pelo modo de desenvolvimento da cultura civilizada.
Certamente a civilização possibilita coisas boas. A questão é qual a posição dessas coisas na estrutura da civilização, pois dependendo da posição, elas podem ser mais do mal usadas, mas resultados de um mau uso das nossas capacidades. Sendo uma estrutura fluída, é cada vez mais difícil determinar isso. Ela chega a um grau de complexidade da organização onde pode não apenas dar boas-vindas ao caos, mas passa a depender de caos para manter-se de pé. Com base na visão sistêmica, não poderíamos criticar a civilização em si mesma. Ela seria um resultado do acaso, e já que existem infinitas possibilidades no universo, ainda poderia dar certo. Eis a origem do mito de que basta adicionar esforço humano. De certa forma, a civilização não começa há 10 mil anos atrás, ela começa no momento em que essas ideias entram na cabeça de alguém. Determinar o ponto histórico em que essas ideias começaram a surgir não faz muita diferença, já que a causa não é simplesmente material, mas mental. O mostro se localiza no nosso sistema de crenças. Ele toma controle, como um vírus, de nossas funções vitais, e as transforma em funções domesticadas.
Isso explica porque autores como Lovelock e John Gray[7] tendem a ver o homem como uma praga natural. Primeiro, porque não podem negar que o homem faz parte da natureza como qualquer outro animal. Segundo, porque não podem negar que ele está degradando o meio em que vive, e isso só é remotamente comparável ao comportamento dos vírus. Logo, o homem não está doente, o próprio homem é a doença. Se tudo é natural, a civilização também é natural, embora pragas naturaissejam úteis à natureza. Mas, se seguirmos a linha de raciocínio dessa cultura, diremos que homem é regido por suas vontades, e suas vontades são expressões de suas necessidades. Ele não pode evitar a degradação do meio porque é primariamente egocêntrico. Logo, é preciso ser cético quanto à crença de que o conhecimento possa levar ao bem, que a ciência nos liberte, e que a crença em Deus seja mais do que um consolo. Isto é a única conclusão racional que parte desse ponto de vista: se o conhecimento humano não leva ao bem, nada pode levar. Se a ciência humana não nos liberta, nada pode libertar. Se a crença em Deus não melhora a nossa situação mundana, então ela não serve para nada. Só podemos retardar o inevitável. E o corolário dessa linha raciocínio só pode ser que não faz sentido ser racional. Isso é o que acontece quando se deposita todas as esperanças no homem.
[7] “A destruição do mundo natural não é resultado do capitalismo global, da industrialização, da ‘civilização ocidental’ ou de quaisquer falhas em instituições humanas. É a consequência do sucesso evolucionário de um primata excepcionalmente rapace.” (GRAY, John N. Cachorros de palha: Reflexões sobre humanos e outros animais. Record, 2005, p. 23)
(Atualizado em 2011)
(Atualizado em 2011)
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