terça-feira, 21 de junho de 2011

Grand Rapids Lip Dub

            Em janeiro de 2011, a Newsweek publicou uma matéria chamada “America’s dying cities” (As cidades moribundas da América), em que listava as 10 cidades com menor taxa de crescimento populacional nos Estados Unidos. A cidade de Grand Rapids, Michigan, estava na lista. Em março, o produtor de eventos Rob Bliss começou a organizar uma resposta a isso. Seu plano era criar um vídeo viral para promover a cidade de Grand Rapids. O vídeo ficou pronto em maio, e se trata de um recorde mundial em “dublagem”. É um vídeo que contou com a participação e o financiamento da população, e custou cerca de 40 mil dólares. É uma dublagem do clássico “American Pie” de Don McLean, com quase 10 minutos de filmagem direta.

            O vídeo está fazendo muito sucesso, pois conseguiu mais de 3 milhões de acessos em menos de 20 dias. A descrição do vídeo diz que esta é uma resposta oficial ao artigo da Newsweek. A reação das pessoas ao redor do mundo, inclusive no Brasil, foi bastante favorável, pelo que se pode notar nos comentários do vídeo. Porém, não houve uma boa recepção aos comentário que eu fiz sobre os fatores econômicos e políticos por trás do vídeo. Um dos participantes do projeto me chamou de “amargo” e “sem coração”. O fato é que o artigo da Newsweek está apenas apresentando o resultado de uma análise de dados do censo americano no período de 2000 a 2009. Esta análise aponta as cidades cuja população está diminuindo mais rápido, e Grand Rapids aparece em décimo lugar, com uma taxa de -2.1%. Mas o que provavelmente provocou a reação não foi o fato de que esta cidade foi chamada de moribunda, mas sim que o artigo interpreta esses dados populacionais como um sinal de queda na economia. Segundo o artigo, Grand Rapids estaria enfrentando altas taxas de desemprego e de despejos, graças ao colapso da indústria automobilística. É natural pensar que o principal fator por trás do interesse de promover a imagem de Grand Rapids, que em 2010 foi considerada a cidade mais sustentável dos EUA, provavelmente está relacionado com o projeto de revitalização econômica planejado pelos políticos locais.

            A verdade é que o vídeo colocou a cidade no foco das notícias, o que poderá atrair visitantes e quem sabe empresários interessados em estabelecer negócios ou investimentos na cidade. É com base nisso que eu gostaria de fazer comentários mais provocativos. O lado bom do vídeo já está bastante comentado. Eu gostaria de usá-lo como um exemplo como o capitalismo age como um necromante que faz os mortos dançarem. O vídeo não foi feito para afirmar que a cidade está viva. Afinal, ela ainda é a segunda maior cidade de Michigan, só perdendo para Detroit. A questão é a dominação exercida pela sociedade do espetáculo por meio de um discurso que é facilmente aceito tanto pela comunidade local quanto pela global.

            Porque deveríamos “comprar coisas legais” (buy cool stuff) para ajudar essa cidade a voltar para a área luminosa do capitalismo? De certo ponto de vista, a melhor coisa que pode acontecer com uma cidade é morrer. Uma cidade morta para o capitalismo poderia ser o começo de uma comunidade livre. Porque os negócios locais investiram na imagem da cidade? Certamente não é por causa de algum orgulho local. Há interesses comerciais envolvidos.

            O disfarce de “comunidade ativa” é perfeito para atrair a atenção. A dominação ideológica não permite que a maioria das pessoas perceba que este tipo de evento é mais político do que se imagina. O projeto é uma oportunidade para “fortalecer a economia local”? Bem, ele funciona como uma propaganda. Muitas pessoas declararam nos comentários que o vídeo os fez querer visitar a cidade. Isto parece se encaixar perfeitamente no conceito de subpolítica usado por Ulrich Beck, por exemplo.

            Além do mais, não há nada de errado em viver numa cidade que não cresce. Goiânia está crescendo e está cada dia pior. O problema é que os pobres são sacrificados quando não há crescimento econômico. É realmente um mundo invertido. Uma agenda política local se torna atração global. Uma cidade que foi explorada e então abandonada pela indústria automobilística agora implora para poder voltar para o jogo, e nós tratamos isso como entretenimento. Mas este jogo não tem vencedores, e é triste ver pessoas dançando e cantando por esse motivo. 

7 comentários:

Felipe Carvalho disse...

Realmente, muito triste. Eles parecem desesperados em perder o título de cidade "mais" sustentável. Se é que uma cidade pode ser sustentável, o que duvido.

Procurei a discussão no Youtube, mas não consegui encontrar sua postagem inicial. O resto ainda pude ler...

Abraço!

Janos disse...

Pois é. O conceito de "cidade sustentável" significa uma cidade capaz de crescer e se desenvolver com uma alta taxa de eficiência na extração de recursos, na produção, no consumo, na infraestrutura e serviços, e no descarte de resíduos. Deste ponto de vista, é completamente possível. Não quer dizer nada para o meio-ambiente em si, mas significa muito em termos econômicos, especialmente em relação à indústria de "alternativas verdes".

Coletiva-mente disse...

As vezes me pergunto se todas essas estatísticas que o governo distribui não são algum tipo de mecanismo para pressionar os estados a se enquadrarem nas estimativas de crescimento da União.

TailsApnea disse...

Do youtube...

"This is my town. If only people could cooperate like this on important matters."

Me lembra a copa chegando por aque...

Janos disse...

TailsApnea,

Muito bem lembrado. É exatamente o que acontece na Copa: vamos colocar a cidade no mapa. Que mapa? O mapa do capitalismo, é claro.

Cristina disse...

Adoro seu blog! Parabéns!

Janos Biro disse...

Cristina,

Obrigado, e boa sorte com os seus blogs também. Entendo que eles têm sido uma espécie de terapia para você. Se quiser conversar sobre isso, me mande e-mail.

Abraços

Janos