quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Dependência das redes

Artigo completo e revisado sobre a dependência tecnológica e as redes: Dependência das redes

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Dependência das redes


1. Play the game
            Na nossa sociedade, a interação mediada pela tecnologia parece ter um papel de relevância crescente. É a tecnologia que conecta o mundo numa só rede, e se a globalização é um fenômeno cultural, podemos dizer que é um fenômeno dependente de suportes tecnológicos. Logo, a globalização da ideologia é também a globalização da tecnologia ou da cultura tecnológica. Não apenas isso, a colonização cultural também gera dependência tecnológica. Esta dependência não acaba assim que os lugares colonizados pela cultura global se tornam capazes de criar seus próprios suportes tecnológicos, assim como a dependência cultural não acaba só porque um país submetido à cultura global começa a criar seus próprios produtos culturais típicos da globalização, como filmes ao estilo de Hollywood. Não há soberania tecnológica de um país, nem autonomia tecnológica, pois são os imperativos da cultura tecnológica que permanecem regendo. Além disso, por se tratar de algo que avança numa velocidade acelerada, a dependência tecnológica é também um processo crônico de dependência do avanço dos suportes tecnológicos.
            Esta tecnologia de globalização apresenta um paradoxo: ela une indivíduos ao mesmo tempo em que fragmenta identidades e provoca solidão. A solidão em escala global se dá principalmente porque a conexão a uma rede social virtual pouco significa em relação à proximidade tópica, o encontro. Participar de uma rede social e interagir dentro dela é quase como fazer parte de um grande jogo. Um jogo que exige interação entre jogadores, mas que continua sendo uma atividade distinta daquilo que pode ser chamado de social[1]. É uma simulação de socialização, que vai se tornando cada vez mais realista, a ponto de os participantes desejarem incluir todos os aspectos de sua vida dentro dessa simulação, por meio de fotos, vídeos e uma presença virtual cada vez mais palpável. Assim, como num jogo de realidade alternativa[2], perdemos a noção daquilo que separa a vida real da vida simulada. A vida simulada pelo perfil do usuário e carregada na internet se torna a própria vida do usuário. A atividade na internet já é por si só uma “segunda vida”, uma vida virtual e simulada, onde o usuário interpreta a si mesmo, e está sempre livre para adicionar ou eliminar alguns detalhes sobre sua vida. Ele está de fato criando um personagem, tal qual um candidato a emprego cria uma imagem para atrair seus empregadores em potencial. O usuário de redes sociais cria uma imagem de si mesmo que possa atrair parceiros em potencial, mesmo que para uma interação transitória e casual.
            Tal como num jogo, há ações que irão somar ou subtrair “pontos” do seu status virtual, que fica subentendido e pode ser avaliado por uma série de sinais, incluindo o número de amigos. Um usuário pode até dizer que é espontâneo, mas parecer ser espontâneo é algo que conta pontos positivos. E isso acontece exatamente porque o modo mais fácil de chamar a atenção é agregar muitos atributos atraentes. Mentir sobre suas próprias qualidades é como trapacear no jogo, mas a aparência de espontaneidade faz parte das regras ocultas do jogo[3]. Como em toda interação humana, não temos acesso direto à sinceridade do outro. Como no jogo da conquista, mentiras podem ser bem mais agradáveis do que a verdade, e por isso são toleradas até certo grau, às vezes até mesmo exigidas. Com isso se cria uma cultura da mentira, pois a exigência de verdade pode inviabilizar a interação. Logo, temos um novo tipo de dependência, a dependência de maquiar a realidade para poder ser competitivo num mundo onde a espontaneidade é um produto criado pelo usuário de modo tão artificial quanto uma imagem modificada por computador.

            2. Crise de identidade
            A crise nas bases institucionais da identidade está relacionada ao fato de que as ferramentas para se construir uma identidade falsa são as mesmas usadas para divulgar sua identidade real. A instituição que dava suporte à identidade não existe mais, ela foi substituída pelo suporte tecnológico, que não comporta limites definidos entre verdadeiro e falso. A rigor, é quase impossível definir o que é verdadeiro e o que é falso nas redes. Só podemos ter estimativas de confiabilidade. Quanto mais dependemos da nossa própria rede para confirmar a verdade dos fatos, mais o suporte tecnológico se apropria dos nossos critérios de distinção da realidade, o que significa que a dependência avança para um novo patamar: passamos a depender da rede virtual para conhecer o real. O que está ou não conectado na rede vai nos dizer o que supostamente está conectado ou não na vida real, e viemos a nos encontrar numa crise epistemológica, isto é, uma crise na origem do conhecimento e na definição da verdade.
            A crise partiu das relações de trabalho, criando a necessidade de uma gestão da empregabilidade, e alcançou outros aspectos da vida social, gerando uma necessidade de gestão da própria identidade, que se confunde com a gestão da imagem. O indivíduo cria seu próprio perfil com base na auto-imagem que tem de si mesmo, e chama isso de ‘eu’. Se todos nós temos imagens distorcidas de nós mesmos, produzidas pelo próprio ambiente social, nossos perfis justificam essas imagens e as fortalecem, aprofundando a distorção. O usuário é aquilo que ele faz de si mesmo, e sem recorrer a bases tradicionais, ele acaba seguindo os fluxos oferecidos pela cultura global. Ele pode escolher por diversas configurações, mas essa diferença no fundo é irrelevante, porque todas estão seguindo uma mesma regra básica: você precisa subir de nível. O indivíduo nascido e criado nas redes está centrado em suas próprias realizações e habilidades, valoriza a flexibilidade e a facilidade de conexão em redes transitórias. A flexibilidade implica em aceitar riscos cada vez maiores, uma vez que você não pode contar com o apoio de uma instituição fundada em princípios sólidos, mas está por sua própria conta num jogo de vida ou morte. Você precisa cumprir as expectativas de consumo do mundo global ou será descartado.
            Mas essas expectativas não são impostas por leis ou coerções. Elas podem ser justificadas por discursos como: “seja você mesmo” e “permaneça jovem para sempre”. Elas são imperativos silenciosos que mal são percebidos enquanto se está concentrado no ato de jogar. Provavelmente será preciso perder quase tudo para perceber que a estratégia de simplesmente tentar ser quem você realmente é não dá certo. É nesse momento em que o sujeito se cansa de “ser bonzinho”, e adere a um ethos global como se este fosse o grande salvador de sua possibilidade de sobrevivência social. Não deve ser difícil coletar narrativas de pessoas que viveram por muito tempo de um modo mais autêntico, e então desistiram de tudo por um pouco de reconhecimento, status, ou afeto. Elas podem justificar isso da forma como quiserem, mas uma análise social pode revelar que tudo isso não passa de um método de controle social extremamente eficiente, porque joga com os sentimentos mais profundos das pessoas, incluindo sua auto-estima.

            3. Engenharia da obsessão
            A globalização divide as pessoas, porque seguindo seus imperativos, elas se tornam competidoras por um espaço na lista de melhores pontuações globais ou locais. É preciso ser o melhor de todos os tempos, mas se isso não for possível, pelo menos o destaque do mês, do dia, ou do instante. Adolescentes classificam outras pessoas com base nesse critério de uma forma tão natural que é quase automático. Mas isso é cultural, e elas só aprenderam tão rapidamente porque nós as ensinamos muito bem, pelos exemplos e pela ideologia pressuposta em cada um dos nossos produtos culturais.
            A nova geração parece nascer sabendo lidar com tecnologia porque a pressão para se adequar a ela é crescente. Nós não sentimos porque para nós ela foi crescendo lentamente, tivemos tempo de nos acostumar com cada coisa nova. Mas para as novas gerações a rapidez da mudança é perceptível no seu tempo de vida. Esses indivíduos precisam se adaptar rapidamente às tecnologias complexas, sob a pena de ficarem invisibilizados. Não podemos pensar que essa geração simplesmente goste de computadores por viver cercados por eles, ou porque computadores são simplesmente atraentes. Se os computadores não tivessem adquirido o significado que adquiriam para nossa cultura, poderiam ter permanecido como invenções desinteressantes para a maioria das pessoas. Os primeiros interessados em computadores eram pessoas individualistas, e teriam permanecido à margem da sociedade, se não fosse pelo desenvolvimento do processo de individualização. É a pressão da dependência tecnológica que nos força a aprender a nos comunicar por meio de máquinas e nos inserir em redes o mais rápido possível. As crianças se adaptam a esse mundo antes de terem capacidade para julgar se isto é certo ou errado. Isso leva a dependência para um nível existencial. Nós nos tornamos existencialmente dependentes do suporte tecnológico às redes.
            Não podemos fazer idéia dos resultados disso, mas algumas visões do futuro podem fazer mais sentido que outras. As ficções científicas representam as crianças nascidas na rede tecnológica como seres evoluídos, que possuem um entendimento superior. Este é um mito que indica o significado quase transcendente da tecnologia nessa sociedade. Ao mesmo tempo em que as crianças se conformam com a tecnologia de um modo cada vez mais rápido, elas também se conformam com um sistema de crenças claramente adaptado aos imperativos da globalização. E elas o fazem pelo mesmo motivo: por uma pressão que rege a distinção entre aqueles que valem alguma coisa e aqueles que não valem nada. Um dos critérios distintivos é a autonomia. Ao contrário do que se possa pensar, autonomia é uma exigência social. Se um dia a submissão foi uma qualidade valorizada pela sociedade, dificilmente poderíamos afirmar o mesmo hoje. Por mais que o espectro repressivo ainda ronde nosso mundo, o furor anti-repressivo procura vestígios dessa falida instituição para ter onde jogar a culpa de todos os problemas, e trabalha duro para limpar o mundo de todos os vestígios de autoridade. Este espírito agora é indispensável tanto na educação formal quanto na informal. Tanto na escola quanto no cinema e nos jogos eletrônicos, o mesmo discurso básico está presente: “Seja você mesmo”, “Seja livre”, “Viva a própria vida”, “Escolha seu próprio caminho”, “Seja senhor do seu destino”. Isto seria impensável a alguns séculos atrás, e soaria revolucionário a algumas décadas, mas hoje se trata apenas de um clichê.

            4. Autônomos autômatos
            É a própria busca por autonomia que faz bilhões de pessoas decidirem “por si sós” fazerem exatamente a mesma coisa, ou mais especificamente, consumir o mesmo produto, que promete liberdade. Mais do que promete, ele garante um substituto para a liberdade que foi tirada de todos, e causa uma sensação de abstinência em todos que não possuem aquele determinado produto, material ou não. Uma pessoa que se nega a consumir se verá rapidamente jogada à margem da sociedade, tal qual aquele que não tem condições de consumir[4]. Logo, não é uma opção, mas uma imposição. Os sujeitos que buscam por autonomia se tornam objetos de um processo social por meio dessa mesma busca. Mas estão tão engajados com esse discurso que o aplicam até mesmo para rejeitar qualquer forma de crítica a ele. Qualquer um que não reproduz o discurso será visto como um inimigo da autonomia, ou seja, como um opressor. Opressores são aqueles que, em qualquer momento, te impedem de fazer o que você quer. Para essa mentalidade, a linha que separa os opressores e os defensores dos valores humanos se tornou muito tênue. O resultado é que não fica nenhum obstáculo entre o indivíduo e o mecanismo doutrinador invisível e pluralizado da cultura global.
            Se houvesse uma frase que pudesse resumir a ação desse mecanismo seria: “Existem muitas formas de ser civilizado. Invente uma”. Contanto que se compre o produto cultural que a globalização está vendendo, você é livre para inventar qualquer utilidade para isso. Isso é chamado de criatividade. Mas o paradoxo da criatividade é que não deixa de haver muita criatividade num povo que faz apenas diversas variações da mesma coisa. A criatividade pode expandir a experiência em torno de um único tema, mas a diversidade quantitativa não significa necessariamente diversidade qualitativa. Ao que parece, nós vivemos numa cultura do remix[5], onde todos compreendem que “não há nada novo sob o sol” e o plágio passa a ser criativo, uma vez que nossa imaginação está alimentada por refluxos e rearranjos, onde a ordem das coisas se altera independente do conteúdo ou do significado.
            Nós temos apresentado diversas variações da intolerância à autoridade. Esta intolerância tem sido um produto bastante procurado no mercado. Qualquer um que preste atenção pode fazer uma lista infindável de exemplos na música, na literatura e no cinema. A exceção à regra é ver um personagem que ouve uma ordem vinda de uma autoridade legítima, e a acata, sem ser considerado um imbecil ou acabar se dando mal. Parece que se fosse essa a regra, não sobraria nenhuma história digna de ser contada. Mas o fato é que nem sequer há reconhecimento de qualquer forma de autoridade. As próprias figuras de autoridade precisam relativizar sua posição para merecer algum respeito. O discurso mais propagado pela cultura global hoje é que não há relações estáveis e válidas por si mesmas. Isto significa que não há instituições. As duas coisas estão intimamente ligadas. Sem instituições não é possível sustentar relações duráveis. Você não pode manter uma coisa em pé por muito tempo sem um ponto fixo. O fato é que ninguém quer manter as coisas de pé, identificando isso como um estado estático. O que queremos é ver as coisas fluindo. Elas devem fluir e se tornar o que quer que venham a se tornar, porque a única coisa que deve ser mantida é o próprio fluxo. O erro é que saber ficar de pé não é o mesmo que ficar parado. Para andar é preciso saber ficar de pé.
            A instabilidade pode ser facilmente naturalizada por meio da propagação de certas concepções de mundo. Mas a intolerância à permanência, assim como a intolerância à autoridade, está mais relacionada a uma necessidade de reconhecimento pessoal num mundo que preza essas características do que à valorização da liberdade. O modo de trabalho que surgiu na sociedade organizada em redes é produto de uma ética voltada à competência individual, que exige um tipo de autonomia[6]. Isto é mais visível precisamente nas profissões diretamente relacionadas à tecnologia. Os criadores de tecnologia são também os primeiros a usar essa tecnologia em suas vidas, e os primeiros a sofrer os efeitos dessa tecnologia. O computador pessoal começou como um projeto pessoal, e desde o início a rede de computadores estava relacionada a uma visão de mundo que dava poder aos indivíduos, conectando-os de forma autônoma. Competência pessoal é o único critério que poderia ter restado. Ele não significa somente que um indivíduo deve ser recompensado de acordo com sua competência, mas que esta competência depende unicamente da facilidade com que o indivíduo se adapta a um meio em constante mutação, e não da sua capacidade de distinguir qual é o caminho correto e se manter firme nele. O conhecimento solidamente estabelecido é dispensável e talvez até prejudicial, uma vez que a verdadeira questão é a rapidez para desenvolver novas habilidades, pois o mundo é instável e impõe dificuldades imprevisíveis. O que você aprendeu ontem talvez não tenha nenhum valor de mercado hoje, independente de ser verdade ou não. Ser dinâmico e flexível significa provar que você é capaz de acompanhar o fluxo imprevisível do mercado, o que a rigor é impossível, e se torna mais importante projetar uma imagem de confiabilidade.

            5. Produtividade aparente
            No mercado de bolsas de valores, as ações não são valorizadas pelo que elas realmente valem. Elas são valorizadas pelo que elas parecem valer num dado momento. Isso é determinado pelo grau de confiabilidade, que pode variar em segundos, e que depende quase que unicamente de discursos, verdadeiros ou falsos, espalhados pela rede de informações. O valor de uma pessoa varia de acordo com regras semelhantes, tornando-a um tipo de investimento. Não apenas isso, mas a inconstância dos relacionamentos indica que o valor de um amigo ou de um cônjuge pode variar de acordo com essas mesmas regras. As relações só puderam se tornar plenamente mercadorias quando a rede social se tornou parte da cultura, por meio do avanço tecnológico. Este é o tamanho do dano das redes de computadores, por mais que gostemos delas. Elas não somente aceleraram um processo que estava ocorrendo há milhares de anos, como representam uma estratégia perfeita para realizar o estágio final da conversão das relações humanas em mercadorias. Falando de um modo um pouco mais especulativo, é difícil acreditar que não tenham sido concebidas justamente com esse propósito.
            Para Weber, a ética do trabalho valorizou a racionalização do tempo em vista da eficácia produtiva. Agora, a imagem do trabalhador é mais um produto que exige tempo para ser construído. É mais um trabalho não remunerado que é exigido para se obter uma remuneração. Logo, o tempo não está necessariamente ajustado à atividade produtiva, mas a um modo de produção que por vezes exige um trabalho sem qualquer efetividade produtiva, apenas porque a concorrência por uma vaga aumentou. O consumo pode tomar uma parte maior do nosso tempo agora, o que evita o excesso de procura por emprego e disfarça a crescente taxa de desemprego. Quando não estamos consumindo, estamos criando condições para consumir, ainda que isso não seja exatamente produtivo, pois a produção se tornou eficaz demais. Culpar a tecnologia por roubar nosso emprego é o de menos, o verdadeiro problema é que a tecnologia é apenas a consequência do esvaziamento de possibilidades de permanência dentro de um modo de vida natural, da desfuncionalização progressiva do homem enquanto ser natural. Nós inventamos novas tecnologias primariamente para evitar o colapso da civilização, e consequentemente elas “facilitam” a vida civiliza, mas somente de modo temporário e relativo.
            O trabalhador é seduzido pela idéia de ser autônomo. Mas ser autônomo significa dedicar-se completamente ao seu próprio trabalho como produção de si mesmo. Um momento ocioso pode significar mais do que um prejuízo financeiro. Se o empregado era vigiado pelo chefe que cobrava produtividade, essa produtividade aparente não determina necessariamente seu salário no final do mês. Mas se você é autônomo, seu chefe não pode tem um momento de distração, porque você é seu próprio chefe, seu prejuízo é garantido, e o sistema economiza o salário que seria pago ao chefe. O que parecia uma solução de uma neurose produziu outra neurose pior ainda: o perfeccionismo e o vício em trabalho. Isso fica mais claro quando vemos a dificuldade de trabalhadores autônomos de separar seu tempo de trabalho do seu tempo livre. Isso inclui empresários que adquiriram grande parcela de autonomia nas suas decisões. Ao contrário de uma empresa do século passado, uma empresa atual é antes de tudo uma marca. Ela não pode fechar por um tempo e depois voltar exatamente onde estava. O ranking está correndo, e os jogadores estão se aprimorando e o jogo está mudando de regras constantemente.
            O tempo livre precisa ser trocado por tempo dedicado à filosofia pragmática do trabalho, ainda que a atividade em questão seja improdutiva. Neste tempo improdutivo do trabalho as empresas exigem um investimento emocional. Por exemplo, a filosofia da empresa deve preencher todo o tempo livre do funcionário, como uma filosofia de vida que visa o auto-aprimoramento. É difícil dizer se este investimento emocional é exigido porque realmente aumenta a produtividade, ou apenas porque esta se tornou uma exigência de uma sociedade que valoriza a aparência. É importante dizer que a questão não é se uma empresa com uma imagem melhor realmente gera mais lucro, mas que a exigência de uma imagem atraente é criada pela própria ética do trabalho, e apenas por isso afeta o lucro. Ou seja, há menos procura pelas empresas com imagens inferiores. Se a aparência não fosse exigida pela cultura, mas somente a produtividade real, as coisas poderiam ser diferentes. Essa cultura não surge do nada, mas antes é criada pelos próprios agentes produtivos. Quando estes difundem uma ética da produção, também difundem uma ética do consumo. Quanto maior a precariedade da produção e menor a qualidade do que é produzido, maior a exigência de boa aparência[7].

            6. O imperativo da flexibilidade
            A ética do trabalho ou ainda a filosofia do trabalho como um todo, abrangendo todos os seus pressupostos, invade o espaço de todas as outras visões de mundo. Ela transforma tudo que não se volta para o trabalho em “perda de tempo”, incluindo o tempo dedicado à manutenção de laços afetivos. Pode ser verdade que casamentos aceleram o consumo, mas são as paixões repentinas, os relacionamentos transitórios, os divórcios e as traições que mais aumentam o consumo, e não um casamento estável. É uma ilusão pensar que essa cultura defende a instituição do casamento. A cultura global se utiliza de um discurso machista ou feminista de acordo com a conveniência. Ela não defende os casamentos duráveis, mas as festas de casamento, que são eventos sociais que geram consumo. Não há vantagem nenhuma em defender o casamento enquanto instituição para uma cultura globalizada interessada em acelerar o consumo. Quanto mais o matrimônio deixa de ser necessário para o acúmulo de patrimônio, menos valor o casamento tem para esta cultura.
            As instituições são apropriadas e reformuladas para se encaixarem na lógica do mercado. Do mesmo modo que a flexibilização das relações é vantajosa para essa cultura, a flexibilização das identidades também é. Não é que as roupas indicam a personalidade do indivíduo que as veste, mas que usar uma única combinação de roupas por muito tempo diz mais sobre o indivíduo do que o tipo de roupa sendo usada. A exigência não é que você use o mesmo uniforme pelo resto da vida, mas precisamente que você varie de acordo com o tempo. Se você tentar vestir sempre a mesma roupa, poderá ter dificuldades para socializar. E isso diz mais sobre nossa cultura do que o tipo de roupa que está moda.
            A flexibilização do tempo acaba nos levando a uma flexibilização da identidade. Se nós nos definimos pela nossa ocupação, quando não conseguimos definir exatamente qual é nossa ocupação, nós temos dificuldades para definir quem somos. Um trabalhador pode desprezar o significado de seu trabalho para a sociedade, e prezar somente o modo como seu poder aquisitivo pode possibilitar um status enquanto consumidor. Mas ele não pode construir uma identidade própria se a única coisa que ele se importa em fazer é qualquer coisa que possa dar dinheiro. Ele sentirá uma necessidade muito grande de encontrar algo satisfatório em que gastar o tempo e o dinheiro. Até o Tio Patinhas dava uma utilidade ao dinheiro acumulado, pois sentia um enorme prazer em nadar nele. A identidade se relaciona com a ocupação profissional. Trata-se de algo bem maior do que o resultado de um teste psicotécnico, de um teste de personalidade ou de um teste vocacional. O que você faz afeta quem você é, mas nós não podemos ser apenas isso. A ética do trabalho substituiu todas as outras éticas, e a instituição do trabalho relativizou todas as outras instituições. De que outra fonte nós poderíamos tirar a matéria-prima necessária para construir uma identidade, senão da única fonte de sentido que sobreviveu ao processo de globalização?
            A flexibilização determina que o indivíduo seja agora encarregado de administrar os riscos e entrar no mercado por conta própria, como se ele mesmo fosse mais uma marca que precisa ser vendida e que precisa ser desejada num mundo de desejos desconexos e consumidores imprevisíveis. Estando dependente do acaso, a moralidade perde seu sentido. Ela só poderia fazer sentido num mundo onde fazer algo em determinada situação pode ser considerado certo ou errado. Agora, a situação é complexa demais para que possamos calcular com precisão se uma medida é correta ou não. Pode ser e pode não ser. Depende da sua rede, e sua rede pode estar mentindo ou não, você tem apenas uma estimativa, e um único erro pode ser fatal. Inevitavelmente, se quiser prosperar nessa sociedade, precisará repassar os prejuízos a outros, e concentrar para si o máximo de benefícios. Tal qual numa pirâmide de dinheiro, o truque é nunca ficar por último. O último sempre paga a conta. Mas em pirâmides de pirâmides, você pode estar no topo de uma e na base de outra ao mesmo tempo. A coisa se torna bem mais complexa, e a única garantia é já ter bastante capital inicial. Mesmo assim não é uma garantia infalível. Viver pelo risco é nunca saber o que vai acontecer no futuro. Isso é excitante quando estamos numa simulação, mas na vida real pode se tornar gradualmente estressante.

            7. Cooperando com o capitalismo
            Mesmo quando falamos de trabalho em equipe, isso não é muito diferente do ato de jogar em times. Em ambos, não se trata de coordenar relações humanas, mas relações simuladas que visam produtividade. O comprometimento de um jogador com seu parceiro é sujeito ao comprometimento de todos os jogadores com a vitória, ou fidelidade ao time. Se um dos jogadores não está certo de que jogar sequer faz sentido, se fica em dúvida de que a competição, mesmo com o resultado positivo para o time, pode ser benéfica, ele se torna um inimigo. Quando se trata de uma atividade lúdica sem consequências reais, não há grande importância, porque tudo permanece num lugar à parte, inventado temporariamente, como um sonho. Mas quando se trata da vida real, o problema é real. Quase sempre, os jogadores recalcitrantes da vida real estão inseguros quanto ao sentido da vida. O que se faz é convencer, animar e motivar o sujeito a simplesmente continuar jogando, a amar pelo menos algum aspecto do jogo, ainda que o jogo não faça muito sentido como um todo. Ao invés de diferenciar o jogo da vida real, o discurso motivacional trabalha para confundir uma coisa com a outra o máximo possível, na esperança que a emoção da aventura supere a intuição de que há alguma coisa intrinsecamente errado com este modo de vida. Este questionamento deve ser descartado como puro e simples pessimismo.
            Nas relações simuladas do trabalho e da rede social não se interage com pessoas de carne e osso, mas com perfis ou personagens. A ética do trabalho se torna menos dependente da autoridade na medida em que esta começa a comprometer o fluxo do sistema. A organização dinâmica do trabalho permite que o poder possa flutuar de mãos em mãos com rapidez, quando quer que isso possa gerar maior lucratividade. Enquanto o investimento da autoridade legítima é produto da experiência formada e herdada lenta e gradualmente, o poder que uma pessoa exerce numa rede depende meramente de uma conveniência transitória. O tempo de experiência perde seu significado, pois as situações podem variar rápido demais, e o que passa a valer é a habilidade de adaptabilidade: a facilidade de se conformar e tomar a forma do receptáculo, tal como um líquido.
            Quando exigimos reconhecimento pelo nosso trabalho estamos de certa forma exigindo que nos seja dado crédito por algo que fizemos. Mas o valor do que fazemos não está mais relacionado nem ao tempo que gastamos fazendo nem ao custo do produto que produzimos, mas somente ao valor atribuído ao produto pelo mercado que oscila por causa de variáveis primariamente subjetivas. Logo, a liberdade de consumir é também uma escravidão a um modo de produção gerido pelo risco, em que devemos matar ou morrer. De um modo extremamente insidioso, a cultura global conseguiu nos vender uma liberdade que aprisiona, fazendo cada aspecto da nossa humanidade depender cada vez mais do modo de produção. Esta dependência crescente, articulada por meio de um conjunto de dispositivos de auto-regulação, dos quais nós mesmos fazemos parte, é uma patologia transformada em norma. Uma patologia que só pode ser curada parando-se de alimentar aquilo que dá suporte à vida civilizada. A cura provavelmente exige uma escolha ainda mais drástica do que a morte, que é a escolha de abandonar um vício que se tornou mais importante do que a vida, e pelo qual nós faríamos qualquer coisa, incluindo matar e morrer.

            8. Networking compulsório
            A exigência de que o trabalhador “teça sua própria rede” e “se movimente bem nela”, ou seja, garanta sua visibilidade, é um aspecto da dependência de redes sociais. Com ou sem o suporte de máquinas, o próprio conceito de networking é dependente de uma mentalidade tecnológica, segundo a qual agentes autônomos se interligam formando um único sistema integrado. A importância de um componente deixa de estar relacionada à sua função e passa a depender do número de componentes com que este interliga. O conceito de processamento inteligente torna o sistema menos dependente de uma unidade de processamento central, e faz do processamento uma atividade emergente e distribuída, colocando o foco não sobre a capacidade de processamento seriado, mas sim a capacidade de processamento paralelo, o que por sua vez aumenta a quantidade de conflitos internos. Chamamos essa organização de “orgânica” quando ela se torna complexa o suficiente para simular o movimento errático de uma colméia, por exemplo, e ainda assim manter a ordem de uma teia de aranha.
            A substituição do conceito de “relação” pelo conceito de “link” demonstra a absorção do significado estático pelo conceito de dinamismo. Quando falamos de autonomia nos “recursos humanos”, não estamos de priorizar os fins, e não os meios. Cada vez mais, não importa como você trabalha, mas o que você faz: sua produtividade real ou aparente é o verdadeiro determinante. Os humanos são recursos que devem ser gerenciados de modo “sofisticado”, e não estável[8]. O imperativo da globalização é transferir o máximo de poder aos indivíduos, mas somente o poder de reproduzir de modo autônomo os produtos da sociedade complexa. Ela é caracterizada por contradições entre produtividade e não-produtividade, gerando autonomia dependente. É a autonomia de gerenciar a prisão, mas não de sair dela.
            Enquanto isso, a solidão é transformada em mero sentimento cada vez mais cedo na vida de um indivíduo. Ao conquistar recompensas virtuais num jogo eletrônico, a criança nem sempre se satisfaz com uma comemoração privativa. Ela sente a necessidade de socializar sua vitória com pessoas ao seu redor, e ser reconhecida por isso. Uma criança não fica sozinha diante de uma tela porque quer ficar sozinha. Ela fica porque quer, em parte, obter experiências dignas de serem compartilhadas. Elas são forçadas à solidão por causa do significado que é transmitido pelo reforço positivo dos jogos: “você é um vencedor”, embora existam obviamente outros fatores. Mas este é um fator ao qual deveríamos prestar atenção: nós escolhemos realizar atividades lúdicas que não são necessariamente atrativas em si mesmas, e que exigem um esforço equivalente ao do trabalho, mas que se tornam atrativas porque possibilitam algum reconhecimento. E o mesmo pode ser dito do trabalho: nós procuramos trabalhos que oferecem algum prazer lúdico, ou nos sujeitamos aos que possibilitam reconhecimento e poder de consumo. A distinção entre trabalho e liberdade pode estar desaparecendo numa síntese destrutiva, graças à tecnologia. Mas é uma questão de tempo até que a escravidão voluntária à tecnologia deixe de ser excitante e se torne apenas estressante.


[1] Para Huizinga e os principais teóricos que escreveram sobre as atividades lúdicas enquanto fenômenos sociais, o jogo é uma atividade separada da vida real. O espaço do jogo formaria um “círculo mágico” onde há regras distintas das regras do cotidiano e as ações não tem consequência para a vida real.
[2] ARG, Alternative Reality Game, é um tipo de encenação interativa que usa os meios de comunicação para envolver as pessoas num jogo social no estilo de uma “caça ao tesouro”. É geralmente usado como estratégia publicitária. Seus pressupostos quebram com as definições clássicas de jogo.
[3] Teóricos dos jogos dizem que o ato de trapacear também está submetido a certas regras, e que essas regras fazem parte das regras ocultas do jogo.
[4] A sensação é que uma pessoa que não tem Orkut, por exemplo, está excluída de uma parte importante da vida social brasileira.
[5] Um bom documentário em inglês sobre isso: http://www.everythingisaremix.info
[6] Um exemplo de como o discurso da autonomia é usado nas empresas: “A gestão empresarial pode ser exercida de duas maneiras: pelos meios, ensinando o profissional como fazer; e pelos fins, informando-o sobre o que deve ser feito e negociando. A diferença entre os dois modos de gerenciar aparece no desempenho da equipe. Quando o gestor foca os meios, e não os fins, cria profissionais autômatos e sem iniciativa. Por isso, ele deve assumir uma postura educativa e conscientizar cada um da importância do seu papel. Assim, formará uma equipe capaz de refletir sobre o próprio trabalho, desenvolvendo nos profissionais o espírito empreendedor. As empresas precisam de profissionais autônomos, nunca de autômatos”.http://www.intero.com.br/blogdaagilis/blog/?p=116
[7] Vamos supor que eu invés de gastar dinheiro com propaganda numa concorrência de imagens, as empresas gastassem somente com qualidade, e deixassem as pessoas se responsabilizarem em procurar e divulgar os melhores produtos. O que aconteceria? É provável que jamais saibamos, porque nenhuma empresa de publicidade vai deixar isso acontecer.  r s e deixassem as pessoas se responsabilizar em procurar a divudesinteressantes
[8] “As novas tecnologias de informação e comunicação foram também decisivas na reestruturação do mundo do trabalho e da produção, configurando o que chamamos de pós-fordismo e que se caracteriza por uma valorização maior das formas sofisticadas de capital (tecnologia, investimento e, principalmente, recursos humanos) sobre as formas estáveis (terra e matérias-primas). Resultado da automação, da robótica e da microeletrônica inseridas no processo de produção, temos as mudanças que possibilitaram a internacionalização da produção com estratégias de longo alcance (conhecidas como "flexibilização do trabalho") que repercutem diretamente no exercício da autonomia.” - Globalização e Autonomia: limites e possibilidades, Holgonsi Soares Gonçalves Siqueira.http://www.angelfire.com/sk/holgonsi/globoautonomia.html

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