A exigência de que o trabalhador “teça sua própria rede” e “se movimente bem nela”, ou seja, garanta sua visibilidade, é um aspecto da dependência de redes sociais. Com ou sem o suporte de máquinas, o próprio conceito de networking é dependente de uma mentalidade tecnológica, segundo a qual agentes autônomos se interligam formando um único sistema integrado. A importância de um componente deixa de estar relacionada à sua função e passa a depender do número de componentes com que este interliga. O conceito de processamento inteligente torna o sistema menos dependente de uma unidade de processamento central, e faz do processamento uma atividade emergente e distribuída, colocando o foco não sobre a capacidade de processamento seriado, mas sim a capacidade de processamento paralelo, o que por sua vez aumenta a quantidade de conflitos internos. Chamamos essa organização de “orgânica” quando ela se torna complexa o suficiente para simular o movimento errático de uma colméia, por exemplo, e ainda assim manter a ordem de uma teia de aranha.
A substituição do conceito de “relação” pelo conceito de “link” demonstra a absorção do significado estático pelo conceito de dinamismo. Quando falamos de autonomia nos “recursos humanos”, não estamos de priorizar os fins, e não os meios. Cada vez mais, não importa como você trabalha, mas o que você faz: sua produtividade real ou aparente é o verdadeiro determinante. Os humanos são recursos que devem ser gerenciados de modo “sofisticado”, e não estável[1]. O imperativo da globalização é transferir o máximo de poder aos indivíduos, mas somente o poder de reproduzir de modo autônomo os produtos da sociedade complexa. Ela é caracterizada por contradições entre produtividade e não-produtividade, gerando autonomia dependente. É a autonomia de gerenciar a prisão, mas não de sair dela.
Enquanto isso, a solidão é transformada em mero sentimento cada vez mais cedo na vida de um indivíduo. Ao conquistar recompensas virtuais num jogo eletrônico, a criança nem sempre se satisfaz com uma comemoração privativa. Ela sente a necessidade de socializar sua vitória com pessoas ao seu redor, e ser reconhecida por isso. Uma criança não fica sozinha diante de uma tela porque quer ficar sozinha. Ela fica porque quer, em parte, obter experiências dignas de serem compartilhadas. Elas são forçadas à solidão por causa do significado que é transmitido pelo reforço positivo dos jogos: “você é um vencedor”, embora existam obviamente outros fatores. Mas este é um fator ao qual deveríamos prestar atenção: nós escolhemos realizar atividades lúdicas que não são necessariamente atrativas em si mesmas, e que exigem um esforço equivalente ao do trabalho, mas que se tornam atrativas porque possibilitam algum reconhecimento. E o mesmo pode ser dito do trabalho: nós procuramos trabalhos que oferecem algum prazer lúdico, ou nos sujeitamos aos que possibilitam reconhecimento e poder de consumo. A distinção entre trabalho e liberdade pode estar desaparecendo numa síntese destrutiva, graças à tecnologia. Mas é uma questão de tempo até que a escravidão voluntária à tecnologia deixe de ser excitante e se torne apenas estressante.
[1] “As novas tecnologias de informação e comunicação foram também decisivas na reestruturação do mundo do trabalho e da produção, configurando o que chamamos de pós-fordismo e que se caracteriza por uma valorização maior das formas sofisticadas de capital (tecnologia, investimento e, principalmente, recursos humanos) sobre as formas estáveis (terra e matérias-primas). Resultado da automação, da robótica e da microeletrônica inseridas no processo de produção, temos as mudanças que possibilitaram a internacionalização da produção com estratégias de longo alcance (conhecidas como "flexibilização do trabalho") que repercutem diretamente no exercício da autonomia.” - Globalização e Autonomia: limites e possibilidades, Holgonsi Soares Gonçalves Siqueira. http://www.angelfire.com/sk/holgonsi/globoautonomia.html
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