sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Sua ecologia vale dinheiro

Consumindo ecologia - Parte 2 de 7


            A questão é que a “consciência ecológica” está sendo propagada pelos meios de comunicação que estão sob controle do sistema econômico. Eles têm um bom motivo para propagar essas ideias supostamente contrárias à cultura vigente. Baseiam-se na crença de que a maximização da produção e a socialização de benefícios podem ser compatíveis com a minimização do impacto ambiental causado pela extração dos recursos naturais. Isto é, usam o critério da eficiência da produção. Esse critério vem do próprio desenvolvimento do capitalismo enquanto racionalização das relações em função da produtividade. Ele parte da crença de que existe uma harmonia pré-estabelecida entre bem-estar social e eficiência dos meios de produção. Em outras palavras, o que é propagado hoje como sendo consciência ecológica é uma consciência ideologicamente bem adaptada ao espírito do capitalismo. Ela se apóia na crença de que basta racionalizarmos o uso das tecnologias e dos meios de produção, e tudo ficará bem, como se o problema fosse o modo de produção, e não o modo de vida baseado na produção e acúmulo de bens materiais.

            A revolução ecológica é proposta no formato de um novo contrato social, que define limites de exploração e garante o consumo para os desfavorecidos, redistribuindo os meios de produção para a população. Por um lado alguns autores acusam o discurso ecológico de ser dogmático ou fundamentalista, porque parece tratar de pecados ambientais, perdição industrial, apocalipse climático, revelação de uma verdade oculta, conversão subjetiva a um novo paradigma e redenção por meio de novas tecnologias e até mesmo de um novo homem. Por outro lado, os adeptos do movimento azul, que pregam uma visão mais científica da ecologia, unindo-a com as questões econômicas, defendem uma espécie de “ecologia da prosperidade”. Eles parecem estar tão bem adaptados à globalização quanto os pastores da nova espiritualidade evangélica, que também abandonaram a perspectiva escatológica e se voltaram para as possibilidades mundanas de desenvolvimento.

(Atualizado em 2011)

4 comentários:

Carlos Teixeira disse...

Olá.
Queria saber se você se refere a ecologia em todas as suas manifestações ou se está se referindo a $ecologia$ que é propagada pelos veículos de (des)informação em massa. Faço essa pergunta porque concordo com essa visão da ecologia de mercado como uma ilusão - para mim, de forma alguma uma fábrica ou uma empresa de alta rentabilidade pode ser "verde", como berram as propagandas na TV. Porém, quando converso com professores e leio trabalhos de pessoas que acreditam de verdade na ecologia, vejo uma outra face dela, que me obriga a dar atenção.

Alguns seguidores do pensamento ecológico, ao meu ver, fazem uma crítica bem profunda contra nossa cultura e civilização. Alguns propõem verdadeiras revoluções: "Não haverá verdadeira resposta à crise ecológica a não ser em escala planetária e com a condição de que se opere uma autêntica revolução política, social e cultural, [...] Esta revolução deverá conscernir, portanto, não só às relações de força visíveis em grande escala mas também aos domínios moleculares de sensibilidade, de inteligência e de desejo." (GUATTARI, Félix. As Três Ecologias. Campinas - SP: Papirus, 1990.)

Pergunto. Você vê a ecologia como totalmente assimilada pelo monstro ou você acha que ela pode ter/tem algum potêncial verdadeiro de mudança e transformação em direção à uma "reconexão" com nossas origens primitivas?
[desculpe pela pergunta pessoal, perguntei porque a resposta pode ser rica para meu melhor entendimento]

Abraço

Janos disse...

Olá Carlos,

Mais uma vez obrigado pelas perguntas sempre pertinentes, que dão movimento a esse blog.

Eu espero que fique claro que eu estou me referindo a certas aplicações da ecologia. Eu sei que esta é uma ciência ampla, que nem todos os tipos de ecologia se encaixam exatamente nessa crítica, mas me referi àquelas que estão ganhando aceitação hoje em dia, como eu indiquei no início do post. Há outras correntes mais desconhecidas e menos compreendidas pela maioria das pessoas.

Mas também temos que analisar com cuidado o discurso acadêmico da ecologia. Na publicação anterior, que eu chamei de "Civilização 2.0", eu esbocei uma crítica à fundamentação filosófica da ecologia defendida por Guattari e Varela, principalmente quanto ao conceito de autopoiese. Falar de revolução cultural não quer dizer muita coisa, porque depende do que se entende por "nossa cultura". Muitos autores fazem uma crítica cultural profunda usando um conceito de cultura que foi construído de modo seletivo. Não inclui certas coisas que deveriam estar inclusas, e por isso pode servir para evolução do monstro. É preciso compreender exatamente o que se quer dizer com "domínios moleculares de sensibilidade, de inteligência e de desejo", por exemplo.

Meu conceito de monstro assimilador tem certas falhas. Por exemplo, algumas coisas não são exatamente assimiladas, mas já nascem de dentro monstro e são colocadas para fora para criar uma falsa oposição. Este é um velho truque, que até hoje é usado com sucesso.

A ecologia deve ser estudada e compreendida sem pressupor que ela seja necessariamente válida ou inválida. É essa coragem que falta, porque nós somos educados desde pequenos para pensar que a ecologia é maravilhosa, mesmo antes de compreendê-la. Certamente nós temos que estudar e compreender a ecologia, mas de maneira crítica.

Essa questão da "reconexão com nossas origens primitivas" é mais complexa e vou ter que responder depois. Mas que a ecologia não pode ser desprezada, isso com certeza não pode.

Carlos Teixeira disse...

Entendo.

Respondeu minha pergunta.
Vou re-ler com mais atenção os textos "Civilização 2.0", talvez essa resposta me ajude.

Abraços

Contravento disse...

E como vale hein. Pessoalmente, acho terrível o efeito que issot em sobre as pessoas: elas se sentem apaziguadas enquanto continuam a destruir pois tem a nítida impressão de que estão fazendo algo. Bem triste.