Começou com os animais dos zoológicos. Por motivos ainda desconhecidos, os animais até então considerados dóceis começaram a se comportar de modo extremamente violento, atacando todos os seres humanos, inclusive seus tratadores, como se estivessem lutando pela liberdade. Animais que ficavam relativamente calmos dentro de suas jaulas começaram a ameaçar mesmo os tratadores mais experientes. Ninguém sabia a origem dessa súbita mudança comportamento. Mas se tivesse se limitado aos animais dos zoológicos, teria sido possível controlar. O pânico realmente começou quando os animais domesticados começaram a se rebelar. Nossos “melhores amigos” nos traíram, e só então percebemos o quanto eles eram perigosos. Os cães, gatos e outros animais domésticos começaram a atacar seus donos de modo inexplicável. Não subestime o perigo de um animal decidido a matar, mesmo que pequeno. Era o começo da guerra. A unidade canina da polícia, mesmo treinada desde o nascimento, começou a atacar os policiais. Os animais que alimentamos por anos não mais nos reconheciam como nada além de inimigos.
O mais estranho é que inimigos naturais se juntaram contra nós. O fenômeno era global. Da noite para o dia, os animais se tornaram insubmissos e sem medo, atacando não apenas seres humanos como tudo aquilo que construímos. Então vieram os animais selvagens. Eles invadiram as cidades como se quisessem retomar o espaço que nós conquistamos. Todos eles estavam unidos nisso, então nós também esquecemos nossas diferenças e nos unimos contra o inimigo comum. Houve caos e todos estavam em estado de alerta, gastando nossa munição contra macacos, pássaros, bois, ratos e tudo o mais. Parecia que não havia lugar seguro. Também fomos invadidos pelas doenças que eles traziam e pela fome causada pela nossa dificuldade de continuar produzindo alimentos. A natureza como um todo tinha se voltado contra nós, não havia um ser vivo no qual pudéssemos confiar, então só podíamos contar com nossa ciência e tecnologia. Nós nos cercamos disso para sobreviver. Enquanto isso, alguns de nós acusavam a civilização de ser a causadora dessa ira, e se colocavam do lado do inimigo. Mas não havia sido sempre assim?
Nós continuaremos lutando para mostrar quem é que manda, pois essa guerra sempre existiu, apenas não estava oficialmente declarada porque considerávamos os animais como seres passivos, sem interesses comuns. Foi esta guerra que nos fez conquistar poder sobre o fogo. Nenhum avanço científico e tecnológico seria possível se não fosse por esta guerra, e por isso não temos nada do que lamentar. Era uma necessidade da existência humana, um advento da evolução, destruindo de uma vez por todas as ilusões daqueles que diziam que deveríamos nos integrar à natureza, que somos iguais a todos os outros animais. O sentido da vida humana é dominar a natureza, e isso se tornou claro quando mesmo aqueles que diziam amar a natureza se juntaram a nós para bombardear as hordas de animais que ameaçavam as suas casas e a vida de seus filhos.
A única coisa que eu me pergunto é porque os animais permaneceram quietos por tanto tempo, se agora ficou tão claro que eles nos consideram como invasores. Eles permaneceram relativamente pacíficos, confirmando nossa superioridade sobre eles. Por que se recusaram a lutar, se esta era sua única chance de sobreviver? Será que um dia entenderemos o que os fazia serem resignados, se no fundo nos odeiam? O que estavam esperando? Que mudássemos? Que desistíssemos do nosso modo de vida? Eu não sei, mas quem quer que esteja do lado deles é um inimigo. Aqui é o General Grief, líder do exército de libertação humana.
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Notas sobre o conto:
O trabalho humano tem sido considerado a fonte de onde onde os homens tiram seu sustento. Nossa relação com a natureza é quase sempre instrumental. Não percebemos o quanto dependemos do "trabalho" da natureza para viver, nos o tomamos por dado. Nós achamos que podemos gerar e gerir nossos próprios meios de produção, esquecendo que se trata da vida de outros seres. E se a "paciência" da natureza tivesse um limite? Por mais estranho que isso pareça, é o que de algum modo tememos quando falamos das catástrofes ambientais. Segundo a Cruz Vermelha, mais de 30 milhões de pessoas foram atingidas por catástrofes naturais ano passado. A sensação de alguns é que a natureza quer nos expelir como a um corpo estranho. Alguns até mesmo defendem que de fato os seres humanos são alienígenas nesse planeta. Toda essa conversa só faz sentido do ponto de vista civilizado. As crenças que sustentam o progresso da civilização também sustentam nosso medo e nossa obsessão pela natureza. Grief representa o humanismo. Ele não acredita que os homens estão limitados pelas mesmas leis que os animais, e por isso o conflito. Ele parte do conceito moderno de ciência como dominação das forças naturais para uso racional humano.
4 comentários:
Interessante. É um conto sobre um futuro fantástico, mas também outra versão da mitologia de origem da civilização, tida como real...
Abraço forte,
Felipe
Isso mesmo.
Olá Janos,
Esse conto, como disse o Janos, expressa bem com palavras o medo da "revolta da natureza" muito bem propagada pelos filmes hollywoodianos. Esse medo é bem presente no pensamento popular, pelo menos até onde posso ter referências. A cada terremoto, enchente, epidemia viral, etc, as pessoas se mostram em pânico e, irônicamente, placidamente imóveis frente a esse medo.
Falar que "estamos destruindo o mundo e ele pode se vingar a qualquer momento" já se tornou um chavão popular tão descarregado de significado que se torna até "brega". É como se esse tipo de questão - de urgência maior e intimamente ligada à todos os problemas dos quais somos vítimas -
já pudesse ser consumida, digerida e evacuada da mesma forma que fazemos com os filmes de catástrofes naturais apocalípticas.
Me parece que a mesma fórmula que usamos para consumir entretenimento: entrar num cinema, assistir um filme, se emocionar e depois esquecer tudo aquilo antes do fim do dia; também usamos para pensar e entender questões como essa.
Me pergunto então: como esperar por sentimento de responsabilidade e pertencimento à natureza, num mundo onde não somos responsáveis nem pelo que comemos e que vende a natureza como qualquer produto plástico artificial passível ao consumo indiscriminado?
Nem me arrisco a responder...
Abraço
Carlos,
Sua pergunta já indica algumas coisas: Como ser responsável por algo tão grande se não conseguimos ser responsáveis nem por nós mesmos, por nossas crianças e pelas pessoas que amamos? Não pertencemos nem mesmo a um grupo familiar ou local, como poderemos nos ver pertencendo ao grande e complexo ecossistema planetário?
Acho que a resposta é que devemos nos preocupar menos com o sentido atualmente dado às palavras "responsabilidade" e "pertencimento" em relação à natureza, e pensar mais no entorno, na vida que vive em volta de nós. Então, não será por falta de um sentimento, mas de manter os olhos abertos.
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