terça-feira, 28 de dezembro de 2010

A demanda por ecologia cresce junto com seu consumo

Consumindo ecologia - Parte 7 de 7


            A “civilização do ter” parece querer gerar a “civilização do ser” a partir de si mesma, isto é, tratando o ser como uma regulação do ter. Mostrar o quanto você é ecologicamente correto se tornou algo necessário à sobrevivência da imagem social do indivíduo. A ecologia se uniu ao desenvolvimento pessoal. A mudança é quanto à base da economia. Agora falamos de energia. Pode ser que nesse caminho cheguemos ao trans-humanismo, uma inevitável transição das limitações do humano para o pós-humano, nem sempre no sentido biotecnológico. Se isto ocorrer, entraremos numa nova era ecológica, mas também numa nova era de degradação da natureza. Dessa vez, o alvo será a natureza da vida no seu sentido mais profundo. Fechamos uma porta e abrimos outra. Em nome da eficiência, o homem pode colocar em risco aquilo que tem de mais precioso.

            A conclusão é que o problema do nosso modelo de produção e consumo não é que vivemos num planeta finito, mas que este modelo é alimentado em disposições mentais inerentemente insustentáveis. O planeta poderia ter recursos infinitos, e o mesmo problema surgiria: o crescimento da produção levaria ao consumismo, que por sua vez reduziria a vida ao consumo. Este modelo ameaça a vida com seu sucesso ou com seu fracasso. De certa forma, reconhecer que o planeta é finito pode ser muito útil para impedir que a força cega do mercado se destrua rápido demais pelo excesso de crescimento desgovernado. Mas essa consciência por si só não muda nossa disposição mental, apenas nos força a mudar os modos de apropriação para que o processo continue.

            É muito fácil dizer que precisamos de uma nova cultura. Mas quando a cultura se torna um produto e a mudança ocorre por meio de uma produção em massa de novas mentes, então o inimigo venceu. Seria preciso mudar aquilo que produz a cultura em primeiro lugar. E voltaríamos ao mesmo problema. Essas coisas não se mudam sozinhas, e dizer que a educação tem que mudar é no fundo dizer que não temos a menor idéia de como mudar. A solução não pode ser simplesmente educar melhor. Educar em que sentido, se os professores também estão inseridos no processo? Quem vai educar os educadores? Não nos é apresentado nenhum meio viável para essa mudança quando tudo que se diz é: “Temos que preservar o meio-ambiente”. Se problema é encontrar um modo ecológico de ganhar todo o dinheiro que é ganho com a devastação da natureza, então se trata apenas de uma questão de substituir os recursos de modo a gerar uma maior vantagem econômica. Mas o problema central não é educar para preservação do meio ambiente enquanto fonte de recursos que alimentam a civilização, mas sim a preservação da natureza no seu sentido original. A degradação a partir da ação humana não poderia acontecer sem a degradação do que há dentro do homem e sem a degradação do conceito de natureza. Não é com base na economia que poderemos restaurar isso.

            Na se trata de afirmar simplesmente que “temos que nos tornar a mudança que queremos ver no mundo”, mas que temos que perceber que o modo como o mundo está mudando está afetando o modo como nós estamos nos tornando. O que, especificamente, eu deveria me tornar e que mudança eu quero ver no mundo? Aparentemente, continuamos consumindo diversas visões de mundo que não encontram um consenso sobre o problema humano. Elas podem ser coerentes com uma cultura que observa o problema do ponto de vista biológico, econômico, político, material ou pragmático, mas quando se fala de ser humano, o foco fica restrito às condições materiais para a manutenção da civilização. Se esse foco não mudar, não iremos muito longe.

(Atualizado em 2011)

sábado, 25 de dezembro de 2010

Produzir para consumir para produzir para consumir...

Consumindo ecologia - Parte 6 de 7


            Embora o trabalho seja visto como algo que dignifica o homem, a maior parte do trabalho visa cobrir gastos fúteis, sejam seus ou do seu empregador, e não a subsistência do homem. O que significa que a maior parte do trabalho dignifica apenas a insensatez humana, pois é a parte que alimenta o consumismo.

            O consumo invade todos os aspectos da sociedade. Nós passamos a consumir pessoas ao invés de nos relacionar com elas. Consumimos ideias ao invés de aprender. Nós nos aproximamos dos outros e demonstramos nosso amor por meio do consumo. Nossa memória é significada pelos produtos que consumimos. Enfim, todas as relações passam a ser mediadas pelo consumo. A produção e o consumo passam a dar sentido às práticas e representações sociais. O consumo passa a ser uma necessidade simbólica que dá coesão e ordenação social. Que ninguém tente naturalizar o consumo dizendo que sempre fomos consumidores, porque o consumo nunca teve o significado que está adquirindo agora.

            Mas o aumento do consumo não deve ser encarado como um problema que pode ser resolvido pelo consumo ecologicamente correto. Substituir um tipo de consumo por outro mais moderado não será suficiente. A ecologia continua sendo uma perspectiva ajustada a uma cultura que defende a crença, expressa por Benjamin Friedman, de que o crescimento econômico é necessário para manter a paz social[1]. Se os ricos param de crescer, o sistema reage automaticamente, e os pobres estão na parte mais vulnerável da zona de impacto. É uma armadilha muito engenhosa. O sistema é construído para depender da aceleração do fluxo. Por isso alguns capitalistas defendem seu próprio crescimento como possibilidade de gerar emprego e investir no crescimento do país como um todo. Se nós paramos de circular dinheiro cada vez mais rápido, a situação poderá ficar realmente pior. Quando você corre montanha abaixo criando avalanches, parar de correr deixa de ser uma opção segura. Ou você se torna parte da avalanche, ou é soterrado por ela. Decrescimento só é uma opção enquanto puder dinamizar ainda mais os negócios. Só vale a pena se ainda tiver algo a ser ganho[2]. Nessa sociedade, é meio difícil fazer alguma coisa funcionar fora da perspectiva da vantagem. E, no entanto, é somente fora dessa perspectiva que podemos resolver o problema do consumismo.


[1] Citado por Ademar Ribeiro Romeiro. Crescimento econômico e meio ambiente.  http://www.comciencia.br/comciencia/handler.php?section=8&edicao=36&id=435
[2] E mesmo quando uma pessoa como Bill Gates doa 30 bilhões de dólares, isso não significa decrescimento nem desaceleramento da economia.

(Atualizado em 2011)

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Você é o produto

Consumindo ecologia - Parte 5 de 7


            Eu creio que pouca atenção tem sido dada para a saúde psicológica das pessoas em relação ao consumo, especialmente porque um dos “sonhos de consumo” das pessoas é se tornar um modelo de consumo para os outros. É isso que o marketing pessoal sugere: venda-se. As pessoas precisam querer ser você. Mas o efeito de ser um produto é extremamente deturpador. Uma análise das biografias de pessoas que tiveram essa experiência é suficiente para revelar isso. Ainda assim, pouca atenção é dispensada para o vetor de propagação dessa doença: as personalidades famosas. A vida para o consumo, ou a vida para ser consumido, é considerada boa por causa da abundância de consumo, como se nada pudesse ser pior do que não poder consumir. Esta ideia indica que a maior importância é sempre dada ao consumo.

            As pessoas submetidas a uma rotina de estrela estão perdendo muito mais do que ganhando, porque as pessoas vão simplesmente consumi-las e jogá-las fora. Temos que pensar nos danos que estão sendo provocados pela publicidade, não só ao público alvo, mas também aos que estão sob as luz dos holofotes e flashs da câmera, e todos aqueles que anseiam estar. Não para tentar obrigar as pessoas a se afastar dessas coisas, o que de todo modo seria impossível, mas para não perpetuar um discurso que naturaliza essas coisas, que não dá discernimento sobre a gravidade das doenças que nascem nesse meio. Repensemos sobre o suporte que damos, e o modo como esperamos ansiosos para poder consumir pessoas. Consumimos a beleza de pessoas que são modelos de beleza, e nesse processo rejeitamos a nós mesmos[1].


[1] Esta idéia, como todas que eu apresento aqui, não é minha, mas a reproduzo com base no que aprendi com o autor do seguinte texto: http://www.ultimato.com.br/conteudo/sociedade-do-glamour-e-etica-da-verdade

(Atualizado em 2011)

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Consumose é uma doença contagiosa

Consumindo ecologia - Parte 4 de 7


            Deveríamos considerar seriamente o impacto psicossocial do ato aparentemente inocente de levar uma criança às compras, ao shopping ou ao supermercado. Lá ela estará exposta a um ambiente repleto de agentes simbólicos infecciosos, e sem proteção alguma ela será um alvo fácil. De fato, ela é o alvo mais visado pelas campanhas publicitárias, porque sua resistência à indução de desejos de consumo é muito baixa. É comum ver pais brigando com seus filhos enquanto estes berram e esperneiam por causa de um produto, como se não valesse a pena viver sem poder consumir aquele produto. Esta é exatamente a ideia que foi introduzida nas mentes deles por meio da propaganda. Os publicitários montam um esquema astucioso para diminuir nossa capacidade de pensar, ainda que eles mesmos não percebam que fazem isso. Nós não deveríamos expor crianças a um ambiente que as adoece, mas sendo isso quase inevitável, devemos pelo menos prepará-las para isso. Elas não são culpadas por sentirem esse desejo avassalador de consumir, pois esse ambiente foi criado para gerar esse comportamento obsessivo. Nós adultos só nos comportamos melhor porque já nos acostumamos, pelo excesso de exposição ao agente infeccioso. Este tipo de ambiente produz desorientação tal como o consumo de álcool, porque ao pisar numa loja já estamos consumindo crenças.

            O ambiente de um grande supermercado ou shopping é construído para atingir os pontos fracos da psicologia humana. A abundância de produtos pode ser desconcertante para nossa mente, e é capaz de fazer uma pessoa desistir de todo tipo de comedimento, instigando a cobiça. A cultura consumista fica o tempo todo sussurrando nos nossos ouvidos a crença de que você é o que você compra. Aceitando essa crença, o consumo adquire um significado existencial. Uma pessoa pode passar a literalmente viver para e pelo consumo, perdendo aos poucos as características morais que a tornam humana.

(Atualizado em 2011)

domingo, 19 de dezembro de 2010

Economizando a natureza

Consumindo ecologia - Parte 3 de 7


            Talvez esteja sendo gerada a crença de que se investirmos uma parte do nosso lucro para a preservação da natureza, então nós vamos prosperar ecológica e economicamente. O discurso eco-econômico diz que a preservação da natureza só será possível quando os bens naturais forem contabilizados como parte do capital. Ou seja, a ecologia só passa a ser possível dentro do discurso econômico. É isso que está acontecendo quando se fala de créditos de carbono, pegada ecológica, capital natural... Estabelecemos uma relação economicamente racionalizada com a natureza enquanto fonte de recursos materiais. O emblema desse eco-capitalismo é o planeta sendo segurado por mãos humanas, que provavelmente representa uma crença humanista.

            A figura central da revolução ecológica é o consumidor. Quem é o consumidor? O consumidor não é uma pessoa, é um papel assumido por uma pessoa. O papel de consumidor consciente ou do cidadão ambientalmente responsável é encarnado por uma pessoa, mas é apenas mais um estilo de vida, que como qualquer produto cultural, é propagado por uma indústria que explora esse segmento de mercado. A cultura incentiva uma mudança social útil e necessária ao atual estágio civilizatório: substitui o pouco que resta dos valores humanos por direitos e deveres do consumidor. Propaga uma ética da eficiência, que ignora o que é fazer o bem, e se concentra em consumir bem. Transforma toda sabedoria ancestral em sabedoria para consumir bem, que é confundido com viver bem. Atribui-se uma responsabilidade meramente nominal a um sujeito que não recebeu condições para ser responsável. Pede-se que ele crie uma consciência que na prática é rejeitada pela cultura. Provoca uma retro-alimentação de sentimentos de culpa, sem qualquer possibilidade de correção.

            Nós não conseguimos distinguir quando estamos sendo o agente ou o paciente da devastação da natureza. Uma imagem usada por Ítalo Calvino descreve essa situação: “O exército dos helenos que serpenteia entre os entre os desfiladeiros das montanhas e os vaus, entre contínuas emboscadas e saques, não mais distinguindo onde passa de vítima a opressor, circundando também na frieza dos massacres pela suprema hostilidade da indiferença e do acaso, inspira uma angústia simbólica que talvez só nós possamos entender”[1]. Nesta situação, tanto faz avançar ou desistir, ambas as escolhas não oferecem qualquer sentido para além do presente.

            O consumo se tornou entretenimento, assim como a própria crítica ao consumismo. Mas o consumo ainda sustenta a economia, que se tornou dependente do espetáculo. Quando se reduz o crédito se diminui o consumo, e isso gera crise. Para evitar o colapso, é preciso injetar dinheiro como se fosse uma droga estimulante. Eles irão emprestar dinheiro para que você gaste o que não tem naquilo que não precisa, porque sem aumentar as suas dívidas não há desenvolvimento econômico, e sem isso não há investimento e sem investimento não há lucro, sem lucro a competitividade diminui e empresas tendem a falir, levando embora o seu emprego e sua possibilidade de consumo. A cultura apresenta aquele que não consome como avarento, e o que consome como um ser superior (um Net, um Ligador, etc...) reforçando assim uma representação que tem o objetivo de gerar coerção social[2].


[1] Citado por Carlos Vogt. O consumidor e o consumido.
[2] Entre os muitos exemplos, podemos destacar o adulto sem carro, sem casa própria e sem emprego fixo. Ainda que ele possa viver bem sem isso, continua sendo considerado o mais patético dos seres humanos, sendo prejudicado onde mais dói: nas relações afetivas. Ver http://www.pavablog.com/2010/10/05/patetico/

(Atualizado em 2011)

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Sua ecologia vale dinheiro

Consumindo ecologia - Parte 2 de 7


            A questão é que a “consciência ecológica” está sendo propagada pelos meios de comunicação que estão sob controle do sistema econômico. Eles têm um bom motivo para propagar essas ideias supostamente contrárias à cultura vigente. Baseiam-se na crença de que a maximização da produção e a socialização de benefícios podem ser compatíveis com a minimização do impacto ambiental causado pela extração dos recursos naturais. Isto é, usam o critério da eficiência da produção. Esse critério vem do próprio desenvolvimento do capitalismo enquanto racionalização das relações em função da produtividade. Ele parte da crença de que existe uma harmonia pré-estabelecida entre bem-estar social e eficiência dos meios de produção. Em outras palavras, o que é propagado hoje como sendo consciência ecológica é uma consciência ideologicamente bem adaptada ao espírito do capitalismo. Ela se apóia na crença de que basta racionalizarmos o uso das tecnologias e dos meios de produção, e tudo ficará bem, como se o problema fosse o modo de produção, e não o modo de vida baseado na produção e acúmulo de bens materiais.

            A revolução ecológica é proposta no formato de um novo contrato social, que define limites de exploração e garante o consumo para os desfavorecidos, redistribuindo os meios de produção para a população. Por um lado alguns autores acusam o discurso ecológico de ser dogmático ou fundamentalista, porque parece tratar de pecados ambientais, perdição industrial, apocalipse climático, revelação de uma verdade oculta, conversão subjetiva a um novo paradigma e redenção por meio de novas tecnologias e até mesmo de um novo homem. Por outro lado, os adeptos do movimento azul, que pregam uma visão mais científica da ecologia, unindo-a com as questões econômicas, defendem uma espécie de “ecologia da prosperidade”. Eles parecem estar tão bem adaptados à globalização quanto os pastores da nova espiritualidade evangélica, que também abandonaram a perspectiva escatológica e se voltaram para as possibilidades mundanas de desenvolvimento.

(Atualizado em 2011)

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Desenvolvimento sustentável

Consumindo ecologia - Parte 1 de 7


            A grande questão da discussão ecológica tem sido como conciliar padrões sustentáveis de consumo com uma economia baseada no desenvolvimento acelerado dos meios de produção. Segundo Ruscheinsky[1], esta é uma questão de poder. Se o consumidor está submetido a um sistema econômico insustentável, ele não tem o poder de fazer escolhas que levam a um consumo sustentável. Mesmo que o consumidor seja um agente econômico autônomo, ainda está submetido a um sistema econômico baseado em consumo. Dizer que o consumo sustentável, ético, responsável e consciente é uma questão de escolha do consumidor é no mínimo insuficiente. Qual o significado desses predicados para o consumidor? Ao que parece, o consumidor depende da cultura progressista para definir o que é sustentável. O consumo sustentável quase sempre se refere ao consumo de novas tecnologias e novos produtos considerados mais ecológicos. Então, voltamos à estaca zero. A cultura não pode ensinar aos indivíduos o que é ser sustentável, ético, responsável e consciente, porque ela mesma não sabe o que é isso. Não reconhecemos o que é ser sustentável numa cultura que depende de desenvolvimento econômico e tecnológico acelerado. Usamos essa palavra sem ter noção do que ela significa em termos práticos, fora da lógica do consumo.

            O discurso ecológico coloca o consumidor como protagonista, como agente multiplicador de ações políticas e privadas que visam a sustentabilidade[2]. Ele deve entender o que motiva o consumo e saber separar necessidades reais de necessidades criadas. Mas como o consumidor fará isso? Não parece que isso vai acontecer espontaneamente a partir da propagação do atual discurso ecológico.


[1] Citado por Marina Mezzacappa. Outro sistema é possível?
[2] Mais recentemente, a publicidade tem jogado toda essa responsabilidade em agentes ainda mais ingênuos, as crianças. Misturando fantasias de preservação com fantasias de consumo, esta estratégia é provavelmente a mais perversa forma de publicidade. Ver http://www.publicidadeinfantilnao.org.br/

(Atualizado em 2011)

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A individualização do selvagem como domesticação da natureza


Natureza domesticada e domesticação naturalizada


O artigo “A natureza como um espetáculo – A imagem da natureza selvagem versus o selvagem” faz parte das publicações da Revolução Feral, uma corrente do anarco-primitivismo que se baseia no resgate do elemento selvagem e pré-civilizado no indivíduo. Neste artigo há a pretensão de fazer uma distinção entre a imagem da natureza e a natureza como ela realmente é. Em resumo, o artigo defende que o selvagem reside no interior do indivíduo, enquanto a natureza é uma imagem imposta ao indivíduo a partir do exterior. O autor parece ter usado alguns conceitos da Sociedade do Espetáculo, de Guy Debord, para tecer seus argumentos.

Ele começa afirmando que o conceito de uma natureza maligna vem do Antigo Testamento. Esta é a primeira afirmação que podemos questionar, já que, segundo a teologia do Antigo Testamento, Deus concebeu a criação como boa e ordenada, de onde brotava vida eterna. A concepção da natureza como fonte do mal parece na verdade se originar de outras visões de mundo, que na verdade eram opostas ao judaísmo e ao cristianismo. Segundo algumas crenças pagãs, o homem, como elemento espiritual, seria bom, enquanto o mundo, como elemento material, seria mal.

O artigo também afirma que esta primeira concepção civilizada da natureza servia para nos afastar dela, criando uma imagem aterrorizadora da vida selvagem. Aqui, podemos questionar se o medo do selvagem poderia surgir antes da separação em relação ao selvagem. Como é possível temer aquilo no qual ainda se está inserido sem nenhum grau de alienação? Segundo o artigo, o conceito de natureza maligna teria criado uma dicotomia entre humano e natureza. Mas como pessoas vivendo sem esta dicotomia criariam este conceito de natureza, passando a ter medo da realidade da qual faziam parte integralmente e a qual estavam tão bem adaptadas? É muito difícil compreender como se pode criar tal conceito sem que houvesse algum tipo de separação entre homem e natureza. 

Esta separação entre homem e natureza está pressuposta na idéia de viver em termos dos seus desejos individuais. Viver exposto a eventos naturais externos ao homem, e que nem sempre o beneficiam, não é visto como algo que produz liberdade. Não podemos pressupor uma harmonia pré-estabelecida entre os desejos dos indivíduos e o funcionamento da natureza. A vida natural não é absolutamente livre, mas antes exige que os seres vivos se adaptem ao meio, se auto-regulem e limitem a si mesmos dentro do seu próprio território. O conceito de selvagem apresentado pelo texto é justamente aquilo que nega a submissão do indivíduo a qualquer realidade externa e superior a ele.

A civilização não poderia existir sem o desejo de viver em "termos dos seus desejos". O desejo de domínio é tão humano e natural quanto qualquer outro desejo, e está relacionado ao desejo de não ter suas potencialidades negadas por agentes externos. Este é por sua vez um desejo indispensável para a geração de acúmulo e expansão do homem para além dos limites naturais, que se tornam obstáculos a ser superados para que o homem realize seus desejos.

Segundo o artigo, o conceito de natureza como fonte de inspiração e beleza seria posterior ao conceito de natureza maligna, que por si só impediria a expansão humana. Haveria uma relação de medo e desejo. Francis Bacon comparava a natureza com uma bruxa que a inquisição deveria interrogar para extrair seus segredos, mesmo que sob tortura. Bacon teria afirmado que a ciência é o meio com que o homem estabelece poder sobre a natureza. A civilização teria se utilizado dessas duas concepções contraditórias, mantendo o homem ao mesmo tempo afastado e sempre em busca da natureza, para extrair dela recursos e para desfrutar da sensação de paz que ela proporciona. Mas este conceito de natureza boa parece ser derivado de algo anterior, que foi distorcido pela civilização, mas não criado por ela.

O autor do artigo afirma que domesticação é simplesmente viver de acordo com valores externos, e não de acordo com seus desejos, o que dificulta a tese da auto-domesticação humana. Assim, rejeita toda moralidade enquanto um tipo de opressão. O conceito de natureza seria então uma imagem criada por uma autoridade buscando reforçar seu poder. A cultura usaria essa imagem da natureza para vender produtos. Mas como uma autoridade poderia criar essa imagem sem que houvesse previamente uma alienação? O autor afirma que a imaturidade, a loucura, a delinqüência, o crime e a imoralidade podem ser aspectos do selvagem na civilização. Dessa forma, confunde a crítica à civilização com a crítica à autoridade, como se fossem a mesma coisa. A causa da confusão é a associação entre poder e autoridade. Os aspectos da civilização que o autor chama de “selvagens” poderiam ser nada mais que sintomas da civilização, ou ainda articulações que a tornam mais flexível e ampliam seu alcance.

Com esta ideia se rejeita toda ação, humana ou não, sempre que esta não confirme os desejos e caprichos do indivíduo. Esta visão rotula de “domesticação” qualquer intervenção na realização de escolhas individuais, mesmo que seja uma intervenção natural. Se o homem não agisse moralmente por si mesmo, sem ser forçado a isso, então o moralismo também não existiria. Da mesma forma, se o homem não aceitasse naturalmente a autoridade legítima, não seria necessário passar uma falsa imagem de autoridade para estabelecer poder. Em outras palavras, se o homem fosse naturalmente rebelde como o autor propõe, não existiria civilização ou tradição. A autoridade não poderia ser verdadeira ou falsa, simplesmente não poderia ter significado.

O artigo rejeita o conceito de natureza porque provavelmente parte da premissa que coisa alguma pode coagir o indivíduo a partir do exterior. Esta crença conceitua a liberdade como liberdade individual, isso é, considera o indivíduo como um agente incondicionado. Nós seríamos criadores de uma falsa imagem da natureza. Porém, o critério não é mais uma verdade objetiva, e sim individual e subjetiva. A questão é o significado que a natureza tem para nós, que nos impulsiona a ter uma relação instrumental com ela. Mas o autor desdenha da possibilidade de que haja modos corretos e incorretos de se relacionar com a natureza. Qualquer tentativa de estabelecer um modo correto de se relacionar com a natureza serviria apenas para abastecer uma indústria lucrativa. Defende assim uma espécie de incorrigibilidade do sujeito, e afirma que a natureza não pode ser algo maior que nós, rejeitando qualquer tipo de submissão.

Ser selvagem seria liberar desejos reprimidos e usar essa energia desencadeada para se opor à imposição da cultura. Mas o atual estágio da civilização também investe na liberação dos desejos, e não mais prioriza a repressão. A manutenção de algum tipo de repressão serve de estímulo para manter o movimento entre esses dois opostos que se completam na sociedade complexa.

A natureza selvagem é conceituada como a livre energia potencial dos indivíduos, que pode se manifestar a qualquer momento. Parece claro que o autor está se utilizando de critérios psicanalíticos, opondo felicidade à civilização. Buscar uma coisa seria idêntico a negar a outra. Ele recusa os papéis sociais que nos são forçados, opondo a isso o “viver em termos de nossas paixões, desejos e caprichos”. Em outras palavras, o que o autor conceitua como viver fora da civilização é viver a epithumia, termo grego que significa desejo de transgressão. Isto é concluído a partir do conceito de civilização como simples repressão e aceitação forçada de regras fixas.

Para o autor, dizer que os seres humanos são únicos e imprevisíveis significa dizer que eles são totalmente livres. Ser selvagem seria abandonar seus deveres e apenas “brincar ferozmente”, ou seja, fazer o que quiser sem se limitar por regras externas: “Mas se, no meio da cidade, em qualquer momento nós ativamente recusamos nossa domesticação, recusamos ser dominados pelos papéis sociais que nos são forçados e ao invés disso vivamos em termos de nossas paixões, desejos e caprichos, se nós nos tornamos os seres únicos e imprevisíveis que repousam escondidos por trás de nossas funções, nós somos, naquele momento, selvagens”. O autor talvez se esqueça que os desejos também são regulados por regras que não estão imunes à influência da cultura, por mais instáveis que sejam.

Neste caso, ser selvagem seria viável numa sociedade não civilizada? Os seres humanos viviam em termos de suas paixões, desejos e caprichos antes da civilização? Outras culturas, com seus tabus e tradições, provavelmente seriam prisões para um indivíduo “selvagem”. De fato, o artigo aponta para uma dicotomia entre “liberdade de espírito” e "lei da sobrevivência", apontando para a idéia de que a civilização é a preservação de um processo social, em oposição a uma vida livre, que seria como uma dança caótica, em constante mutação, composta por indivíduos auto-determinados estabelecendo entre si nada mais que relacionamentos livres. Para este autor, “descivilizar” significa deixar fluir aquilo que a cultura solidificou. Porém, é exatamente isto que a modernidade líquida faz.

É preciso compreender o verdadeiro papel dos desejos na civilização. Pois se não houvesse desejo de domínio, como o homem teria criado a civilização? O texto acusa a civilização de conceituar a natureza como maligna, porém defende uma concepção civilizada de indivíduo.

Heráclito defendeu que a natureza (physis) era regida por uma lei imanente (logos). Aristóteles acreditava no equilíbrio entre a lei eterna (natural) e a lei mutável (humana). Os estóicos diziam que a physis determina o nomos (lei). Mas de acordo com o convencionalismo, estes critérios não existem, porque não há bem em si. Tudo depende das circunstâncias, o que permitiu aos sofistas afirmarem que “o homem é a medida de todas as coisas”. A moral seria uma criação historicamente determinada, sem valores universais, ou seja, este argumento depende de um relativismo moral. As duas concepções fazem parte da civilização.

A única lei natural que os convencionalistas aceitam é a busca do prazer e do poder, que seria inerente ao homem. Protágoras foi o precursor do mito de que a sociedade tem origem em acordos sociais que estabelecem regras de convivência e limitam o poder dos fortes. Foi uma inspiração para Hobbes, Locke e Rousseau. A moral individualista, onde tudo é resultado de acordo, tem por princípio a ideia de homem como ser guiado somente por suas paixões, e afirma a primazia da vontade. A questão é que se aceitamos tal premissa, não há nenhum fundamento com o qual seja realmente legítimo criticar a civilização, senão o interesse próprio.

Dessa forma, a busca por uma vida selvagem que afirme a prioridade do sujeito e a individualização da moral seria muito mais próxima de uma auto-domesticação em estágio avançado do que de uma crítica à civilização.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Século do self

Documentário da BBC sobre como aqueles no poder usaram as teorias freudianas para controlar multidões perigosas numa era da democracia de massas. Legenda traduzida para português. 4 episódios. O último está sendo traduzido.


https://sites.google.com/site/janosbirozero/Antizero/sculo-do-self



sábado, 11 de dezembro de 2010

Conclusão: Seu sistema foi atualizado

(Parte 8 de 8 da série Civilização 2.0)


Provavelmente o leitor poderá levantar muitas objeções quanto à minha afirmação de que o paradigma sistêmico ou ecológico já foi absorvido pelo monstro assimilador. Em primeiro lugar, isso não significa que eu despreze essas coisas. Não significa que você pode ser ignorante em relação a essas coisas, mas o contrário, que você não pode ignorar como as coisas mudaram. Ignorar seria continuar perseguindo fantasmas do passado, que já não têm relação com o atual estágio de desenvolvimento do monstro.
“Mas você está criticando sem apontar nenhuma solução, por isso sua crítica não tem valor”. Isto não é verdade. Eu estou apontando uma solução, mas não uma solução para a civilização, porque ela faz parte do problema. Não é a civilização que está doente, nem o homem é a doença, mas é o homem que está doente, e a civilização é o sintoma da sua doença. Minha sugestão inicial é que se critique a civilização desde seus pressupostos mais básicos. Se ao invés disso atacamos somente este ou aquele aspecto, vamos apenas fazer parte da fluidez pós-moderna. Parece que as pessoas não querem uma solução para a civilização como um todo, porque isso seria “jogar fora o bebê junto com a água suja”. Este argumento faz analogia entre a civilização e um inocente bebê. É como se não pudéssemos evitar, como se a civilização fosse existencialmente necessária ao homem, ou como se o homem autêntico fosse o homem civilizado. O verdadeiro motivo parece ser o medo de perder confortos com os quais já nos acostumamos.
O erro é justamente pagar qualquer preço para preservar aquilo que não precisa ser preservado. A civilização é a fonte de benefícios injustos que ninguém quer abrir mão. Hoje em dia, você raramente vai encontrar alguém que não se preocupa com a questão ecológica. No máximo verá empresários preocupados em ver seu crescimento ameaçado por causa de defensores do meio-ambiente. Eles acreditam que a ecologia não pode impedir o crescimento econômico, porque a crise econômica pode atingir a todos e piorar as coisas. O movimento ecológico também acredita nisso. O problema para ele se resume ao uso eficiente da energia, então não há porque prejudicar a economia, mas ao contrário, sustentabilidade pode ser um bom negócio. Sempre vai haver um eco-capitalista para nos lembrar que uma coisa não impede a outra, podemos lucrar preservando, basta pensar diferente. O ser humano é tão criativo, com certeza ele inventará um modo de comer o bolo e preservá-lo ao mesmo tempo, de modo racional.
Por outro lado a civilização é oriental o suficiente para não se apegar a nada. Até a necessidade de crescimento pode ser passageira, como indicam os recentes movimentos pelo decrescimento[8]. O monstro não é capitalista, ele simplesmente é. Mesmo o crescimento não é mais importante que o desenvolvimento e a própria superação do estágio atual. Mesmo o acúmulo e a expansão não são mais importantes que a evolução do monstro. As pessoas têm criticado o progresso quantitativo, mas não o qualitativo. O novo espírito da civilização não rejeita nada, ele combina suas necessidades com aquilo que há de mais atraente, aquilo que achamos que há de melhor em nós. Ele é jovem, rápido, inteligente, divertido, interativo... É um show de comédia de improviso. Ele vai interpretar qualquer papel para te impedir de vê-lo pelo que ele realmente é.
“Só há uma coisa a fazer: você tem que escolher” – Frase não encontrada no Google.


[8] Ver o texto “Gordura e crescimento”, de Cristovam Buarque. http://mentenovacuo.blogspot.com/2010/11/gordura-e-crescimento.html

(Atualizado em 2011)

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Relações entre o monstro assimilador e a visão sistêmica

(Parte 7 de 8 da série Civilização 2.0)


Revisando o conceito de monstro assimilador como um processo sem identidade definida, podemos fazer a relação entre aquilo que a civilização se tornou no presente, seu processo de evolução e a visão de mundo pressuposta nos conceitos biológicos e ecológicos que ganharam espaço na cultura nas últimas décadas. O conhecimento necessário para se criticar este processo é maior do que o conhecimento necessário para mantê-lo funcionando. Este último tem se tornado cada vez mais desnecessário, na medida em que o processo começa a ganhar a autonomia de uma máquina programada para reproduzir, gerenciar, corrigir e modificar a si mesma. O monstro está em constante mutação. Significa que qualquer dos seus elementos pode ser criticado sem ameaçá-lo. O que não pode ser questionado é seu modo próprio de mudar, ou seja, sua estrutura adaptativa.
Tal como os seres-vivos vistos sob a teoria da complexidade, sua identidade não está na sua composição, mas na sua organização dinâmica. Ele não está determinado de fora, mas por sua própria estrutura, que é mantida por indivíduos. Isso seria impensável sem o conceito de autopoiese. Não quer dizer que a civilização seja equivalente a um organismo vivo, mas que se apropriou desse modelo assim como nós nos inspiramos na natureza para criar as máquinas. Não apenas imitamos o funcionamento, mas assimilamos as capacidades e habilidades da natureza para expandir nosso próprio poder. Por outro lado, devemos também considerar a hipótese de que estes conceitos que aplicamos na nossa compreensão dos fenômenos vivos tenham sido, de certa forma, influenciados pelo modo de desenvolvimento da cultura civilizada.
Certamente a civilização possibilita coisas boas. A questão é qual a posição dessas coisas na estrutura da civilização, pois dependendo da posição, elas podem ser mais do mal usadas, mas resultados de um mau uso das nossas capacidades. Sendo uma estrutura fluída, é cada vez mais difícil determinar isso. Ela chega a um grau de complexidade da organização onde pode não apenas dar boas-vindas ao caos, mas passa a depender de caos para manter-se de pé. Com base na visão sistêmica, não poderíamos criticar a civilização em si mesma. Ela seria um resultado do acaso, e já que existem infinitas possibilidades no universo, ainda poderia dar certo. Eis a origem do mito de que basta adicionar esforço humano. De certa forma, a civilização não começa há 10 mil anos atrás, ela começa no momento em que essas ideias entram na cabeça de alguém. Determinar o ponto histórico em que essas ideias começaram a surgir não faz muita diferença, já que a causa não é simplesmente material, mas mental. O mostro se localiza no nosso sistema de crenças. Ele toma controle, como um vírus, de nossas funções vitais, e as transforma em funções domesticadas.
Isso explica porque autores como Lovelock e John Gray[7] tendem a ver o homem como uma praga natural. Primeiro, porque não podem negar que o homem faz parte da natureza como qualquer outro animal. Segundo, porque não podem negar que ele está degradando o meio em que vive, e isso só é remotamente comparável ao comportamento dos vírus. Logo, o homem não está doente, o próprio homem é a doença. Se tudo é natural, a civilização também é natural, embora pragas naturaissejam úteis à natureza. Mas, se seguirmos a linha de raciocínio dessa cultura, diremos que homem é regido por suas vontades, e suas vontades são expressões de suas necessidades. Ele não pode evitar a degradação do meio porque é primariamente egocêntrico. Logo, é preciso ser cético quanto à crença de que o conhecimento possa levar ao bem, que a ciência nos liberte, e que a crença em Deus seja mais do que um consolo. Isto é a única conclusão racional que parte desse ponto de vista: se o conhecimento humano não leva ao bem, nada pode levar. Se a ciência humana não nos liberta, nada pode libertar. Se a crença em Deus não melhora a nossa situação mundana, então ela não serve para nada. Só podemos retardar o inevitável. E o corolário dessa linha raciocínio só pode ser que não faz sentido ser racional. Isso é o que acontece quando se deposita todas as esperanças no homem.


[7] “A destruição do mundo natural não é resultado do capitalismo global, da industrialização, da ‘civilização ocidental’ ou de quaisquer falhas em instituições humanas. É a consequência do sucesso evolucionário de um primata excepcionalmente rapace.” (GRAY, John N. Cachorros de palha: Reflexões sobre humanos e outros animais. Record, 2005, p. 23)

(Atualizado em 2011)

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Para muito além da razão

(Parte 6 de 8 da série Civilização 2.0)

            Como se trata de uma síntese dos contrários, a nova cultura não descarta nada. Ela aceita um “equilíbrio” entre o velho e o novo, e mesmo entre racionalidade e irracionalidade. O que há é uma mistura confusa de discursos, que hora são empiristas e hora são sentimentalistas, mas não chegam a nenhum consenso senão o de que todo consenso é burro. O paradigma valoriza essa fluidez como sendo necessária. Nossa sociedade seria um aspecto patológico da vida exatamente porque valorizou as coisas, que são estáticas, e não as pessoas, que são dinâmicas. Mas tudo isso não passa de um jogo retórico. Todas essas ideias são apenas frutos do desenvolvimento da própria cultura civilizada, passando do seu estágio moderno ou sólido para seu estágio pós-moderno ou líquido[4]. Este pretenso equilíbrio destrói o significado das coisas que ele tenta unir.
            É importante notar que essas ideias fundamentam não apenas a pseudo-ecologia, mas a ecologia como paradigma para outras ciências. Está incluída aí a visão da ecologia integral e da ecologia profunda, que também determinam um novo paradigma político e econômico, relacionado à defesa da democracia. O social é defendido a partir da autonomia individual. A nova cultura é um produto do liquidificador da pós-modernidade, e é a base para o discurso da biocivilização.
Não podemos deixar de notar como isso se relaciona também com as idéias de Aldous Huxley. Embora ele tenha criticado mais do que proposto, deixou claro que estava interessado na liberdade. Ele compreendia que o Estado poderia dominar corpo e mente, fazendo o indivíduo amar a servidão por meio de lavagem cerebral, que não precisaria ser necessariamente dolorosa, como ocorre em 1984, mas poderia ser prazerosa, como em Admirável Mundo Novo. Por tanto ele estava interessado em distinguir o verdadeiro do falso, a sanidade da felicidade, mas não deu nenhum critério para isso senão o critério pragmático. Falou sobre a possibilidade de que a ciência e a tecnologia sejam colocadas a serviço do homem, que um paradigma biológico substitua o físico, que a mística substitua a fé, que o utilitarismo substitua todas as filosofias. Enfim, a eficiência substitua a tradição, e isso é facilmente considerado como mais verdadeiro por mentes que são herdeiras do iluminismo. Ele foi um visionário da nova civilização, mas sua visão acabou influenciando o resultado. Muitas pessoas se guiam por ideias semelhantes às expostas ali. Por exemplo, a fragilização dos laços combina com a proposta dos Clubes de Adoção Mútua do romance A Ilha. Segundo Huxley: “Os nossos sociólogos chamam a isso de hibridação de micro-culturas e dizem que os efeitos são tão bons quanto aqueles que permitem a obtenção de diferentes variedades de milho ou de galinha”[5].
Outro exemplo seria sobre o conflito entre liberação sexual e repressão, que parece ter sido sintetizada na forma de uma cultura da futilidade. Huxley queria misturar o melhor dos dois mundos, ocidental e oriental. Acontece que, em termos de crítica à civilização, isso faz pouca diferença. Mas esse discurso continua sendo considerado como alternativa viável para a mudança. É por isso que vemos Capra defendendo o consumo de orgânicos e de alimentos integrais com a justificativa que o agricultor perdeu sua liberdade e sua criatividade no processo de produção, ficando restrito a reproduzir técnicas e modelos escolhidos por outras pessoas. É o problema da autonomia e impondo-se como causa de todos os da liberdade  causa de todos o outrosessoas, porque pessoas sdo Edgar Morin. outros. O problema seria o desequilíbrio entre os contrários, Yin e Yang, como exposto no seu Tao da física. O produto orgânico representa um uso mais eficiente da energia, e logo podemos constatar que Capra crê numa relação direta entre autonomia e eficiência energética, justamente como prega o paradigma da autopoiese, que por sua vez é resultado do desenvolvimento de uma cultura materialista ou naturalista. Para Capra, como para Sachs, a fome é um problema social e político, por isso deve ser resolvido pela biocivilização.
Mas é preciso notar que todas essas questões, tais como a alteração da noção de tempo e espaço, a instabilidade, o hibridismo, o nomadismo e a descentralização são produtos da evolução esperada da civilização. Se em algum momento nós fomos separados desses elementos, somos agora reintegrados a eles por meio das relações artificialmente criadas num novo estágio da cultura civilizada. Quer dizer que o que é aceito de volta é aquilo para o qual se criou um espaço dentro da civilização, onde aquilo pudesse permanecer “sob controle”[6].


[4] "A modernidade da qual estamos saindo era negadora; a supermodernidade é integradora. Não mais a destruição do passado, e sim sua reintegração, sua reformulação no quadro das lógicas modernas do mercado, do consumo e da individualidade. Quando até o não moderno revela a primazia do eu e funciona segundo um processo pós-tradicional, quando a cultura do passado não é mais obstáculo à modernização individualista e mercantil, surge uma fase nova da modernidade." (LIPOVETSKY, Gilles. Os tempos hipermodernos. Trad. Mário Vilela. São Paulo: Barcarolla, 2004. p. 57-58)
[5] HUXLEY, Aldous. A Ilha. São Paulo: Globo, 2001, p. 149.
[6] "As experiências de tempo e espaço movediços e polimorfos, as incertezas políticas, as mestiçagens étnicas, o nomadismo do desejo, os hibridismos culturais, os descentramentos da identidade produzidos pelas sombras do outro estão de tal modo entranhados na constituição da nossa cultura que pouca ebulição os debates pós-modernos estavam fadados a produzir em nós." (SANTAELLA, Lucia. Culturas e artes do pós-humano: da cultura das mídias à cibercultura. São Paulo: Paulus, 2003. p. 70)

(Atualizado em 2011)

sábado, 4 de dezembro de 2010

Autopoiese como princípio

(Parte 5 de 8 da série Civilização 2.0)


Segundo a teoria de Maturana e Varela, os humanos produzem subjetividade por estímulos condicionantes. De um modo misterioso, eles criam a violência contra a autopoiese, contra a dinâmica da vida. A teoria evolucionista aplicada à sociedade serviu para colocar a espécie acima do indivíduo. Mas a fenomenologia biológica da autopoiese coloca o indivíduo no centro, defendendo que não há indivíduos “descartáveis”, porque todos podem ser úteis ao todo. O princípio hierárquico de sistemas que contém outros sistemas possibilitaria a compreensão da complexidade da vida. A autopoiese individual é por isso compreendida como subordinada à autopoiese social. Mas negar a autopoiese da parte seria negar a autopoiese do todo, por isso não faria sentido dizer que a preservação do social tem precedência sobre a preservação do indivíduo. Ao contrário, a sociedade só pode ser autopoiética se satisfazer a autopoiese dos seus membros. Qualquer sistema que descarte membros produtivos seria patológica. Mas se um membro se torna improdutivo, quer dizer que perdeu sua autopoiese.
De acordo com alguns defensores dessa tese, se você não concorda com essa visão mundo, é apenas porque foi condicionado pelo pensamento linear, não aprendeu a pensar complexamente, e por isso não tem condições de perceber as coisas dessa forma. Você também perdeu sua autopoiese. As ideias têm que combinar com o paradigma, não a realidade objetiva, mesmo porque de acordo com o próprio paradigma, nem sequer existe realidade objetiva, pois a realidade não é a mesma para todos. Com esta circularidade, tudo está justificado. A velha cultura seria competitiva e excludente, a nova cultura seria integradora e inclusiva. A nova cultura, assim como o novo capitalismo, defende a matemática do jogo de soma não nula, isto é, a vitória de um não depende da derrota de outro, podemos todos vencer, podemos todos ter qualidade de vida. Filosoficamente, se trata da aceitação da doutrina da síntese dos contrários, que sustenta a filosofia do progresso mútuo, quantitativo e qualitativo, mas sem base objetiva. A única base e o próprio homem.
A nova cultura inspira competência e não competição. Ao invés de lutar contra os outros, a luta pela sobrevivência seria uma luta para superar a si mesmo. Seus defensores esperam que a mudança cultural leve a um auto-aperfeiçoamento individual. Quer dizer que podemos criar uma cultura em que todos os avanços possam ser usados para o bem da humanidade, basta sabermos lidar com o risco e com a mudança contínua, o assim chamado “fluxo da vida”. O critério de competência não seria excludente porque a competência é um fator estrutural, que depende de um momento específico e não de uma verdade eterna. Logo, não há problema em ser quem você é, mas sim em estar como você está. Isto reabre as possibilidades de progresso individual, e suporta as teses da micro-revolução ou revolução pessoal. Se não conseguirmos nos adaptar a tal fluxo da vida... Bem, não será culpa de ninguém, é só azar. Reconfortante? Só se você ignorar que a força que faz o fluxo da vida correr cada vez mais rápido é a mesma que fragiliza as relações humanas e nos leva à desintegração por um processo acelerado de desestruturação e reestruturação, que, aliás, não tem sentido nenhum. É um fim em si mesmo.

(Atualizado em 2011)

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

A autopoiese como nova visão de mundo

(Parte 4 de 8 da série Civilização 2.0)


Se quisermos identificar o fundamento dessa nova forma de ver o mundo, deveríamos olhar para o conceito de autopoiese[3]. Este é provavelmente o conceito científico mais importante para o novo espírito da civilização, e só pode ser entendido a partir do pensamento complexo, que leva em conta a relação entre o todo e as partes. Ele indica uma nova forma de estudar os fenômenos biológicos, vendo os seres-vivos como seres que produzem sua própria existência de modo dinâmico, num processo de ‘autonomia dependente’, isto é, sua autonomia é dada pelo meio do qual dependem. Este conceito acaba influenciando não apenas a biologia, mas uma nova visão do homem e da sociedade numa era que trocou a física pela biologia.
Segundo Maturana e Varela, o organismo é determinado por sua estrutura, mas esse determinismo estrutural não significa que o organismo seja pré-determinado ou previsível. Ao contrário, sua identidade está na sua organização. A organização determina a percepção da realidade. Por isso, não se pode mais falar de conhecimento objetivo. Este só se garantia com base na obediência a uma autoridade. A valorização do raciocínio lógico serviu para manter uma estrutura de poder e para separar o ‘eu’ do mundo, criando uma visão fragmentada. A visão holística sugere que a verdade não é a mesma para todos, porque ela depende da percepção de um determinado ponto de vista num determinado momento. Mas tudo está em mutação. A mudança do indivíduo e a mudança do meio se correspondem, sendo que nenhum tem prerrogativa sobre o outro. Apesar de cada individualidade perceber uma realidade diferente, o diálogo entre dois indivíduos é possível porque eles partilham um contexto consensual, isto é, são pares estruturados.
O diálogo entre um par estruturado é diferente de uma simples transmissão ou transferência de informações. Os indivíduos se entendem porque a conduta de um combina com a conduta do outro, pois as estruturas de ambos são comunicantes. Nenhum deles dita normas de conduta ao outro. Na natureza não haveria obediência incondicional. As semelhanças de conduta seriam determinadas pelas semelhanças de estrutura, já que o comportamento é determinado pela estrutura. Isso garantiria a autonomia dos indivíduos e excluiria a necessidade de submissão ou determinação exterior, isto é, coerção. Isto serviria como base de rejeição ao domínio de uma estrutura social vigente, já que esta era vista como algo que impedia a autonomia dos indivíduos.


[3] MARIOTTI, H. 1999. Autopoiese, Cultura e Sociedade. http://www.geocities.com/pluriversu/autopoies.html

(Atualizado em 2011)