segunda-feira, 20 de junho de 2011

A paradoxalização moderna

            Um texto chamado “O paradoxo de nossa era”, escrito nos anos noventa, circulou o mundo por meio da internet, e até hoje é repassado por meio de detestáveis correntes de mensagens “profundas” e “tocantes”. Sua atratividade provavelmente se deve ao fato de que resume em termos simples aquilo que mais incomoda a maioria das pessoas com acesso à internet, criticando os “valores da modernidade” e ao mesmo tempo servindo de catarse. O mais irônico é que o texto foi atribuído a George Carlin, famoso comediante ateu estadunidense, quando de fato o autor é Bob Moorehead, ex-pastor de uma igreja cristã estadunidense, que por sua vez é acusado de ter copiado as frases principais de um poema do 14º Dalai Lama. Eis o texto original, traduzido:

“Nós temos prédios mais altos, mas o temperamento mais curto; rodovias mais largas, mas pontos de vista mais estreitos; nós gastamos mais, mas temos menos; nós compramos mais, mas aproveitamos menos as coisas; nós temos casas maiores e famílias menores; mais conveniências, mas menos tempo; nós temos mais diplomas, mas menos bom-senso; mais conhecimento, mas menos juízo; mais especialistas, mas ainda mais problemas; mais engenhocas, mas menos satisfação; mais remédios, mas menos bem-estar; nós tomamos mais vitaminas, mas vemos menos resultados. Nós bebemos demais; fumamos demais; gastamos inconseqüentemente; rimos muito pouco; dirigimos rápido demais; ficamos bravos rápido demais; ficamos acordados até tarde; acordamos muito cansados; lemos raramente; assistimos muita televisão e oramos muito raramente.

Nós multiplicamos nossas posses, mas reduzimos nossos valores; nós voamos em aviões mais rápidos para chegarmos lá mais rápido, para fazermos menos e voltarmos mais cedo; nós assinamos mais contratos só para percebermos menos lucros; nós falamos demais; amamos muito raramente e mentimos demais. Nós aprendemos a sobreviver, mas não a viver; nós acrescentamos anos às nossas vidas, mas não vida aos nossos anos. Nós já chegamos até a Lua e voltamos, mas temos dificuldades em atravessarmos a rua e conhecer o novo vizinho. Nós conquistamos o espaço sideral, mas não o espaço interno; nós fizemos coisas maiores, mas não coisas melhores; nós limpamos o ar, mas poluímos a alma; nós fissionamos o átomo, mas não nosso preconceito; nós escrevemos mais, mas aprendemos menos; planejamos mais, mas conquistamos menos; fazemos aviões mais rápidos, mas filas mais longas; aprendemos a correr, mas não a esperar; temos mais armas, mas menos paz; salários mais altos, mas menos moralidade; mais festas, mas menos diversão; mais comida, mas menos contentamento; mais conhecidos, mas menos amigos; mais esforço, mas menos sucesso. Nós montamos mais computadores para armazenarmos mais informação, para produzirmos mais cópias do que nunca, mas nos comunicamos menos; dirigimos carros menores que tem problemas maiores; construímos fábricas maiores que produzem menos. Nós nos tornamos grandes em quantidade, mas pequenos em qualidade.

Estes são os tempos de comidas rápidas e digestão lenta; homens altos, mas de pouco caráter; lucros profundos, mas relacionamentos superficiais. Estes são os tempos de paz mundial, mas guerra doméstica; mais lazer e menos diversão; mais postagem, mas correio mais lento; mais tipos de comida, mas menos nutrição. Estes são os dias de dois salários, mas mais divórcios; estes são os tempos de casas mais chiques, mas lares despedaçados. Estes são os dias de viagens rápidas, fraldas descartáveis, vidas padronizadas, morais para se jogar fora, encontros de uma noite, corpos obesos e pílulas que fazem tudo, desde animar, prevenir, aquietar ou matar. É um tempo em que há muito na vitrine e nada no estoque. Realmente, estes são os tempos.”

            Se você prestar atenção, vai perceber que o texto é apenas uma lamentação pelo fato de que a modernidade não cumpriu suas promessas, mas em nenhum momento a “nossa era” é realmente criticada. O autor passa a ideia de que o problema é que temos todos esses benefícios por um lado, e por outro lado as coisas não ficaram melhores. E ele chama isso de paradoxo, como se os benefícios citados devessem necessariamente levar ao “progresso” em todos os aspectos da vida humana, mas surpreendentemente não levam. Surpreendentemente? Qual seria a relação correta? Gastar menos e ter mais? Isso seria algo mais próximo de um paradoxo moderno. Ou ele quis dizer que deveríamos ter mais benefícios e menos prejuízos? Ora, mas que tipo de constatação é essa?

            Não quero ser duro demais, mas sinceramente a mensagem não tocou meu coração. Eu reconheço que ela apela aos sentimentos, mas não expressa nada de relevante. Para piorar, esta inspiradora coleção de clichês foi escrita por um pregador acusado de molestar 17 homens na sua igreja. Sim, Dr. Bob Moorehead, autor de vários livros cheios de mensagens como essa, foi acusado de molestar sexualmente vários homens, e ainda assim pregou contra a perda dos valores morais. Os casos de assédio sexual foram comprovados por uma investigação feita pelos próprios líderes da igreja. Eles estavam acreditando totalmente na inocência de um dos seus maiores pregadores, mas foram obrigados a mudar de opinião diante das evidências, e do fato de que o próprio pastor decidiu abandonar o cargo sem dar explicações.

            Este é um exemplo de como coisas aparentemente simples podem ficar tão complicadas e confusas graças ao efeito do “nosso tempo”. Temos a mensagem de um pastor hipócrita atribuída a um ateu, e não conseguimos discernir o que é do que não é. Não sabemos se ele é realmente culpado do que foi acusado, ou se o texto foi de fato baseado na poesia do Dalai Lama. Só há uma grande confusão de fatos e de sentimentos. Esta sim é a característica central da nossa era. Apesar de toda essa iluminação sobre a degradação humana, não conseguimos ser mais do que “homens do nosso tempo”. Esta é a estranha lição de “O paradoxo de nossa era”.

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