terça-feira, 12 de julho de 2011

Para a América viver, a Europa deve morrer!

[Observação importante: Eu compreendo que o autor desse texto é uma figura extremamente controversa, que aparentemente não viveu como ele mesmo pregou e se filiou à ideologia que dizia combater. Minha intenção ao publicar este texto não é defender os ideais deste autor, principalmente os ideais políticos, mas disponibilizar uma melhor tradução, devido à sua possível relevância para a discussão sobre uma crítica à civilização no contexto da colonização americana. O texto foi traduzido do original em inglês (Disponível em russellmeans.com), pois a única tradução para português que eu encontrei estava incompleta e havia adições e alterações significativas no texto.]

O seguinte discurso foi feito por Russell Means, em julho de 1980, para o Black Hills International Survival Gathering, em South Dakota, EUA.

Para a América viver, a Europa deve morrer!

A única abertura possível para uma afirmação deste tipo é que eu detesto escrever. O processo em si resume o conceito europeu de pensamento "legítimo": o que está escrito tem uma importância que é negada ao falado. Minha cultura, a cultura Lakota, tem uma tradição oral, assim que eu normalmente rejeito escrever. É uma das maneiras que o mundo dos brancos tem de destruir as culturas dos povos não-europeus: a imposição de uma abstração sobre a relação falada de um povo.

Então o que você lê aqui não é o que eu escrevi. É o que eu disse e outra pessoa escreveu. Eu vou permitir isso, porque parece que a única maneira de se comunicar com o mundo branco é através das folhas secas e mortas de um livro. Eu realmente não me importo se as minhas palavras atingem os brancos ou não. Eles já demonstraram através de sua história que não podem ouvir, não podem ver, eles podem apenas ler (claro, há exceções, mas as exceções apenas confirmam a regra). Estou mais preocupado com os povos indígenas americanos, estudantes e outros, que começaram a ser absorvidos pelo mundo dos brancos através das universidades e outras instituições. Mas mesmo assim é um tipo de preocupação marginal. É muito possível crescer num rosto vermelho com uma mente branca, e se isso é a escolha individual de uma pessoa, que assim seja, mas não tenho nenhum uso para eles. Isso faz parte do processo de genocídio cultural sendo travado pelos europeus contra os povos indígenas americanos hoje. Minha preocupação é com os índios americanos que escolhem resistir a este genocídio, mas que podem estar confusos a respeito de como proceder.

Você percebe que eu uso o termo “indígena americano” ao invés de povos “americanos nativos” ou “indígenas nativos” ou “ameríndios” quando me refiro ao meu povo. Tem havido alguma controvérsia sobre tais termos, e francamente, sobre isso, acho que é um absurdo. Primeiramente, parece que “indígena americano” está sendo rejeitado como se fosse de origem européia, o que é verdade. Mas todos os termos acima são de origem européia, e o único modo não-europeu é falar dos Lakota ou, mais precisamente, dos Oglala, Brule, Dineh, Miccousukee e todo o resto das várias centenas de nomes tribais corretos.

Há também uma confusão sobre a palavra “índio”, uma crença equivocada de que ela se refere de alguma forma ao país, Índia. Quando Colombo chegou à praia no Caribe, ele não estava procurando por um país chamado Índia. Os europeus estavam chamando esse país de Hindustan (terra dos hindus) em 1492. Procure nos mapas antigos. Colombo chamou os povos tribais que ele conheceu de "índio", do italiano “in Dio”, que significa "em Deus".

Não tornar-se europeizado requer grande esforço da parte de cada indígena americano. A energia necessária a este esforço só pode vir dos meios tradicionais, dos valores tradicionais que os nossos anciãos conservam. Ela deve vir do hoop (círculo sagrado que ressoa vida), das quatro direções, das relações. Não pode nunca vir das páginas de um livro ou de mil livros. Nenhum europeu pode ensinar um Lakota a ser Lakota, um Hopi a ser Hopi. O título de mestre em "Estudos Indígenas" ou em "Educação" ou qualquer outra coisa não faz de uma pessoa um ser humano nem fornece conhecimento sobre os caminhos tradicionais. Faz de você apenas uma mente européia, um forasteiro.

Eu preciso ser claro sobre algo aqui, pois parece haver certa confusão a este respeito. Quando falo de europeus ou mentes européias, não estou permitindo falsas distinções. Não estou dizendo que, por um lado, existe o subproduto de alguns milhares de anos de desenvolvimento europeu genocida e reacionário que é ruim, e por outro lado um novo desenvolvimento intelectual e revolucionário que é bom. Eu me refiro aqui às teorias denominadas de Marxismo, anarquismo e "esquerdismo" em geral. Não acredito que estas teorias possam ser separadas do resto da tradição intelectual européia. É na verdade tudo a mesma velha canção.

O processo começou muito antes. Newton, por exemplo, "revolucionou" a física e as chamadas ciências naturais ao reduzir o universo físico a uma equação matemática linear. Descartes fez a mesma coisa com a cultura. John Locke fez isso com a política, e Adam Smith fez isso com a economia. Cada um destes "pensadores" tomou um pedaço da espiritualidade da existência humana e converteu-a em código, numa abstração. Eles continuaram de onde o cristianismo parou: eles "secularizaram" a religião cristã, como os "estudiosos" gostam de dizer, e ao fazer isso eles tornaram a Europa mais capaz e pronta para agir como uma cultura expansionista. Cada uma dessas revoluções intelectuais serviu para tornar a mentalidade européia ainda mais abstrata, para remover a maravilhosa complexidade e espiritualidade do universo e substituí-las com uma seqüência lógica: um, dois, três. Resposta!

É isto que se chamou de "eficiência" na mente européia. Tudo o que é mecânico é perfeito. Tudo o que parece funcionar no momento, isto é, prova que o modelo mecânico é o correto, é considerado correto, mesmo quando é claramente falso. É por causa disto que a "verdade" muda tão rapidamente na mente européia. As respostas que resultam deste processo são meros tapa-buracos, temporários, que precisam ser continuamente descartados em favor de novos tapa-buracos que suportem os modelos matemáticos e os mantenham (os modelos) vivos.

Hegel e Marx são os herdeiros do pensamento de Newton, Descartes, Locke e Smith. Hegel terminou o processo de secularizar a teologia, e isso é afirmando em seus próprios termos. Ele secularizou o pensamento religioso através do qual a Europa compreendia o Universo. Depois, Marx colocou a teoria de Hegel em termos "materialistas", o que quer dizer que Marx desespiritualizou a obra de Hegel completamente. Novamente, isso é afirmado nos próprios termos de Marx. E isso é agora visto como o futuro potencial revolucionário da Europa. Os europeus podem ver isso como revolucionário, mas os índios americanos vêem isso apenas como mais do mesmo velho conflito europeu entre ser e ganhar. As raízes intelectuais de uma nova forma marxista de imperialismo europeu estão nas conexões entre Marx, e seus seguidores, e a tradição de Newton, Hegel e de outros.

Ser é uma proposição espiritual. Ganhar é um ato material. Tradicionalmente, os índios americanos sempre tentaram ser as melhores pessoas que podiam ser. Parte deste processo espiritual foi e ainda é doar a riqueza, descartar riqueza a fim de não ganhar. O ganho material é um indicador de falso status entre os povos tradicionais, enquanto é "prova de que o sistema funciona" para os europeus. Claramente, existem duas visões completamente opostas em questão aqui, e o marxismo está muito longe para o outro lado da visão indígena americana. Mas vamos olhar para uma importante implicação disto. Isso não é meramente um debate intelectual.

A tradição européia materialista de desespiritualizar o universo é muito similar ao processo mental de desumanização de outra pessoa. E quem parece ser o maior perito em desumanizar outras pessoas? E por quê? Soldados que viram muitos combates aprendem a fazer isso com o inimigo antes de voltar ao combate. Assassinos fazem isso antes de sair para cometer assassinato. Guardas nazistas da SS faziam isso aos internos nos campos de concentração. Policiais fazem isso. Líderes empresariais fazem isso aos operários que mandam para as minas de urânio e as usinas de aço. Políticos fazem isso com todos que estão à vista. E o que o processo tem um comum para cada grupo fazendo a desumanização é isso torna aceitável matar e destruir outras pessoas. Um dos mandamentos cristãos diz "não matarás", pelo menos não seres humanos, então o truque consiste é converter mentalmente as vítimas em seres não-humanos. Então você pode proclamar a violação do seu próprio mandamento como uma virtude.

Em termos da desespiritualização do universo o processo mental funciona de modo que se torna virtuoso destruir o planeta. Termos tais como progresso e desenvolvimento são usados para disfarçar as palavras aqui, do mesmo modo como vitória e liberdade justificam a carnificina no processo de desumanização. Por exemplo, um especulador imobiliário pode falar em "desenvolver" um pedaço de chão abrindo uma pedreira de cascalho. Desenvolvimento aqui significa a destruição total e permanente, com própria terra removida. Mas a lógica européia ganhou algumas toneladas de cascalho com as quais mais terreno poderá ser "desenvolvido" pela construção de leitos de estradas. Em última análise, o universo inteiro está aberto, na visão européia, a esta forma de insanidade.

Mais importante aqui, talvez, é o fato de que os europeus não sentem nenhum sentimento de perda em tudo isso. Afinal, seus filósofos têm desespiritualizado a realidade, portanto, não há satisfação (para eles) a ser obtida em simplesmente observar a maravilha de uma montanha ou de um lago ou de um povo em ser. Não, a satisfação é medida em termos de obtenção de material. Então a montanha se torna cascalho, e o lago se torna escoadouro para uma fábrica, e as pessoas são arredondadas por processamento através das fábricas doutrinadoras que os europeus gostam de chamar de escolas.

Mas cada pedaço novo desse “progresso” eleva a aposta no mundo real. Tome o combustível das máquinas industriais como exemplo. Pouco mais do que dois séculos atrás, quase todo o mundo usava a madeira, um item natural e renovável, como combustível para as necessidades humanas de cozinhar e manter-se aquecido. Veio a Revolução Industrial e o carvão tornou-se o combustível dominante, enquanto a produção tornou-se o imperativo social para a Europa. A poluição começou a virar um problema nas cidades, e a terra foi rasgada para fornecer carvão, enquanto a madeira era apenas coletada ou colhida sem grandes prejuízos ao meio ambiente. Mais tarde, o petróleo se tornou o combustível principal, enquanto a tecnologia da produção era aperfeiçoada por meio de uma série de "revoluções" científicas. A poluição aumentou dramaticamente, e ninguém até agora sabe quais serão os custos ambientais futuros de bombear todo aquele petróleo da terra. Há uma "crise energética" e o urânio vai se tornando o combustível dominante.

Capitalistas, pelo menos, podem servir de base para desenvolver urânio como combustível apenas na medida em possa mostrar um bom lucro. Esta é a ética deles, e talvez eles comprem algum tempo. Marxistas, por outro lado, podem servir para desenvolver combustível de urânio o mais rápido possível, porque é o combustível de produção "eficiente" à disposição. Esta é a ética deles, e não vejo porque seria preferível. Como eu disse, o marxismo está enfiado no meio da tradição européia. É a mesma velha canção.

Há uma regra prática que pode ser aplicada aqui. Você não pode julgar a verdadeira natureza de uma doutrina revolucionária européia com base nas mudanças que ela propõe fazer na estrutura de poder e na sociedade da européia. Você só pode julgá-la pelos efeitos que terá sobre os povos não-europeus. Isto porque cada revolução na história européia serviu para reforçar as tendências e aptidões da Europa em exportar destruição para outros povos, culturas e o próprio meio ambiente. Eu desafio qualquer um a me apontar um exemplo onde isto não seja verdade.

Pois agora nós, povos indígenas americanos, somos convidados a acreditar que uma "nova" doutrina revolucionária européia tal como o marxismo irá inverter os efeitos negativos da história européia sobre nós. As relações de poder européias devem ser ajustadas novamente, e isso supostamente será melhor para todos nós. Mas o que isto realmente significa?

Agora mesmo, hoje, nós que vivemos na reserva de Pine Ridge, estamos vivendo no que a sociedade dos brancos designou como "Área de Sacrifício Nacional". O que isto significa é que nós temos muitos depósitos de urânio aqui, e a cultura branca (não nós) precisa deste urânio como material para produção de energia. O mais barato, mais eficiente meio para a indústria extrair e lidar com o processamento desse urânio é jogando os subprodutos residuais aqui mesmo nos campos de escavação. Aqui mesmo onde nós moramos. Este lixo é radioativo e deixará toda esta região inabitável para sempre. Isto é considerado pela indústria e pela a sociedade branca que criou essa indústria, um preço aceitável a pagar pelo desenvolvimento dos recursos energéticos. No caminho, eles também planejam drenar o lençol freático sob esta parte da Dakota do Sul como parte do processo industrial, para que a região se torne duplamente inabitável. O mesmo tipo de coisa está acontecendo da terra dos Navajo e dos Hopi, até a terra dos Cheyenne do norte e dos Crow, e em outros lugares. Trinta por cento do carvão no Ocidente e metade dos depósitos de urânio nos Estados Unidos, são encontrados debaixo da terra de reservas, então não há como isso ser chamado de uma questão menor.

Nós estamos resistindo em sermos transformados numa Área de Sacrifício Nacional. Nós estamos resistindo em sermos transformados num povo de sacrifício nacional! Os custos deste processo industrial não são aceitáveis para nós. É genocídio cavar urânio aqui e drenar o lençol freático, nem mais, nem menos.

Agora vamos supor que em nossa resistência ao extermínio nós comecemos a buscar aliados (o que temos feito). Vamos supor ainda que aceitemos o marxismo revolucionário à risca: que ele pretende nada menos do que a derrubada completa da ordem capitalista européia que apresentou esta ameaça à nossa própria existência. Esta pareceria ser uma aliança natural para os indígenas americanos. Afinal, como dizem os marxistas, são os capitalistas que nos colocaram para ser um sacrifício nacional. Isto é verdade até certo ponto.

Mas, como eu tentei salientar, esta "verdade" é muito enganadora. O Marxismo revolucionário é comprometido com a perpetuação e aperfeiçoamento do próprio processo industrial, que está destruindo a todos nós. Ele se oferece apenas para "redistribuir" os resultados, o dinheiro talvez, dessa industrialização para uma parcela mais ampla da população. Ele se oferece para pegar a riqueza dos capitalistas e passá-la para frente, mas para fazê-lo, o marxismo deve manter o sistema industrial. Mais uma vez, as relações de poder dentro da sociedade européia terão de ser alteradas, mas novamente os efeitos sobre os povos indígenas americanos, aqui e em outros lugares não-europeus, permanecerão os mesmos. Isso é o mesmo que aconteceu quando o poder foi redistribuído da igreja para empresas privadas durante a chamada revolução burguesa. A sociedade européia mudou um pouco, pelo menos superficialmente, mas a sua conduta para com os não-europeus continuou como antes. Você pode ver o que a Revolução Americana de 1776 fez para os índios americanos. É a mesma velha canção.

O Marxismo revolucionário, como a sociedade industrial em outras formas, procura "racionalizar" todas as pessoas em relação à indústria. Máxima industrialização, máxima produção. É uma doutrina que despreza a tradição espiritual indígena americana, nossas culturas, nossos modos de vida. O próprio Marx nos chamou "pré-capitalistas" e "primitivos". Pré-capitalista significa simplesmente que, em sua opinião, acabaríamos eventualmente descobrindo o capitalismo e nos tornando capitalistas. Nós sempre fomos economicamente atrasados em termos marxistas. A única maneira em que indígenas americanos poderiam participar de uma revolução marxista seria aderir ao sistema industrial, para tornar-se trabalhadores de fábricas, ou “proletários”, como Marx os chamou. Ele foi muito claro sobre o fato de que sua revolução só poderia ocorrer através da luta do proletariado, que a existência de um imenso sistema industrial é a pré-condição de uma sociedade Marxista bem sucedida.

Eu acho que há um problema com a linguagem aqui. Cristãos, capitalistas, Marxistas. Todos eles têm sido revolucionários em suas próprias mentes, mas nenhum deles realmente significa revolução. O que eles realmente significam é continuação. Eles fazem o que fazem para que a cultura européia possa continuar a existir e se desenvolver de acordo com suas necessidades.

Então, para que nós realmente unamos forças com o marxismo, nós índios americanos teríamos que aceitar o sacrifício nacional de nossa terra natal; teríamos que cometer suicídio cultural e nos tornar industrializados e europeizados.

Neste ponto, eu tenho que parar e me perguntar se eu estou sendo muito duro. O Marxismo tem alguma história. Será que esta história confirma minhas observações? Eu olho para o processo de industrialização na União Soviética a partir de 1920 e vejo que esses marxistas fizeram o que a Revolução Industrial inglesa levou 300 anos para fazer; e os Marxistas fizeram em 60 anos. Eu vejo que o território da URSS costumava a abrigar certo número de povos tribais e que eles foram esmagados para abrir caminho para as fábricas. Os soviéticos se referem a isso como a "Questão Nacional." A questão de se os povos tribais tinham o direito de existir como povos; e eles decidiram que os povos tribais eram um sacrifício aceitável para as necessidades industriais. Eu olho para a China e vejo a mesma coisa. Eu olho para o Vietnã e vejo Marxistas impondo uma ordem industrial e arrancando o povo das tribos indígenas das montanhas.

Eu ouço o proeminente cientista soviético dizendo que quando o urânio se esgotar, alternativas serão encontradas. Eu vejo os vietnamitas ocupando uma usina nuclear abandonada pelos militares dos EUA. Eles a desmantelaram e a destruíram? Não, eles a estão usando. Vejo a China explodindo bombas nucleares, desenvolvendo reatores de urânio, e preparando um programa espacial a fim de colonizar e explorar os planetas do mesmo modo que os europeus colonizaram e exploraram este hemisfério. É a mesma velha canção, mas talvez com um ritmo mais rápido desta vez.

A declaração do cientista soviético é muito interessante. Ele sabe que fonte de energia alternativa será esta? Não, ele simplesmente tem fé. A ciência vai encontrar um caminho. Eu ouço os Marxistas revolucionários dizendo que a destruição do meio ambiente, a poluição e a radiação serão todas controladas. E eu vejo-os agir de acordo com suas palavras. Será que eles sabem como essas coisas vão ser controlados? Não, eles simplesmente têm fé. A ciência vai encontrar um caminho. Industrialização é bom e necessário. Como eles sabem isso? Fé. A ciência vai encontrar um caminho. Fé desse tipo sempre foi conhecida na Europa como religião. A ciência se tornou a nova religião européia para ambos os capitalistas e marxistas; eles são realmente inseparáveis; eles são parte e parcela da mesma cultura. Então, tanto na teoria quanto na prática, o Marxismo exige que povos não-europeus desistam de seus valores, suas tradições, sua existência cultural completamente. Seremos todos viciados em ciência industrializada em uma sociedade Marxista.

Eu não acredito que o capitalismo em si mesmo é realmente responsável pela situação em que os índios americanos foram declarados um sacrifício nacional. Não, é a tradição européia, a cultura européia em si é responsável. O Marxismo é apenas o mais recente continuação desta tradição, não uma solução para ela. Aliar-se com o marxismo é aliar-se com as mesmas forças que nos declaram um custo aceitável.

Há uma outra maneira. Há o caminho tradicional Lakota e as formas dos povos indígenas americanos. É o caminho que sabe que os humanos não têm o direito de degradar a Mãe Terra, que existem forças além de tudo que a mente européia concebeu, que os seres humanos devem estar em harmonia com todas as relações ou as relações eventualmente irão eliminar a desarmonia. Uma ênfase desequilibrada nos humanos por pelos humanos; a arrogância européia de agir como se estivessem além da natureza de todas as coisas relacionadas; só pode resultar em uma desarmonia total e um reajuste que corta os seres humanos arrogantes para seu devido tamanho, lhes dá uma amostra daquela realidade fora do seu alcance ou controle, e restaura a harmonia. Não há necessidade de uma teoria revolucionária para que isso aconteça; está fora do controle humano. Os povos da natureza deste planeta sabem disto e por isso não teorizam sobre isso. A teoria é uma abstração, nosso conhecimento é real.

Destilada a seus termos básicos, a fé européia, incluindo a nova fé na ciência, é igual à crença de que o homem é Deus. A Europa sempre procurou um Messias, quer seja o homem Jesus Cristo ou o homem Karl Marx ou o homem Albert Einstein. Os índios americanos sabem que isto é totalmente absurdo. Os seres humanos são as mais fracas de todas as criaturas, tão fracas que as outras criaturas estão dispostas a desistir de sua carne para que vivamos. Os seres humanos só são capazes de sobreviver pelo exercício da racionalidade, já que não têm as habilidades das criaturas para obter comida pelo uso de presas e garras.

Mas a racionalidade é uma maldição, uma vez que pode fazer os seres humanos se esquecerem da ordem natural das coisas de maneiras outras criaturas não fazem. Um lobo nunca esquece o seu lugar na ordem natural. Os índios americanos podem. Europeus quase sempre o fazem. Nós damos graças pelo cervo, nossas relações, por nos oferecer sua carne para comer. Os europeus simplesmente pegam a carne e consideram o cervo inferior. Afinal, os europeus consideram-se como deuses no seu racionalismo e ciência. Deus é o Ser Supremo; todo resto deve ser inferior.

Toda tradição européia, incluindo o Marxismo, conspirou para desafiar a ordem natural das coisas. A Mãe Terra foi abusada, os poderes foram abusados, e isso não pode durar para sempre. Nenhuma teoria pode alterar esse fato simples. Mãe Terra irá retaliar, todo o ambiente irá retaliar, e os abusadores serão eliminados. O círculo ficará completo, de volta para onde começou. Isso é revolução. E isso é uma profecia do meu povo, do povo Hopi e de outros povos corretos.

Os índios americanos têm tentando explicar isso para os europeus durante séculos. Mas, como eu disse anteriormente, os europeus provaram-se incapazes de ouvir. A ordem natural irá vencer, e os ofensores irão morrer, do mesmo modo que os cervos morrem quando ofendem a harmonia superpopulando uma determinada região. É só uma questão de tempo até que o que os europeus chamam de "uma catástrofe de proporções globais" ocorra. É o papel dos povos indígenas americanos, o papel de todos os seres naturais, sobreviver. Uma parte da nossa sobrevivência é resistir. Nós resistimos, não para derrubar um governo ou para tomar o poder político, mas porque é natural resistir ao extermínio, sobreviver. Nós não queremos poder sobre as instituições brancas, queremos instituições brancas desapareçam. Isso é revolução.

Os índios americanos ainda estão em contato com essas realidades, as profecias, as tradições de nossos antepassados. Aprendemos dos anciãos, da natureza, dos poderes. E quando a catástrofe acabar, nós os povos indígenas americanos ainda estaremos aqui para habitar o continente. Eu não me importo se for apenas um punhado vivendo no alto dos Andes. Os indígenas americanos vão sobreviver; a harmonia será restabelecida. Isso é revolução.

Neste ponto, talvez eu devesse ser muito claro sobre outro assunto, um que já deve estar claro como um resultado do que eu disse. Mas a confusão prolifera facilmente hoje em dia, então eu quero martelar este ponto. Quando eu uso o termo Europeu, eu não estou me referindo a uma cor de pele ou uma estrutura genética particular. O que eu estou me referindo é uma mentalidade, uma visão de mundo que é um produto do desenvolvimento da cultura européia. As pessoas não são geneticamente codificadas a manter esta perspectiva, pois eles são aculturados para mantê-la. O mesmo é verdadeiro para os índios americanos ou para os membros de qualquer cultura.

É possível para um índio americano partilhar os valores europeus, a visão de mundo européia. Temos um termo para essas pessoas, nós os chamamos de "maçãs": vermelhos do lado de fora (genética) e brancos por dentro (seus valores). Outros grupos têm termos similares: os negros têm as suas "oreos"; Latinos têm "cocos" e assim por diante. E, como eu disse antes, há exceções à norma branca: pessoas que são brancas por fora, mas não brancas por dentro. Eu não tenho certeza que termo aplicar a eles são "seres humanos".

O que eu estou colocando aqui não é uma proposição racial, mas uma proposição cultural. Aqueles que em última análise advogam e defendem as realidades da cultura européia e sua industrialização são meus inimigos. Aqueles que resistem a ela, que lutam contra ela, são os meus aliados, os aliados do povo indígena americano. E eu não dou a mínima para qual ser a cor da sua pele. Caucasiano é o termo branco para a raça branca: Europeu é uma perspectiva a qual eu me oponho.

Os Comunistas Vietnamitas não são exatamente o que você pode considerar geneticamente Caucasianos, mas agora estão funcionando como europeus mentais. O mesmo vale para os Comunistas Chineses, para os capitalistas Japoneses ou Católicos Bantu ou Peter "MacDollar" abaixo da Reserva Navajo ou Wilson Dickie aqui em Pine Ridge. Não há racismo envolvido nisso, apenas um reconhecimento da mente e do espírito que compõem a cultura.

Em termos marxistas eu suponho que sou um "nacionalista cultural". Eu trabalho primeiro com o meu povo, o tradicional povo Lakota, pois temos uma visão de mundo comum e compartilham uma luta imediata. Além disso, eu trabalho com outros povos indígenas tradicionais americanos, novamente por causa de certa visão de mundo comum e forma de luta. Além disso, eu trabalho com qualquer um que experimentou a opressão colonial da Europa e que resiste à sua totalidade cultural e industrial. Obviamente, isso inclui Caucasianos genéticos que lutam para resistir às normas dominantes da cultura européia. Os irlandeses e os bascos vêm imediatamente à minha mente, mas há muitos outros.

Eu trabalho principalmente com o meu próprio povo, com a minha própria comunidade. Outras pessoas que sustentam perspectivas não-européias deveriam fazer o mesmo. Eu acredito no slogan: "Confie visão do teu irmão", embora eu adicione as irmãs também. Eu confio na comunidade e na visão de base cultural de todas as raças que naturalmente resistem à industrialização e à extinção humana. Claramente, indivíduos brancos podem compartilhar disto, dado apenas que eles tenham atingido a consciência de que a continuação dos imperativos industriais da Europa não é uma visão, mas o suicídio da espécie. Branco é uma das cores sagradas do povo Lakota. Vermelho, amarelo, branco e preto. As quatro direções. As quatro estações. Os quatro períodos de vida e do envelhecimento. As quatro raças da humanidade. Misture vermelho, amarelo, branco e preto e você tem marrom, a cor da quinta raça. Isto é a ordem natural das coisas. Assim, parece natural para mim trabalhar com todas as raças, cada uma com seu próprio significado especial, identidade e mensagem.

Mas há um comportamento peculiar entre a maioria dos Caucasianos. Assim que eu me tornei crítico da Europa e seu impacto sobre outras culturas, eles tornaram-se defensivos. Eles começam a se defender. Mas eu não estou atacando-os pessoalmente; estou atacando a Europa. Ao personalizar as minhas observações sobre a Europa estão personalizando a cultura européia, identificando-se com ela. Ao defender-se neste contexto, estão em última análise defendendo a cultura da morte. Esta é uma confusão que devem ser superada, e deve ser superada de pressa. Nenhum de nós tem energia para desperdiçar em tais lutas falsas.

Os Caucasianos têm uma visão mais positiva para oferecer à humanidade do que a cultura européia. Eu acredito nisto. Mas para atingir esta visão é necessário que os Caucasianos saiam da cultura européia, juntamente com o resto da humanidade, para ver a Europa pelo que ela é e pelo que faz.

Apegar-se ao capitalismo e ao Marxismo e a todos os outros "ismos" é simplesmente permanecer dentro da cultura européia. Não há como evitar esse fato básico. Como um fato, isso constitui uma escolha. Entenda que a escolha é baseada na cultura, não na raça. Entenda que escolher a cultura européia e do industrialismo é escolher ser meu inimigo. E entenda que a escolha é sua, não minha.

Isso me leva de volta aos índios americanos, que estão vagando pelas universidades, pelas periferias da cidade, e outras instituições européias. Se você está lá para resistir ao opressor em conformidade com os seus caminhos tradicionais, que assim seja. Eu não sei como você consegue combinar os dois, mas talvez você tenha sucesso. Mas mantenha seu senso de realidade. Cuide para não vir a acreditar que o mundo branco agora oferece soluções para os problemas com os quais nos confronta. Cuidado, também, para não permitir que as palavras do povo nativo sejam distorcidas para a vantagem de nossos inimigos. A Europa inventou a prática de torcer as palavras ao redor delas mesmas. Você só precisa olhar para os tratados entre os povos indígenas americanos e os vários governos europeus para saber que isso é verdade. Tire sua força de quem você é.

Uma cultura que regularmente confunde revolta com resistência, não tem nada útil para lhe ensinar e nada a para lhe oferecer como uma forma de vida. Europeus há muito que perderam todo o contato com a realidade, se alguma vez eles estiveram em contato com quem eles são, como os índios americanos.

Então, acho que para concluir isso, eu deveria dizer claramente que conduzir qualquer pessoa para o Marxismo é a última coisa em minha mente. O Marxismo é tão alienígena à minha cultura quanto o capitalismo e o Cristianismo são. Na verdade, eu posso dizer que eu não acho que eu estou tentando levar ninguém a coisa alguma. Até certo ponto eu tentei ser um "líder", no sentido em que a mídia branca gosta de usar esse termo, quando o Movimento Indígena Americano era uma organização recente. Este foi o resultado de uma confusão eu já não tenho. Você não pode ser tudo para todos. Não me proponho a ser usado de tal forma pelos meus inimigos. Eu não sou um líder. Eu sou um patriota Oglala Lakota. Isso é tudo que eu quero e tudo que eu preciso ser. E estou muito confortável com quem eu sou.

2 comentários:

Bruno G. Andrade disse...

Muito bom. Concordo com o que ele disse.

Janos Biro disse...

Bruno,

Eu tomaria muito cuidado antes de concordar com tudo que ele disse.