terça-feira, 10 de maio de 2011

Civilização e preconceito


"A história da civilização é a história da superação dos preconceitos" - Luís Roberto Barroso, procurador do Estado, advogado no Rio de Janeiro, professor de Direito Constitucional da UERJ, mestre em Direito pela Universidade de Yale. 
http://jornal.jurid.com.br/materias/noticias/representante-rj-afirma-que-ninguem-deve-ser-diminuido-por-compartilhar-afetos-com-quem-escolher

Volta e meia nos deparamos com afirmações como essa, que expressam a crença no avanço moral da humanidade como característica da civilização. Nesta ideologia, o progresso humano é medido pelo grau de respeito à diversidade e pelo aperfeiçoamento dos mecanismos que garantem os direitos do indivíduo.

Aceitemos por um momento o conteúdo da frase de Luís Roberto Barroso. Se ela é verdadeira, significa que a civilização avança na mesma medida em que os preconceitos são superados. Isto implica em afirmar que quanto menor o grau de civilização, maior o grau de preconceito. Se o homem nasceu sem civilização, então o homem nasceu no preconceito absoluto. A luta contra o preconceito seria de certo modo a luta contra o estado primitivo do homem. Graças à sociedade industrial, nunca tantos preconceitos foram superados de modo tão rápido. Ou seja, há um inequívoco sinal de avanço moral na história humana.

O fundamento teórico dessa ideia talvez seja o conceito de civilização enquanto soma de todo progresso material e espiritual do homem, tal como defendem os herdeiros do positivismo. A civilização levaria à superação do preconceito porque enquanto ela se expande há cada vez mais cooperação e convivência entre indivíduos diferentes em espaços compartilhados e regidos por leis gerais. O império romano já havia percebido que para permitir a expansão e a coesão era preciso educar as pessoas vindas de diferentes culturas e religiões a serem tolerantes com a diversidade, aceitando o direito romano como um direito "igual para todos". Este tem sido o sentido da luta pela "igualdade" na civilização. As tradições de cada povo, expressões de um modo de vida particular, foram reduzidas a algo intercambiável, ou seja, a mercadorias culturais. Seria o pluralismo uma conquista da humanidade ou uma exigência econômica da globalização? 

Os teóricos tentam ficar neutros, afirmando que não devemos julgar o pluralismo, apenas constatar sua presença nas nossas vidas e nos adaptar a ele, porque negá-lo seria negar a realidade. Mas não há neutralidade possível num processo em andamento. Ficar passivo diante dessa constatação é posicionar-se a favor da continuação do processo.

Consideremos agora que a frase foi infeliz e que de fato a civilização tenha se livrado de muitos preconceitos durante sua história, mas ao mesmo tempo tenha gerado muitos outros. Houve realmente um avanço? Em que sentido? Até que ponto podemos dizer que culturas tradicionais são mais preconceituosas apenas porque olham com desconfiança para pessoas que se comportam de modo atípico? Isso não seria antes um resultado da capacidade de julgar e distinguir o certo do errado, que é uma capacidade em processo de extinção na civilização? É preciso compreender qual até que ponto o que é chamado de "preconceito" não se trata na verdade da condição de possibilidade para uma comunidade traditiva. Comunidade que não se expande, não compete no mercado global e não pode ser absorvida pela globalização. A crescente necessidade de ser diferente pode ter sido naturalizada pelo individualismo, mas de fato nunca foi natural. Tal processo social tem uma base teórica e histórica e pode ser criticado em seus pressupostos. 

A identificação é uma necessidade humana, mas a diferenciação parece ser uma obsessão civilizada. Uma obsessão que pode ter sido gerada pela perda dos critérios de identidade. A identidade de um indivíduo só pode ser construída no contato com um conjunto de relações sociais que tem um sentido comum. Sem referências não há identidade. O que o pós-moderno pede é justamente que tenhamos a liberdade de não nos prender a uma identidade "imposta" pelo meio, ou seja, identifique-se a partir de si mesmo. Este é o grande paradoxo: nossa identidade não vem de nós mesmos, ela vem de fora para dentro.

Depois que nos despirmos de todo preconceito, o que vai sobrar não é necessariamente tolerância. A tolerância à indefinição e à instabilidade vem acompanhada de uma grande intolerância à verdade, à definição, à estabilidade e consequentemente à corrigibilidade. Ela parece mais um "deixa estar" que visa preservar o prazer de transgredir eliminando a culpa presente no imaginário coletivo. Mas tanto na aceitação quanto na rejeição de tudo que é humano, estamos rejeitando o discernimento.

Na verdade, essa questão jurídica não se trata de preservar a dignidade da pessoa humana, mas sim de acabar com o constrangimento gerado pela quebra de uma norma herdada da tradição e que já não faz mais sentido para a consciência moderna. Realmente, "o que faz a beleza de uma democracia, de uma sociedade plural e aberta, é a possibilidade de convivência harmoniosa de pessoas que pensam de maneiras diferentes", como disse Luís Roberto Barroso. E é essa beleza que somos obrigados a admirar. A beleza de um modo de vida que poderia ser melhor classificado como "colméia de primatas". Nenhuma convicção está sendo derrubada ao se invocar tais princípios, exceto aquela de que não é a humanidade que está em harmonia, e sim a humanidade civilizada que, em harmonia relativa a si mesma, também está em completa desarmonia com o modo de vida humano primitivo, por exemplo.

Devemos comemorar os avanços nos direitos do indivíduo? Devemos realmente comemorar? É como comemorar um aumento de salário que traz consigo um aumento do trabalho. A mesma cultura que nos reprimiu é aquela que agora está nos liberando para o consumo irrestrito de todos os valores. Não questionamos essa mudança, a aceitamos e comemoramos. Nos satisfazemos com isso enquanto o navio dos tolos segue seu curso. Há uma certa esquizofrenia nessa concepção histórica que culpa o passado por atrocidades contra os indefesos, e ao mesmo tempo glorifica o avanço esquecendo-se de que o antigo já foi novo e que o preconceito também foi estabelecido por um avanço relativo a uma situação que provavelmente não poderia ser pior. A história da civilização não começa na idade média. Começa na antiguidade, quando orgias e relações sexuais das mais variadas não eram reprimidas. Nesse caso, a civilização se assemelha à indústria que cria a doença para vender o remédio.

Seguindo a filosofia do Lulu Santos, nós consideramos justa toda forma de amor, e acabamos por isso perdendo toda noção do que o amor realmente significa. Segundo esta filosofia, o futuro aponta para uma vida melhor, onde as pessoas dizem mais sim do que não, permitem a si mesmas o que elas mesmas se negaram, aparentemente sem motivo, e aproveitar a vida, porque o tempo voa. Esta é a tendência dos tempos modernos.

É preciso lembrar que o próprio conceito de civilização surgiu por causa do preconceito da Europa contra os povos que faziam fronteira, que eles chamavam de "bárbaros".

Na cultura vigente há na verdade um grande preconceito quanto a crítica à civilização. A crítica do processo civilizatório é considerado como improdutiva, uma simples "moda juvenil" sem muito sentido. Mas nenhum dos defensores da civilização conseguiu descrever corretamente o que os críticos da civilização estão dizendo. São eles que permanecem mudando o conceito de civilização para o que quer que esteja na "moda".

"Civilização é o mundo sem explorados ou exploradores, sem oprimidos ou opressores, sem fronteiras e uma só humanidade; onde o impossível não existe e onde o bem-estar de todos é o objetivo derradeiro do universo; onde a igualdade significa o direito de ser diferente sem sofrer tratamento desigual; onde liberdade significa viver como se achar melhor, sem impedir os outros de proceder como bem entenderem; onde o fim nunca é superior aos meios postos em prática para atingi-lo; onde a prática é mais importante que o discurso ou a crença; onde nenhuma causa é justa quando se alia à morte; onde cada ser humano é um fim em si mesmo; e onde o melhor dos seres é o mais solidário dos seres." - Georges Bourdoukan, jornalista e escritor.
http://blogdobourdoukan.blogspot.com/2010/03/o-que-e-civilizacao-civilizacao-e-o.html

Segundo esse conceito, a civilização de fato nunca teve lugar na história. Ela é um ideal para o futuro, que nos mantém acelerando para frente. Um mundo sem exploração, sem opressão e sem crença ainda seria um mundo humano e livre? Pense bem. Estamos falando de um mundo sem fronteiras e sem limites, onde tudo é possível, ninguém deve ser impedido de fazer o que quiser, e ainda assim não haverá exploração ou opressão. De todas as coisas que existem nesse universo, porque justamente o bem-estar humano seria o objetivo derradeiro? Estamos falando de uma sociedade que alcançou um nível de desenvolvimento em que os meios de realização superam as necessidades, ainda que essas sejam potencialmente infinitas. Esta utopia já era anunciada como realidade próxima desde da antiguidade. Estamos falando de uma visão de mundo fundada na prática, mas não pergunte do que. Na pura e simples "prática", como se tal coisa existisse. Ignore o discurso, ignore a crença e ignore o homenzinho atrás da cortina. Toda causa será justa se servir à vida. Que vida? Uma vida que é fim em si mesma. E quem não quiser ser solidário com isso, bem, pode procurar outro mundo para viver, porque este aqui já está contaminado pela "solidariedade" a esta visão civilizada de humanidade.

Os publicitários dessa cultura fizeram um bom trabalho associando o ideal da civilização com coisas que estão em falta por causa do próprio processo civilizatório. Como o amor, por exemplo. Algumas pessoas pensam que estão nadando contra a corrente quando de fato concordam com a opinião dos maiores representantes da mentalidade civilizada: "Cameron Diaz diz que mundo atual não deve basear relacionamentos em velhas tradições". As mesmas pessoas que afirmam que o casamento é uma imposição da sociedade comemoram o direito de pares do mesmo sexo de se casarem legalmente. Quais são os valores de sociedade vigente? A felicidade, a independência, a satisfação dos desejos... O que sobrou do amor? Ele virou um slogan. O amor nos conecta, então compre este aparelho ou você perderá oportunidades de amar e de se conectar, para não dizer fazer sexo. Na visão dos publicitários, amor tem tudo a ver com tecnologia 3G. Aliás, as novas tecnologias sempre tem tudo a ver com os valores civilizados.

"Civilização" é um termo que ainda dá o que pensar, e que precisa ser pensado, pois continua sendo usado para propagar ideais com grande potencial para gerar doenças no sistema de crenças.

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