Até hoje nós temos discutido o preço do futuro em termos de como pagar menos por mais. Quando é que vamos começar a nos perguntar se esse tão aguardado futuro vale a pena, não pelo preço, mas por si mesmo? O problema pode não estar no preço, mas no produto em si (o progresso) e no desejo de consumir esse produto (a cobiça).
Quino acertou em cheio: estamos construindo a destruição do futuro. Todos nós estamos colaborando com esse projeto insano. Não importa se isso ocorre de modo tecnológico ou humanitário ou violento ou capitalista ou ecológico ou qualquer outra coisa. O nosso erro não está no modo com que caminhamos para o ideal civilizatório, mas na direção para qual estamos caminhando. Seria melhor dizer na falta de direção. Estamos completamente perdidos, desorientados, fugindo de nós mesmos e confiando em milagres da engenharia (genética ou social ou civil mesmo) para nos salvar.
E no fundo não somos nós que estamos pagando. O preço que pagamos é uma consequência da destruição que provocamos. É a vida que paga, e nós a roubamos. Nós sofremos porque ainda fazemos parte dela. Nós reclamamos da fumaça enquanto tentamos inventar formas menos poluentes de destruir a vida, o sentido da vida, o sentido da vida humana, em troca de um sonho imaturo: um futuro mais civilizado, cada vez mais civilizado. Quando é que será suficiente?
Você quer falar sobre a verdade? Comece parando de mentir, parando de fazer parte dessa mentira. Esta mentira da qual dependemos e pela qual aguardamos ansiosamente, para poder continuar na nossa zona de conforto ou caminhar em direção a um ideal humanista qualquer. A civilização é o reino da mentira. Você mente para si mesmo quando repete que não há nada de errado em fazer o mesmo que todo mundo faz, em reproduzir a sociedade na qual você nasceu e que te deu acesso a tantas coisas desejáveis e agradáveis, das quais já não conseguimos viver sem. Que não há nada de errado em continuar construindo a destruição do futuro, colaborando com o progresso, porque é o que todo mundo faz, e porque você não pode mudar nada sozinho, porque é um processo inexorável. Enfim, quando você diz que também está preocupado, quando diz que realmente faz sentido tudo isso que estou dizendo, mas que, afinal, você tem que viver, tem que acumular, tem que encher seus celeiros, e temos que entender isso. Não tem problema em você pensar assim, contanto que admita que é uma grande mentira.
E no dia em que desejar sinceramente pela verdade, é só dizer.
2 comentários:
Existe mesmo uma saída? Não seria a civilização uma escolha que uma vez tomada só acaba quando ela se auto aniquilar? É evidente que existem outros caminhos, mas a pergunta é, eles serão utilizados? E se forem, será a tempo?
Olá Helio,
As respostas a essas perguntas não devem ser feitas sem uma consideração mais profunda. Se existem outros caminhos, então existe uma saída, a questão é se queremos sair, se há viabilidade para esse "querer" se tornar "global". Muito provavelmente não. Mas isso não significa que não há esperança. A civilização é uma escolha diária, não é somente algo feito muito tempo atrás, que repercute até hoje. O processo é inexorável enquanto a estrutura que o mantém não for tocada. Não podemos esperar que o processo chegue ao fim sozinho, porque ele é feito de ações humanas. Neste ponto, concordo com Howard Zinn: "Não há como ficar neutro num trem em movimento".
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