domingo, 18 de outubro de 2009

John Zerzan

Texto traduzido do site http://johnzerzan.net/

A crise de hoje é generalizada e profunda, acelerando o seu impacto sobre toda a vida em nossa biosfera. Muitos agora estão começando a questionar a natureza e a validade da modernidade/sociedade de massa/tecno-cultura. Talvez ela seja o problema, não a solução. Pode ser que a dinâmica desta assustadora e decadente a realidade se inicie com a própria civilização. O que está guiando isto tudo adiante para um não-futuro parece ser mais fundo do que o capitalismo, por exemplo. Temos de encarar momentos verdadeiramente gritantes e começar, juntos, a questionar tudo que foi dado e avançar para soluções que desfaçam o que algumas instituições básicas estão proporcionando.

Quando as pessoas começaram a domesticar animais e plantas há apenas 10.000 anos atrás, nossa espécie começou a deslizar para baixo. Esta é a premissa do movimento anti-civilização, que se baseia em várias décadas de pesquisa arqueológica e etnográfica. Há evidências convincentes de que a domesticação de animais e plantas trouxe efeitos colaterais previamente desconhecidos: hierarquia, a desigualdade de gênero, doença, ricos e pobres, esgotamento do solo e a criação de desertos, e uma série de outros males. Estas tendências negativas continuaram a ganhar impulso, e agora parecem estar levando a uma catástrofe mundial.

John Zerzan é um dos principais teóricos do movimento anti-civilização. Os argumentos de John se baseiam, em parte, numa avaliação da pré-história humana que agora faz parte do currículo padrão da universidade. Contrariamente aos os velhos estereótipos, que descrevem a vida humana pré-histórica como "sórdida, embrutecida e curta", nas últimas décadas os estudiosos têm considerado os nossos dois milhões de anos de existência como coletores e caçadores como a única adaptação bem sucedida humana para o planeta. As origens sozinhas não contêm a solução completa para o porquê do vazio e da deterioração da qualidade de existência social hoje. Mas olhando para como a vida já foi uma vez e por um longo tempo, combinado com a sabedoria indígena existente, podemos apontar para um caminho a seguir.

Link para página de autor em Largue

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Sociedade morta-viva


O que significa ser “humano”, ou o que significa “ser humano”? Esta questão tem se tornado cada vez mais importante ao observamos um mundo moderno que parece “hostil ao homem” ou “desumano”. Existe uma grande indisposição de refletir sobre esta questão, pois a definição do conceito de humano recai sobre a questão do sentido da vida humana, o que é uma questão “metafísica demais” para o homem moderno. Este se acostuma a encontrar seu sentido na falta de sentido, e em nada mais. O sentido humano inclui a pergunta pela “função” humana, não no sentido funcionalista, mas no sentido da pergunta milenar “porque estamos aqui”, ou “qual o nosso papel na existência”?

Ao tentar definir nossa humanidade, os filósofos recorreram a uma série de aspectos do homem, desde a racionalidade até sua composição genética. Mas a pergunta pelo papel do homem não envolve apenas uma característica interna do homem. Envolve a etologia humana, ou seja, o comportamento humano, incluindo aí a cultura, as crenças e a ética. Hoje em dia, o significado da pergunta “o que você faz?” ou “qual a sua função?” é entendida como “qual é seu trabalho/emprego”. A pergunta sobre o que fazemos relaciona-se com a pergunta sobre qual o nosso papel, o que acaba determinando nossa auto-imagem, quer dizer, nosso conceito sobre quem somos. A pergunta “quem você pensa que é?” remete ao status social, o que por sua vez remete a uma profissão. Não raro, o primeiro dado biográfico que procuramos sobre as pessoas, logo depois do nome, é a profissão, a ocupação, o cargo, o lugar que esta pessoa ocupa não apenas na sociedade, mas na sociedade do trabalho. As roupas que vestimos e o modo como nos portamos reflete nossa posição nessa sociedade.

Num mundo que provoca tanto o trauma quanto o vício pelo trabalho, os eventos que ocorrem no local de trabalho ou os pensamentos decorrentes da atividade do trabalho têm sido os temas mais comuns nas conversas informais, mesmo nas conversas entre familiares, entre casais, entre amigos ou entre estranhos. O trabalho, e tudo que ele suscita, tem invadido gradualmente todo nosso tempo, nossa vida, nossa mente e todas as nossas disposições de ação. O comportamento no trabalho tem se tornado mais “condicionante” para o indivíduo do que sua convivência em qualquer outro espaço social. De fato, a tendência “alienante” do trabalho repetitivo, comum na era industrial, foi substituída por uma etologia que leva “a vida para o trabalho” e “o trabalho para vida”, em todos os seus aspectos. Até mesmo o aspecto lúdico, antes dissociado do trabalho, agora pode ser confundido com este, quando se torna mais comum ouvir a frase: “Isto não é brincadeira, é meu trabalho, mas eu me divirto muito com ele”. Assim, a etologia humana está cada vez mais, centrada na sociedade do trabalho, confundindo-se com a etologia do trabalho. Não apenas do trabalho humano, mas do trabalho “civilizado”, isto é, com vias para o progresso de uma sociedade tecnocrática, que muda numa velocidade espantosa, a ponto de não conseguirmos mais dar qualquer adjetivo a ela, pois os adjetivos se tornam rapidamente obsoletos. A mudança de forma desta sociedade está se acelerando a ponto de não podermos mais dar um diagnóstico preciso sobre sua situação.

O “ethos” exigido no local de trabalho, assimilado como “lição de vida” pelos “discursos motivacionais”, tem se tornado um “estilo de vida”, algo que se torna base para o comportamento em todos os outros aspectos da vida, como o relacionamento íntimo, o consumo, a postura ética, o posicionamento político, até mesmo a crença religiosa. A carreira enquanto estilo de vida se torna um fetiche: o indivíduo procura consumir qualquer coisa que esteja relacionado ao seu trabalho, como objetos de decoração que simbolizam sua formação. O olhar cotidiano se torna um “olhar médico”, um “olhar jurídico”, um “olhar filosófico”, e assim por diante. Tudo gira em torno da profissão. O indivíduo tem centralizado a vida no trabalho mais do que em qualquer outra de suas capacidades humanas. Em outras palavras, a função artificial, criada para suprir uma sociedade de acúmulo, está substituindo nossa “função humana”, aquela responsabilidade que tínhamos no passado. Nestes termos, a sociedade do trabalho criou uma nova função para o homem, destituindo-o dos deveres que ele tinha antes e substituindo uma ética baseada na relação do homem com o sagrado por uma ética baseada na produção e no consumo.

Esta “função humana original” se assemelha à etologia dos animais não domesticados (ou selvagens), pois eles não vivem no acúmulo de poder, vivem na dádiva da vida. Esta vida “na graça” foi deixada de lado como algo aprisionador, pobre e primitivo. A questão que se coloca é então uma oposição entre trabalho, que é nossa função social nesta estrutura mercadológica, e nossa função humana, que é nossa função no e para o meio em que o humano estava originalmente inserido, no e para o qual ele surgiu. As duas funções não se confundem quando analisamos a humanidade no seu sentido mais amplo. Percebemos a substituição gradativa da função humana pela função do trabalho.

É nesse contexto que se insere a metáfora de uma sociedade de mortos-vivos, que representam seres com aparência superficial de estarem vivos e realizarem funções, porém sem qualquer conteúdo ou sentido para essas funções. Não apenas “somos para morte”, mas nossa função humana perdeu seu valor intrínseco, reduzindo-se a uma função que objetiva apenas a reprodução de comportamentos voltados ao trabalho. Mesmo o que não é chamado de trabalho, como o entretenimento e a arte, existem em função do trabalho, e seguem também a estrutura do trabalho, uma vez que esta assimila todas as atividades humanas e as classifica de acordo com um cálculo de eficiência. Perguntamos-nos o que “compensa” mais, ir ao teatro ou ao cinema, em termos de uma “eficiência de diversão”. Atividades reflexivas, que não nos distraiam o suficiente ou não ocupem ao máximo nossa atenção, são consideradas pouco divertidas. Ver um filme, por exemplo, é preferível a ler um livro, porque as múltiplas imagens fluindo constantemente fixam nossa atenção na multiplicidade de informações, deixando pouco espaço para refletir sobre a mensagem.

Um morto-vivo caracteriza-se por aquele ser que está destituído de sua função enquanto ser vivo, mas que ainda mantém uma função com fim em si mesma, caracterizada por um movimento programado, típico de um autômato ou de um objeto animado por mecanismos invisíveis. Seu “princípio de ação” é controlado por forças estranhas à vida, como um desejo insaciável de destruir/consumir vida pulsante, o que significa consumir aquilo do qual tem carência. Na literatura, mortos-vivos podem ser inteligentes, sedutores e refinados como os vampiros. Podem ter uma aparência atraente, ainda que por meio de um encantamento. Podem mudar de forma, e são imunes a ferimentos. Os mortos-vivos estão à caça dos vivos. Também apresentam a característica de infectar o outro com sua doença ou maldição, espalhando-a como um vírus. Os mortos-vivos andam à noite porque se escondem dos vivos. A vulnerabilidade ao espelho revela que eles também se escondem de si mesmos. São insensíveis e frios.

A perda das funções humanas leva a uma busca constante por algo que parece impossível de ser alcançado, pela reprodução de uma rotina sem sentido e sem finalidade. Isto é o que acomete todos os membros de uma sociedade morta-viva, gerando medo, raiva, desespero. A morte-vida, diferente da morte, se espalha dominando as mentes e os corpos, num movimento de expansão de influência e poder por via do engano e da violência. A morte fecha o ciclo da vida, mas a morte-vida impede o fechamento do ciclo da vida, criando um ciclo infindável dentro do ciclo vital, como uma referência circular ou um “loop infinito”. Ela nos desliga de nosso propósito como seres humanos e nos leva para uma espiral descendente de acúmulo e expansão de poder, seja pela brutalidade ou pela astúcia.

Não é por coincidência que alguns autores relacionaram os morto-vivos à maldição de Caim, o primeiro agricultor, primeiro assassino e também fundador da primeira cidade. Caim foi condenado a vagar pela terra sem rumo definido e recebeu uma marca que o impede de ser morto, porém todo seu trabalho resulta em cinzas. Ele é por definição o homem destituído de seu papel humano, condenado a caminhar para o vazio, numa existência sem sentido intrínseco.

Caim, que arou seu campo com o sangue de seu irmão, é o primeiro a acumular. Ele, que foi herdeiro da condenação ao trabalho pelo pecado da cobiça, agora também se torna fundador de uma nova maldição: a inveja que leva à destruição da vida em função do trabalho.

Nós elegemos o trabalho como fonte não apenas de sustento, mas de sentido existencial. Mesmo quando tentamos fugir do trabalho em atividades artísticas, estas só podem prover sustento porque outra pessoa trabalha para adquiri-las. A arte também pode ser mais procurada quanto menor o sentido de nossas existências, uma vez que ela provém um momento de sentido aparente. Mas a função humana não pode ser resgatada pela atividade artística. O sentido existencial não pode ser substituído pelo sentido estético.

Os membros da sociedade morta-viva são como insetos batendo numa lâmpada que eles pensam ser o sol. Contínua, furiosa e entorpecidamente, concentrando todo seu ser nesse fluxo aparentemente vital, porém originado do auto-engano. Caminhando na mentira que conduz à escuridão da morte do sentido.

Todos os aspectos do trabalho moderno, incluindo a programação de comportamentos pelo cálculo de produtividade, se tornam aspectos da vida moderna. Estes conduzem continuamente o indivíduo ao automatismo e ao artificialismo. E ao mesmo tempo ao prazer, à tentativa de aproveitar ao máximo as experiências agradáveis, ao consumo insaciável de “vida”. Mas a vida transformada em produto também se torna parte de um processo “sem sentido” quando o consumo acaba. Ou seja, este processo é a transformação de tudo que é vida em morte-vida. Luz em escuridão. E quando as luzes se apagam, é cada um por si, não há mais referência comum. Somos nosso único ponto de referência num universo restrito ao eu, onde o outro é uma ameaça, e não faz sentido falar sobre de onde viemos e para onde vamos.

Janos Biro
Goiânia, 01/09/09

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Etologia da domesticação



O estudo comparativo entre o comportamento de animais em estado domesticado e seu comportamento em estado selvagem poderia elucidar muitas questões sobre os seres humanos que vivem n modo de vida civilizado, pois a domesticação de outras espécies é resultado de um processo de autodomesticação do homem (ZERZAN, 1999). O conceito de domesticação sendo usado aqui é o de adestramento a um meio artificial que causa perda de características naturais.

O tipo de comportamento que mais visivelmente se altera com a domesticação é o comportamento sexual, por ser o comportamento mais importante para a perpetuação da espécie e o mais complexo. Animais domesticados tendem a ser menos seletivos quanto a seus parceiros sexuais. Este efeito é chamado de vulgarização sexual, e é resultado de diversos fatores, entre eles a mudança de ambiente (LORENZ, 2002).

É visível no animal domesticado a perda de certas características físicas, como o crescimento de pêlos. A perda de tais características não é necessariamente genética, pois essas características são reguladas por hormônios. Da mesma forma, o comportamento sexual, por exemplo, é regulado pelo hipotálamo (DETHIER e STELLAR, 1998). Isto quer dizer que estas características não foram eliminadas da espécie, mas apenas inibidas.

Logo, características comportamentais também podem ser inibidas com a domesticação. Muitos comportamentos característicos de uma espécie dependem de condições ambientais específicas para se realizarem (UEXKÜLL, 1933). A alteração no ambiente faz com que certas predisposições do organismo não se efetivem, ou se efetivem de maneira desregulada. Estes efeitos afetarão o indivíduo em praticamente todas as suas atividades, pois as características comportamentais dependem umas das outras para efetivar comportamentos mais complexos (LORENZ, 1995).

O comportamento de demonstração das características para a seleção sexual, chamado de coorte, é drasticamente afetado, pois ele depende do bom funcionamento das principais características físicas e comportamentais do indivíduo. Há também uma degradação no cuidado com os filhotes, tendendo do excesso de proteção ao excesso de agressividade ou descaso. Certos pássaros domesticados literalmente sufocam seus filhotes tentando protegê-los de um ambiente potencialmente hostil (LORENZ, 2002).

A luta ritual entre indivíduos por um parceiro sexual se torna menos comum, mas não quer dizer que a competitividade por parceiros diminua. Ao contrário, o excesso de indivíduos numa população cria competição exagerada, e o comportamento de luta é inibido, pois ele demanda tempo. A luta entre machos geralmente não é mortal e não tem como intenção eliminar o oponente. É apenas uma demonstração das capacidades de ambos, e nesse sentido ela é benéfica aos dois. Em alguns pássaros, por exemplo, a luta é apenas uma encenação, sem ferimentos, uma cooperação entre os dois machos para atrair a fêmea (LORENZ, 2002).

Por outro lado, indivíduos domesticados ou criados em ambientes de domesticação se tornam mais propensos a ferir sistematicamente um ao outro, mesmo fora do período de procriação, causando lesões ou morte. Eles também adquirem comportamentos obsessivos, muitas vezes ferindo a si mesmos, o que é chamado de automutilação. Isso é atribuído, entre outros fatores, ao estresse do confinamento, condições inadequadas de vida, solidão, perda de companheiro, mudança de ambiente, ansiedade, presença de animais predadores no mesmo ambiente e abandono do tratador ¹.

Espécies domesticadas por várias gerações podem ter seu instinto de sobrevivência modificado. Isso leva ao medo paralisante de se defender, que é observado em animais vivendo em cativeiro por muito tempo. A mudança no do ritmo das batidas cardíacas e outras mudanças no organismo indicam sintomas de pânico. A indisposição para a atividade física e a possibilidade de alcançar a comida com menos esforço pode levar ao acúmulo de gordura, o que somado à ansiedade explica o alto índice de doenças cardíacas e infartos entre animais domesticados.

Muitos pássaros que passaram a maior parte de suas vidas em gaiolas não irão sair delas mesmo se as portas estiverem abertas. Podemos dizer que se tornaram tão dependentes que construiriam suas próprias gaiolas se tivessem mãos. O filósofo Peter Sloterdijk acredita que a autodomesticação é o objetivo da civilização, e que deve ser alcançada através do desenvolvimento da antropotécnica, incluindo a manipulação genética e a engenharia humana, já que o humanismo por si só falhou em domesticar e educar o homem (SLOTERDIJK, 2000).

Diante desses dados, podemos traçar comparações entre as alterações de comportamento de animais domesticados e as mudanças de modo de vida trazidas pela sociedade moderna. A vulgarização sexual pode ser vista na tendência a relacionamentos descartáveis e sem compromisso (BAUMAN, 2004). Poderíamos falar da perda de disposição para longos rituais de coorte por parte do homem, e perda da capacidade seletiva por parte da mulher. Os relacionamentos não se voltam tanto para a reprodução, mas para fins de satisfação hedônica ou alívio do estresse.

A automutilação física entre jovens, por exemplo, é um fenômeno crescente, e está especialmente relacionado às novas configurações de relacionamento amoroso (ORTEGA, 2006). Talvez seja ainda mais comum o comportamento de causar danos psicológicos a si mesmo, colocando-se em situações que muito provavelmente causarão sofrimento. A domesticação está diretamente relacionada a uma série de doenças físicas e psicológicas, incluindo esta tendência de autodestruição. Francisco Ortega afirma, em seu artigo sobre as identidades corporais, que os jovens têm procurado expressar seu sofrimento na sua aparência física, criando imagens de cicatrizes, ferimentos e coisas que machucam.

Interessa-nos examinar essas questões de um ponto de vista ético, num contexto pós-humanista. Até que ponto nossos comportamentos autenticamente humanos foram alterados pela sociedade moderna? Em que sentido tais alterações poderiam gerar doenças psicológicas e problemas sociais? Como nos posicionar eticamente diante da autodomesticação e como ela alterará nossas disposições de comportamento? As mudanças de comportamento sexual poderiam ser um demonstrativo do poder deletério da domesticação humana?

Este texto é apenas uma introdução resumida ao assunto, e uma proposta de estudo do comportamento humano no contexto da autodomesticação.

Janos Biro
Goiânia, 15 de fevereiro de 2009

Referências:

AMABIS, J. M.; MARTHO, G. R. Biologia das populações: genética, evolução biológica, ecologia. 2. ed. São Paulo: Editora Moderna, 2005.

BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores, 2004.

DETHIER, V. G.; STELLAR, E. Comportamento animal. São Paulo: Edgard Blücher, 1988.

LORENZ, Konrad. A Demolição do Homem: Crítica à falsa religião do progresso. São Paulo: Editora Brasiliense, 2002.

__________. Os fundamentos da etologia. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1995.

ORTEGA, Franscisco. Das utopias sociais às utopias corporais: identidades somáticas e marcas corporais. In: Culturas Jovens: Novos Mapas Do Afeto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores, 2006

SLOTERDIJK, Peter. Regras para o parque humano - uma resposta à carta de Heidegger sobre o humanismo. São Paulo: Estação Liberdade, 2000.

UEXKÜLL, Jakob Von. Dos animais e dos homens: digressões pelos seus mundos próprios, doutrina do significado. Lisboa: Livros do Brasil, 1933.

ZERZAN, Jonh. Futuro Primitivo. São Paulo: Sabotagem, 1999.

¹ Dados veterinários: http://www.revista.inf.br/veterinaria/revisao/edic-vi-n11-RL14.pdf, acesso em 13 de fevereiro de 2009

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Sociedade Morta

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Isto significa guerra


Entrevista com Derrick Jensen

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sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Ética e ciência: sobre o uso de animais.


Uma resposta ao texto "Por que animais são necessários à ciência?", escrito por Heitor Rosa, diretor da faculdade de medicina da UFG.


É certo que a ética está presente na ciência, mas que tipo de ética e para qual tipo de ciência? Sabemos que uma prática não se justifica eticamente apenas por ser "cientificamente necessária" ou sancionada por comitês de regulamentação. Nenhuma autoridade tem a palavra final sobre o que é ético. É preciso perguntar, para além da ética, que tipo de ciência nós queremos.


Por certo nenhum dono de escravos era a favor dos maus tratos aos escravos. Para os gregos antigos, matar ou tratar mal os escravos era imoral. Escravos são ferramentas, mas merecem respeito, pois a aristocracia grega dependia deles. Seria desperdício fazê-los sofrer sem um bom motivo. Porém, os benefícios que o sistema escravista trouxe à sociedade, por maiores que fossem (talvez nem existissem cidades sem escravos), não se justificam eticamente. O argumento anti-especista cai na mesma categoria.


O fato de que cientistas são pessoas sérias e cultas também não justifica nada. Donos de escravos também eram as pessoas mais cultas da época, também tinham uma "formação ética impecável" e eram bastante religiosos. O fato é que o anti-especismo questiona valores centrais de nossa sociedade, e não busca apenas uma reforma. Estes valores também determinam o que será considerado aceitável ou não.


Também não se trata de um conflito entre cientistas e leigos. Não são apenas leigos que se opõem à experimentação animal, mas biólogos, médicos, filósofos e cientistas. Mais do que ética na ciência, é preciso ir além da ética para compreender o problema.


Esta questão realmente envolve mitos e sentimentos. Um desses mitos é o progresso civilizatório. Podemos questionar até que ponto a saúde realmente melhorou para toda humanidade e não apenas para a parte mais privilegiada dela. A maior parte de nossas doenças são típicas da civilização. O risco de epidemias cresce a cada ano. Culturas sem tecnologia "avançada" também conseguem manter a saúde dos seus membros.


Nada justifica o escravismo, independente de que espécie seja. Quando uma pessoa diz que é justificável usar não-humanos porque de outra forma teríamos que usar humanos, ela está apenas colocando os homens acima das demais espécies, e nesse sentido não há diferença alguma entre especistas e nazistas.


O fato de dependermos cada vez mais de devastação natural é apenas uma das conseqüências desastrosas de nossa cultura de acúmulo e expansão, baseada no escravismo.


Para anti-especistas, especismo é eticamente equivalente a nazismo, e por isso elas continuarão se opondo até que se prove o contrário.


Muitos médicos ainda se mostram 100% comprometidos com o que é "cientificamente válido", como se isso fosse inquestionável, e por isso seu discurso não é realmente ético, porque é uma “ética” submissa ao discurso científico.


Já é difícil falar de argumento ético e especismo, mais difícil ainda é se mover para além dele, em busca de alternativas.


Em resumo, que ciência é essa que necessita de escravidão? Precisamos mesmo deste tipo de ciência? E ainda que a atual sociedade dependa dela, precisamos mesmo de uma sociedade escravista?

sábado, 26 de julho de 2008

Tecnocracia e anarquia


Kropotkin estava fascinado pelo progresso das ciências naturais, como a maioria dos pensadores do século XIX. Havia uma idéia de que poderíamos determinar as leis gerais do desenvolvimento das sociedades, assim como fizemos com as leis da física. Os novos avanços na biologia, e as novas áreas do conhecimento, incluindo a psicologia, modificaram as concepções quanto ao “posicionamento do homem no universo, a origem da vida e a natureza da razão”. Segundo ele, no livro Ética: origem e desenvolvimento, isso representava um “despertar do intelecto humano” como só se viu nos gregos antigos. “E ainda, mesmo esta comparação não seria correta, porque no período inicial da história humana, o homem não possuía todas essas maravilhas da técnica industrial que mais tarde foram arranjadas ao seu serviço”. Este desenvolvimento permitiria ao homem se livrar do trabalho escravo. É preciso notar que Kropotkin está considerando a Grécia antiga como o período precoce da história humana.

Se nossa história começou há um pouco mais que dois mil anos atrás, quem ele está chamando de humanidade? A história da humanidade é descrita como algo que começa com os gregos antigos, e com uma situação de trabalho escravo. A modernidade é descrita como possuindo um espírito jovem e inventivo, que expandiu as capacidades produtivas do trabalho humano de forma muito rápida, e isso significava que a civilização estava no rumo de gerar cada vez mais bem-estar. “Pela primeira vez na história da civilização, a humanidade alcançou um ponto onde os meios para satisfazer as necessidades excedem as próprias necessidades”. Isto significava que, pela primeira vez, não era preciso impor miséria a muitos pelo bem estar e desenvolvimento intelectual de poucos.

Era este desenvolvimento científico que assegurava o fim da opressão, e permitia que a humanidade se reestruturasse de forma mais igualitária. A mesma idéia permanece nas “novas” tendências de tecno-política. É exatamente a mesma idéia, trazida para o contexto atual: por vários fatores nós falhamos em trazer os aprimoramentos científicos e tecnológicos para todos, e somente por isso os problemas não apenas permaneceram como pioraram. A tecnocracia não falhou, ela apenas não se realizou plenamente ainda. Esta é a crença que tem nos mantido atados ao plano civilizatório nos últimos séculos: Usar as conquistas da civilização para o interesse de todos.

Esta nova filosofia do progresso é também considerada um progresso para toda a humanidade, e por isso descarta as chamadas “filosofias da natureza”. Kropotkin acreditava que Francis Bacon havia trazido esta nova filosofia com sua perspectiva científica, uma filosofia do universo, capaz de nos livrar da metafísica e das hipóteses sobrenaturais. O mesmo Bacon que foi alquimista e membro mais alto da Ordem Rosacruz, que criticava os ateus e dizia que as idéias governam o mundo. Bacon acreditava que a natureza deveria ser interrogada a ferro e fogo para que ela revele seus segredos, como uma bruxa sendo interrogada pelo santo ofício.

Mas alguns anarquistas perceberam os problemas do discurso tecnocrata. Não se pode esperar que o desenvolvimento científico ou tecnológico torne a civilização mais benéfica para todos se os fundamentos civilizados são insustentáveis. É como transformar chumbo em ouro. As novas perspectivas parecem prometer preservação do meio-ambiente do mesmo modo com que prometeu o fim da exploração humana. As promessas estão se acumulando. Ainda somos educados a ver na tecnocracia nossa única esperança de um modo de vida sustentável, e em certos indivíduos em posições de poder os únicos inimigos. Parece que ainda estamos pensando numa história da humanidade tão curta quanto a que Kropotkin tinha em mente: um pouco mais que dois mil anos.

É com base nessa sociedade tecnocrática que muitos anarquistas ainda tentam determinar sua ética: o homem tem o dever de espalhar os frutos da civilização para todos, e nisso consiste a justiça social. Assim como os marxistas, eles irão considerar qualquer um que critique o processo civilizatório como sendo influenciado por uma ideologia reacionária. A crítica à tecnocracia soaria como uma ameaça à democratização das tecnologias. Mas a idéia de que tecnologias devem ser democratizadas por princípio moral é colocada acima de qualquer questionamento ao modelo tecno-industrial e suas conseqüências ecológicas. Ou seja, essa suposta base moral é na verdade um moralismo tecnocrata.

Colocar as técnicas industriais a serviço do homem sem prejudicar ninguém é um velho discurso - um velho sonho - alimentado pela crença humanista no poder da racionalidade e do avanço da ciência. Porém uma coisa ameaça a base de toda essa crença: o próprio avanço das descobertas antropologias e arqueológicas: Se autores como Marshall Sahlins estão corretos na afirmação de que os povos não civilizados viviam numa sociedade de afluência, e não de escassez, e que os meios e os fins estavam plenamente ajustados pela evolução, então não havia falta de liberdade, não havia pobreza, não havia subdesenvolvimento técnico e nem um estado de desespero pela sobrevivência.

Os novos dados que revelam que a espécie humana tem mais de 100 mil anos de idade colocam em cheque a concepção de humanidade usada por praticamente todo pensador dos séculos passados, incluindo Kropotkin, e aqueles que ainda se apóiam neles. Significa que o que era o alvorecer da humanidade é na verdade o alvorecer da civilização. Se a história humana fosse vista como um único dia, os gregos antigos estariam nos últimos minutos do anoitecer da humanidade, e nossa sociedade industrial estaria apenas nos últimos segundos. Por 99% de nossa verdadeira história, não houve industrialismo, mas houve sustentabilidade e plenas capacidades humanas em uso, caso contrário essas capacidades teriam sido eliminadas pela seleção. Como é possível acreditar que não houve liberdade humana por todo esse tempo, e que só pode ocorrer agora, mediante a maximização do modo de vida que nos trouxe tudo aquilo que odiamos?

A promessa, desde Aristóteles, é que a tecnologia nos livrará do trabalho. Este salvacionismo tecnocrata, como qualquer salvacionismo, deve ser criticado. Os anarco-primitivistas o criticam, mas o resto dos anarquistas ainda parece dar mais ouvidos à cultura tecno-industrial. O deveremos fazer que para que nossa crítica seja levada em consideração? Quanto tempo mais nós poderemos esperar até que os outros se desfaçam dos preconceitos e prejuízos a respeito do anarco-primitivismo e façam alguma coisa?