sexta-feira, 9 de março de 2012

O mito vegetariano: Comida, Justiça e Sustentabilidade


O mito vegetariano: Comida, Justiça e Sustentabilidade, de Lierre Keith, foi publicado em 2009. Keith é uma ativista feminista radical. Em parceria com Derrick Jensen e Aric McBay, publicou em 2011 o livro Deep Green Resistance: Strategy to Save the Planet. Eu certamente não endosso tudo que ela defende, mas acho que esse texto tem alguma serventia para o propósito deste blog.

Talvez seja válido também comentar o que eu acho interessante neste texto. Eu fui vegetariano por um bom tempo, e vegano por algum tempo. Participei de eventos com esse tema, algumas vezes até mesmo como palestrante. Abandonar essas dietas também fez parte de um amadurecimento para mim. Não tenho nada contra os veganos. Tenho muitos amigos veganos, muitos deles são ativistas. Não quero comprar briga com eles ao publicar isto. Acho que a autora levanta uma questão válida, e que pode ajudar algumas pessoas que estão tomando decisões sem o devido questionamento. Esta para mim é a mensagem mais relevante deste texto.

Segue abaixo a tradução das primeiras 14 páginas do livro, disponíveis no site da autora, e publicados neste blog com a permissão da mesma.


O mito vegetariano: Comida, Justiça e Sustentabilidade

Autora: Lierre Keith
Fonte: http://www.lierrekeith.com/vegmyth.htm (Acesso em 05/03/12)
Tradutor: Janos Biro Marques Leite
Título original: The Vegetarian Myth: Food, Justice and Sustainability

CAPÍTULO 1

Por que este livro?

Este não foi um livro fácil de escrever. Para muitos de vocês, não vai ser um livro fácil de ler. Eu sei. Eu fui vegan por quase vinte anos. Eu conheço as razões que me levaram a adotar uma dieta extrema e elas são nobres, enobrecedoras até. Razões como a justiça, a compaixão, um desejo desesperado e abrangedor de corrigir o mundo. Salvar o planeta, as últimas árvores testemunhando as eras, os restos de terra selvagem ainda nutrindo espécies que estão desaparecendo, silenciosas em suas peles e penas. Proteger os vulneráveis, os que não têm voz. Alimentar os famintos. Ao menos, se abster de participar do horror da agricultura industrial.

Essas paixões políticas nascem de uma fome tão profunda que chega a tocar no campo espiritual. Ou assim elas eram para mim, e ainda são. Eu quero que minha vida seja um grito de guerra, uma zona de guerra, uma flecha apontada e disparada para o coração da dominação: o patriarcado, o imperialismo, a industrialização, todo sistema de poder e sadismo. Se essa imagem marcial é estranha a você, eu posso reformulá-la. Eu quero que minha vida, meu corpo, seja um lugar onde a terra é amada, não devorada; onde o sádico não tem lugar, onde a violência pare. E eu quero que o comer, a primeira forma de cuidado, seja um ato que sustenta em vez de matar.

Este livro foi escrito para ir mais a fundo nessas paixões, nessa fome. Não é uma tentativa de ridicularizar o conceito de direito animal ou para zombar das pessoas que querem um mundo mais gentil. Ao invés disso, este livro é um esforço para honrar os nossos mais profundos anseios por um mundo justo. E estes anseios, por compaixão, por sustentabilidade, por uma distribuição equitativa dos recursos, não são atendidos pela filosofia ou pela prática do vegetarianismo. Temos sido despistados. Os vegetarianos têm as melhores das intenções. Vou expor agora o que eu vou repetir mais tarde: tudo o que dizem sobre a agricultura industrial é verdade. É cruel, gera desperdício e é destrutivo. Nada neste livro destina-se a permitir ou promover as práticas de produção industrial de alimentos em qualquer nível.

Mas o primeiro erro está em assumir que a agricultura industrial, uma prática que tem pouco mais de 50 anos, é a única maneira de criar animais. Os cálculos sobre a energia utilizada, as calorias consumidas, os seres humanos desnutridos, são todos baseados na noção de que animais comem grãos.

Você pode alimentar animais com grãos, mas esta não é a dieta para a qual foram eles foram feitos. Grãos não existiam até os humanos domesticarem gramíneas anuais, há no máximo 12.000 anos atrás, enquanto auroques, os progenitores selvagens da vaca doméstica, estavam por aí dois milhões de anos antes. Pela maior parte da história humana, espécies que se alimentam de ramos e de grama não estavam em competição com os humanos. Eles comiam o que não podíamos comer, celulose, e transformavam no que pudíamos, proteína e gordura. Grãos aumentam dramaticamente a taxa de crescimento dos bovinos de corte (há uma razão para a expressão "alimentado com milho") e a produção de leite das vacas leiteiras. Isso também os mata. O delicado equilíbrio de bactérias do rúmen de uma vaca se torna ácido e depois se torna séptico. Frangos desenvolvem a doença do fígado gorduroso se alimentados exclusivamente com grãos, e eles não precisam de qualquer grão para sobreviver. Ovelhas e cabras, e também ruminantes, deveriam realmente nunca tocar nessa coisa.

Este equívoco nasce da ignorância, uma ignorância que percorre o comprimento e a largura do mito vegetariano, da natureza da agricultura à natureza da vida. Nós somos industrialistas urbanos, e não conhecemos a origem da nossa comida. Isso inclui os vegetarianos, apesar de suas reivindicações em relação à verdade. Isto incluía a mim também, por vinte anos. Qualquer um que comesse carne estava negando a realidade, só eu estava encarando os fatos. Certamente, a maioria das pessoas que consomem carne industrializada nunca se perguntou sobre o que morreu e como morreu. Mas, francamente, a maioria dos vegetarianos também não.

A verdade é de que a agricultura é a coisa mais destrutiva que os seres humanos têm feito ao planeta, e mais do mesmo não vai nos salvar. A verdade é que a agricultura exige a destruição maciça de ecossistemas inteiros. A verdade é também que a vida não é possível sem a morte, que não importa o que você coma, alguém tem que morrer para alimentá-lo.

Eu quero uma contabilidade completa, uma contabilidade que vai muito além do que está morto no seu prato. Eu estou perguntando sobre tudo o que morreu no processo, tudo o que foi morto para colocar aquela comida no seu prato. Essa é a pergunta mais radical, e é a única questão que irá produzir a verdade. Quantos rios foram represados ​​e drenados, quantas pradarias foram aradas e florestas foram derrubadas, quanto solo virou pó e foi transformando em nada? Eu quero saber sobre todas as espécies; não apenas os indivíduos, mas as espécies como um todo; o bisão, os gafanhotos, os lobos cinzentos. E eu quero mais do que apenas o número de mortos e enterrados. Eu os quero de volta.

Apesar do que lhe foi dito, e apesar da seriedade de quem disse, comer soja não vai trazê-los de volta. Noventa e oito por cento da pradaria americana se foi, se transformou em uma monocultura de grãos anuais. O plantio no Canadá destruiu 99 por cento dos húmus originais. De fato, o desaparecimento do solo fértil "rivaliza com o aquecimento global enquanto ameaça ambiental". Quando a floresta vira carne, os progressistas ficam indignados, conscientes, prontos para boicotar. Mas o nosso apego ao mito vegetariano nos deixa brandos, em silêncio, e finalmente imobilizados quando o culpado é o trigo e a vítima é a pradaria. Nós abraçamos como um artigo de fé a ideia de que o vegetarianismo era o caminho da salvação, para nós, para o planeta. Como pode isso estar destruindo ambos?

Temos de estar dispostos a enfrentar a resposta. O que está espreitando nas sombras de nossa ignorância e negação é uma crítica à própria civilização. O ponto de partida pode ser o que comemos, mas o fim é todo um modo de vida, um arranjo de poder global, e não uma pequena medida de apego pessoal a ele. Eu me lembro de um dia, na quarta série, quando a senhorita Fox escreveu duas palavras no quadro negro: civilização e agricultura. Lembro-me por causa do sussurro em sua voz, a seriedade de suas palavras, a explicação que era quase uma oratória. Isso era importante. E eu entendi. Tudo o que era bom na cultura humana fluiu a partir daquele ponto: toda a facilidade, graça, justiça. Religião, ciência, medicina e arte nasceram; e a luta interminável contra a fome, a doença e a violência poderia ser ganha, tudo porque os seres humanos descobriram como cultivar seu próprio alimento.

A realidade é que a agricultura criou uma perda líquida para os direitos humanos e para a cultura: imperialismo, escravidão, militarismo, divisões de classe, fome crônica e doença. "O problema real, então, não é explicar por que algumas pessoas demoraram a adotar a agricultura, mas por que alguém resolveu adotá-la afinal, já que é tão obviamente bestial", escreve Colin Tudge, da London School of Economics. A agricultura também foi devastadora para as outras criaturas com quem partilhamos a terra, e, finalmente, para os sistemas de suporte à vida do próprio planeta. O que está em jogo é tudo. Se nós queremos um mundo sustentável, temos que estar dispostos a examinar as relações de poder por trás do mito fundante da nossa cultura. Faça qualquer coisa menor que isso e iremos falhar.

O questionamento neste nível é difícil para a maioria das pessoas. Neste caso, a luta emocional que é inerente ao ato de resistir a qualquer hegemonia é agravada pela nossa dependência da civilização, e nossa impotência individual para pará-la. A maioria de nós não teria nenhuma chance de sobrevivência se a infra-estrutura industrial desabasse amanhã. E a nossa consciência é igualmente impedida por nossa impotência. Não há uma lista de dez coisas simples para se fazer no último capítulo porque, francamente, não existem dez coisas simples que vão salvar a Terra. Não existe uma solução pessoal. Há uma teia interligada de arranjos hierárquicos, sistemas vastos de poder que têm de ser confrontados e desmantelados. Podemos discordar sobre a melhor forma de fazer isso, mas devemos fazê-lo se quisermos que a terra tenha alguma chance de sobreviver.

No final, toda firmeza do mundo será inútil sem informações suficientes para traçar um caminho sustentável para adiante, tanto pessoalmente quanto politicamente. Um dos meus objetivos ao escrever este livro é fornecer essa informação. A grande maioria das pessoas nos EUA não cultiva alimentos, e muito menos caça ou coleta. Não temos uma forma de avaliar quanta morte está incorporada em uma porção de salada, um prato de frutas, um prato de carne. Vivemos em ambientes urbanos, no último suspiro de florestas, milhares de milhas distantes dos rios devastados, pradarias, pântanos, e das milhões de criaturas que morreram pelos nossos jantares. Nós nem sabemos que perguntas fazer para descobrir.

Em seu livro Long Life, Honey in the Heart, Martin Pretchel escreve sobre o povo maia e seu conceito de kas-limaal, que pode ser traduzido parcamente como "endividamento mútuo, centelha mútua". "O conhecimento que cada animal, planta, pessoa, vento, e estação deve ao fruto de todas as coisas é um conhecimento adulto. Sair da dívida significa que você não quer ser parte da vida, e você não quer crescer para ser um adulto", um dos anciãos explica a Pretchel.

A única maneira de sair do mito vegetariano é através da persecução do kas-limaal, do conhecimento adulto. Este é um conceito que precisamos, especialmente aqueles de nós que são abalados pela injustiça. Eu sei que eu precisava. Na narrativa da minha vida, o primeiro pedaço de carne depois do meu hiato de 20 anos marca o fim da minha juventude, o momento em que assumi as responsabilidades da vida adulta. Foi o momento em que parei de lutar contra a álgebra básica da corporeidade: para alguém viver, alguém tem que morrer. Nessa aceitação, com todos os seus sofrimentos e tristezas, está a capacidade de escolher um caminho diferente, um caminho melhor.

Os ativistas agricultores têm um plano muito diferente dos escritores polemistas para levar-nos da destruição à sustentabilidade. Os agricultores estão começando com uma informação completamente diferente. Eu ouvi ativistas vegetarianos alegando que um acre de terra pode suportar apenas duas galinhas. Joel Salatin, um dos sumo sacerdotes da agricultura sustentável e alguém que realmente cria galinhas, coloca esse número em 250 por acre. Em quem você acredita? Quantos de nós sabem o suficiente para sequer ter uma opinião? Frances Moore Lappe diz que é preciso de doze a dezesseis quilos de grãos para fazer um quilo de carne bovina. Enquanto isso, Salatin cria gado sem grão algum, dispondo os ruminantes de modo rotativo em policultivos perenes, criando solo fértil ano a ano. Habitantes de culturas urbanas industriais não têm nenhum ponto de contato com grãos, galinhas, vacas, ou, para falar a verdade, nem sequer com o solo. Nós não temos nenhuma base de experiência para superar os argumentos de vegetarianos políticos. Nós não temos idéia do que as plantas, animais, ou o solo comem, ou o quanto. O que significa que não temos idéia do que nós mesmos estamos comendo.

Confrontar a verdade sobre a indústria agropecuária; seu tratamento torturante dos animais e seu custo ambiental; foi para mim, aos dezesseis anos, um ato de profunda importância. Eu sabia que a terra estava morrendo. Era uma emergência diária contra a qual eu vivi desde então. Eu nasci em 1964. “Primavera" e “silenciosa” eram inseparáveis: três sílabas [1], e não duas palavras. O inferno era aqui, nas refinarias de petróleo do norte de New Jersey, o inferno de asfalto da expansão urbana, da crescente onda de seres humanos inundando o planeta. Eu chorei com Iron Eyes Cody [2], ansiava por sua canoa silenciosa e um continente intocado de rios e pântanos, aves e peixes. Meu irmão e eu gostávamos de escalar um antigo pé de maçã selvagem no parque local e sonhar com alguma forma de comprar uma montanha inteira. Não permitir a entrada de ninguém, sem precisar discutir. Quem moraria lá? Os esquilos, isso era tudo que eu conseguia imaginar. Leitor, não ria, mas, além de Bobby, o nosso hamster, os esquilos eram os únicos animais que eu já tinha visto. Meu irmão, bem socializado com a masculinidade, passou a torturar insetos e atirar em pardais com o estilingue. Eu me tornei vegan.

Sim, eu era uma criança muito sensível. Minha música favorita aos cinco anos, e aqui você está autorizado a rir, era Those Were The Days de Mary Hopkin [3]. Que passado romântico e trágico eu poderia ter lamentado aos cinco anos de idade? Mas era tão triste, tão requintado; eu ouvia a música de novo e de novo até ficar exausta de tanto chorar.

Ok, é engraçado. Mas eu não consigo rir da dor que senti com a minha impotência ao testemunhar a destruição do meu planeta. Isso foi real e tomou conta de mim. E os vegetarianos políticos me ofereceram um curativo convincente. Sem compreensão da natureza da agricultura, da natureza da natureza, ou enfim da natureza da vida, eu não tinha como saber que, apesar de seus impulsos honoráveis, sua prescrição era um beco sem saída que levava para a mesma destruição que eu ansiava ardentemente impedir.

Esses impulsos e ignorâncias são inerentes ao mito vegetariano. Por dois anos depois que voltei a comer carne, fui compelida a ler fóruns vegans on-line. Eu não sei por quê. Eu não estava procurando por uma briga. Eu mesmo nunca postei nada. Muitas pequenas e intensas subculturas têm elementos semelhantes a cultos, e o veganismo não é exceção. Talvez a compulsão tivesse a ver com a minha própria confusão espiritual, política e pessoal. Talvez eu estivesse revisitando a visão de um acidente: ali era onde eu havia destruído meu corpo. Talvez eu tivesse dúvidas e quisesse ver se conseguiria segurar a mim mesma contra as respostas que eu havia segurado firme; respostas que pareciam corretas, mas agora pareciam vazias. Talvez eu não saiba por quê. Isso me deixava cada vez mais ansiosa, irritada e desesperada.

Mas um post marcou um ponto de mudança. Um vegan jogou sua idéia de como evitar que os animais fossem mortos, não por seres humanos, mas por outros animais. Alguém deveria construir uma cerca no meio do Serengeti, e dividir os predadores das presas. Matar é errado e nenhum animal jamais deveria ter que morrer, então os grandes felinos e os caninos selvagens ficariam de um lado, enquanto os gnus e as zebras viveriam do outro. Ele sabia que os carnívoros ficariam bem porque não precisam ser carnívoros. Isso era uma mentira que indústria da carne disse. Ele tinha visto seu cão comer grama: portanto, os cães poderiam viver de grama.

Ninguém protestou. Na realidade, outros entraram na conversa dele. Meu gato come grama também, uma mulher acrescentou, com todo o entusiasmo. O mesmo acontece com o meu, alguém postou. Todos concordaram que cercar era a solução para a morte dos animais.

Note bem que o local para este projeto libertador era a África. Ninguém mencionou a pradaria norte-americana, onde carnívoros e ruminantes foram ambos extirpados para os grãos anuais que os vegetarianos abraçam. Mas eu vou voltar a isso no Capítulo 3.

Eu sabia o suficiente para entender que isto era insano. Mas ninguém mais no fórum conseguia ver algo de errado nesse esquema. Então, na teoria de que muitos leitores não têm o conhecimento para julgar este plano, eu vou fazer isso agora.

Carnívoros não podem sobreviver de celulose. Eles podem, ocasionalmente, comer grama, mas elas a usam medicinalmente, geralmente como um purgante para limpar seus aparelhos digestivos de parasitas. Ruminantes, por outro lado, evoluíram para comer grama. Eles têm um rúmen (daí o ruminante), o primeiro de uma série de estômagos múltiplos que atua como uma cuba de fermentação. O que realmente está acontecendo dentro de uma vaca ou de um gnu é que as bactérias comem a grama, e os animais comem as bactérias.

Leões e hienas e os seres humanos não têm o sistema digestivo dos ruminantes. Literalmente, de nossos dentes aos nossos intestinos, somos projetados para carne. Nós não temos nenhum mecanismo para digerir celulose.

Assim, no lado carnívoro da cerca, a fome matará todos os animais. Alguns vão durar mais tempo do que outros, e estes vão acabar os seus dias como canibais. Os carniceiros terão uma festa de terça-feira gorda, mas quando os ossos ficarem limpos, eles vão morrer de fome também. O cemitério não termina aí. Sem comedores de grama para comer a grama, a terra acabará por se transformar em deserto.

Por quê? Porque sem comedores de grama para literalmente nivelar o campo, as plantas perenes amadurecem, e recobrem o ponto de crescimento basal na base da planta. Num ambiente frágil como o Serengeti, a decomposição é na maior parte física (intemperismo) e química (oxidativa), não bacteriana e biológica como num ambiente úmido. De fato, os ruminantes assumem a maioria das funções biológicas do solo digerindo a celulose e devolvendo os nutrientes, mais uma vez disponíveis, sob a forma de urina e fezes.

Mas sem ruminantes, a matéria vegetal vai se acumular, reduzindo o crescimento, e começar a matar as plantas. A terra nua está agora exposta ao vento, sol e chuva, os minerais se esvaem, e a estrutura do solo é destruída. Em nossa tentativa de salvar os animais, matamos tudo.

No lado dos ruminantes, os gnus e amigos vão se reproduzir tão efetivamente como sempre. Mas sem o freio de predadores, vai rapidamente haver mais comedores de grama do que grama. Os animais vão acabar com sua fonte de alimento, comer as plantas até o chão, e depois morrer de fome, deixando para trás uma paisagem seriamente degradada.

A lição aqui é óbvia, embora seja profunda o suficiente para inspirar uma religião: nós precisamos ser comidos tanto quanto precisamos comer. Os comedores de grama precisam de sua celulose diariamente, mas a grama também precisa dos animais. Ele precisa do estrume, com seu nitrogênio, minerais e bactérias, que necessita do freio mecânico da atividade de pastejo, que precisa dos recursos armazenados nos corpos dos animais e liberados pelos decompositores quando os animais morrem.

A grama e os comedores de grama precisam uns dos outros tanto quanto predadores e presas. Estes não são relacionamentos unidirecionais, e não são arranjos de dominação e subordinação. Não estamos explorando um ao outro ao comer. Estamos apenas fazendo turnos consecutivos.

Essa foi a minha última visita aos fóruns vegans. Percebi então que pessoas tão profundamente ignorantes sobre a natureza da vida, seu ciclo mineral e troca de carbono, seus pontos de equilíbrio em torno de um antigo círculo de produtores, consumidores e decompositores, não ia ser capaz de guiar-me ou, na verdade, fazer quaisquer decisões úteis sobre uma cultura humana sustentável. Dando as costas ao conhecimento adulto, o conhecimento de que a morte está incorporada no sustento de cada criatura, de bactérias a ursos, eles nunca seriam capazes de saciar a fome emocional e espiritual que doía em mim por aceitar este conhecimento. Talvez no final este livro seja uma tentativa de mitigar essa dor eu mesma.


[1] N.T. No original, trata-se do livro Silent Spring, de Rachel Carson, escrito em 1962, e considerado como o marco inicial do movimento ambientalista.
[2] N.T. Ator americano que ficou famoso por sua cena do índio que chora por causa da destruição causada pelo homem branco.
[3] N.T. Trata-se de uma canção que fala sobre um tempo bom que ficou no passado, cujo título pode ser traduzido como Aqueles eram os dias

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Política morta-viva



A crise econômica de 2008 deu origem a um movimento libertarianista [1] chamado Tea Party, composto de jovens defensores do liberalismo clássico. O movimento cresceu rapidamente e possui vários representantes ocupando posições no governo dos EUA. Há quem diga que o movimento representa nada mais que um novo fôlego dos republicanos como reação à vitória de Barack Obama, mas também que pode representar um novo fôlego do liberalismo clássico em resposta à incapacidade do neoliberalismo de conter as bolhas financeiras.

Recentemente, uma empresa de advergaming [2] chamada Starvingeyes fez um jogo chamado "Tea Party Zombies Must Die" (Zumbis do Tea Party devem morrer), em que o objetivo do jogador é matar versões zumbis de membros do movimento Tea Party. Aparentemente, a empresa que produziu o jogo está sugerindo que matar opositores políticos, pelo menos virtualmente, é divertido. Não haveria problema nisso, já que os inimigos do jogo são apenas zumbis. Liberdade de expressão, certo? Não é tão simples assim...

A cultura midiática tem usado o zumbi como uma desculpa para explorar representações de violência contra certos grupos sociais, tirando desse elemento típico do horror todo seu significado original. Jogos de matar zumbis, assim como os jogos de guerra, estão se tornando indistinguíveis de jogos de matança gratuita. Quem são os zumbis? São pessoas estranhas que foram afetadas por alguma condição que as obriga a agir segundo um desejo irresistível de matar e consumir vida. São seres irracionais, e por isso não se encaixam mais no conceito de pessoa: já não são mais livres para agir por vontade própria, por isso não é uma ofensa moral destruí-los, é uma mera questão de sobrevivência. Mas nossa fome de matar zumbis parece ser tão grande quanto a fome deles de nos matar. Talvez nós alimentemos a fantasia de viver somente pela motricidade da sobrevivência imediata contra um mundo hostil porque nos falta algum propósito maior, e porque neste cenário poderíamos nos livrar definitivamente da moralidade. Nós estamos nos tornando como o monstro que caçamos.

Isso também descreve uma mudança contemporânea na política. Os conflitos políticos não mais são feitos em torno de posições ideológicas bem definidas, e cresce cada vez mais o desinteresse pela agenda política nacional. A globalização transformou a política em algo cada vez mais individual. Os zumbis são aqueles que ameaçam seu interesse individual. Isto inclui a massa ignorante que age de modo coletivo e com vista a um bem comum, já que nenhuma coletividade poderia ser mais “inteligente” do que uma horda de zumbis. Nunca foi tão fácil tornar-se um crítico da sociedade, graças à internet. O excesso de informação possibilita que cada um lute sozinho contra o resto do mundo, porque conhece fatos que a maioria desconhece. Sua revolução é feita pela divulgação de ideias revolucionárias. As redes sociais são um meio de medir o sucesso da causa. A adesão de outros produz a sensação de que algo está mudando e que sua vida tem um propósito: você descobriu uma verdade oculta que precisa ser compartilhada. Quanto mais pessoas “gostam” do seu conteúdo, mais você sente que está fazendo algo importante.

Isto é provocado tanto pelo excesso de ceticismo quanto pelo excesso de credulidade. Antigamente era possível ouvir a um sujeito que se aproximava dizendo ter novidades importantes para relatar. Hoje em dia, não temos tempo para ouvir todo mundo que diz conhecer um segredo que pode mudar sua vida. Mas algumas propostas são apresentadas de modo sofisticado e convincente, dependendo do seu grau de conhecimento e das suas próprias expectativas. Quem tem o privilégio de entrar em contato com uma visão sensata da realidade ainda jovem talvez se torne uma pessoa sensata na maturidade. Mas isso é cada vez mais raro, e a maioria das pessoas luta para manter uma visão mais confortável, por mais absurda que seja.

A premissa central de um artigo que escrevi sobre o jogo Left 4 Dead é que havia um bom motivo para o zumbi ser representado como um ser que se move lentamente. Quando o jogo dá aos zumbis a capacidade de correr, o horror contemplativo, que permitia pensar sobre sua própria condição, é substituído pela reação condicionada, que é pura adrenalina. Isso não se explica somente por tendências de mercado que variam com a flutuação dos desejos dos consumidores, ou como se diz: “Zumbis que correm são mais divertidos e é isso que as pessoas querem hoje em dia”. Estes jogos se tornam divertidos na medida em que aprendemos a gostar deles, e isso depende mais de uma boa engenharia de mecanismos de estímulo e resposta do que da vontade das pessoas. Há um elemento psicossociológico na busca por este tipo de jogo: a raiva causada por um modo de vida cada vez mais estressante. Os próprios defensores desse tipo de jogo apontam que a violência simulada é uma válvula de escape de uma necessidade natural que teria efeitos desastrosos se fosse liberada no mundo real. Mas a raiva não está diminuindo, está se acumulando ainda mais, o que é ótimo para o mercado. A raiva retro-alimentada por este suposto “sistema de escape” se acumula em forma de ressentimento, gerando fenômenos cada vez mais extremos de explosão e implosão de emoções negativas e desejo de vingança.

O que os defensores do Tea Party tem a dizer sobre um jogo em que eles são representados como zumbis? Um membro do Western youth, um movimento estudantil de direita relacionado ao Tea Party, disse que não ficou nem um pouco ofendido com o jogo. De fato, ele gostaria que fosse feito um outro semelhante, em que o jogador possa matar zumbis de esquerda, socialistas e libertários. Ele apenas se lamenta pelo fato de que "os conservadores tendem a jogar limpo", isto é, não apoiariam uma coisa dessas. Diz que se alguém fizesse um jogo assim, "O establishment conservador iria abandoná-lo, e em seguida começariam a falar como covardes sobre como eles não são 'racistas' ou 'intolerantes'. Eles provavelmente até mesmo diriam o quanto eles amam os homossexuais ou o multiculturalismo ainda mais do que os libertários". É importante notar aqui que o termo “liberal”, em inglês, significa algo bem diferente do termo “liberal” em português, assim como “libertarian”, em inglês, significa algo bem diferente de “libertário” em português. Em inglês, “liberal” é uma pessoa de esquerda, como o “libertário”, e não um defensor do liberalismo, como o “libertarian”.

Talvez a ideia de usar fogo contra fogo demonstre outra tendência política: a de que os conservadores exponham mais abertamente suas posições "politicamente incorretas" e lutem por elas com armas mais sofisticadas. Convenções sociais não os preocupam, uma vez que tenham se convencido de que o mundo está dominado por uma infecção chamada esquerdismo. É isso que influentes filósofos de direita não se cansam de tentar provar com inúmeros artigos e vídeos. Mas talvez liberals e libertarians (libertários e liberais) sejam, afinal, muito parecidos. São ambos defensores de ideais humanistas, e só discordam quanto aos meios de atingir os mesmos fins. O fim seria a democracia, os meios seriam a liberalização do Mercado ou o controle sobre o Mercado; o fortalecimento do Estado ou a derrubada do Estado. Na luta pelos seus próprios conceitos de liberdade e democracia, eles querem se matar para decidir qual o lado correto para se passar manteiga no pão.

Em outras palavras, são zumbis uns dos outros. Eles tentam se colocar em lados opostos, mas acabam se igualando nas atitudes, exatamente como os jogadores de Left 4 Dead se igualam aos zumbis, por estarem num constante estado de alerta na luta pela sobrevivência.

"Quantos de vocês querem pagar a hipoteca do vizinho que construiu um banheiro a mais e agora não pode pagar suas prestações?" [3]

A atual depressão econômica tem origem no excesso de endividamento, e o endividamento significa que há um buraco negro na economia mundial. Este buraco negro pode sugar todo o dinheiro do mundo, e ainda não será suficiente. Ninguém quer investir no que não dá retorno, e o que sobra é cortar gastos públicos. A riqueza só pode crescer se houver pessoas gastando cada vez mais. Por isso os endividados devem permanecer gastando. É preciso fazer mais dívidas, não apenas porque quitar as dívidas é impossível, mas porque pagá-las ao invés de gastar mais apenas aprofunda a depressão. Este ciclo compulsivo provavelmente não pode mais ser quebrado. Quando acumulamos dívidas para enriquecer, temos uma economia morta-viva. Na cabeça de alguns, hordas de excluídos estão invadindo nosso país, estragando a economia e tentando te transformar num deles.

Há quem considere o Tea Party como a revitalização dos valores civilizados. Num comentário a um artigo chamado Entendendo o Tea Party, de Nivaldo Cordeiro, lemos o seguinte: "Deus abençoe os Estados Unidos. Se aquele país proibir o aborto e o casamento gay, vai voltar a ser perfeito como era antigamente. Falta só proibir essas duas coisas para aquele país voltar a ser O PAÍS". Com uma coisa parece que todos estão concordando: o império estadunidense está em meio a uma decadência de valores. Mas quais valores? Será que o próximo dono da fazenda será melhor? 

Temos capitalismo para todos os gostos. Capitalismo conservador ou progressista, moderno ou antiquado, machista ou feminista, letrado ou populista, religioso ou ateu, civilizado ou selvagem, materialista ou espiritualista. Temos capitalismo ecológico e ao mesmo tempo empresarial, ético e ao mesmo tempo pragmático, individualista e ao mesmo tempo comunitário, e por aí vai. Existem mil maneiras de se encaixar no sistema, invente uma...

A questão talvez não se limite ao modo de produção ou quem são os proprietários dos meios de produção. É preciso saber o que está sendo produzido: vida ou morte-vida? Se a produção visa a sobrevivência humana, quem são nossos inimigos e o que exatamente nos distingue deles?


[1] O libertarianismo é uma filosofia política conservadora de direita que se divide em duas correntes: o anarcocapitalismo e o minarquismo. Os libertarianos rejeitam o papel do Estado enquanto regulador da economia e se fundam nos ideais de propriedade, vida e liberdade dos pais fundadores dos EUA.
[2] Advergaming é uma estratégia de publicidade que usa jogos eletrônicos criados especificamente para fins publicitários.
[3] Ver "Moralismo, ignorância e… depressão", por Paul Krugman.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Para a América viver, a Europa deve morrer!

[Observação importante: Eu compreendo que o autor desse texto é uma figura extremamente controversa, que aparentemente não viveu como ele mesmo pregou e se filiou à ideologia que dizia combater. Minha intenção ao publicar este texto não é defender os ideais deste autor, principalmente os ideais políticos, mas disponibilizar uma melhor tradução, devido à sua possível relevância para a discussão sobre uma crítica à civilização no contexto da colonização americana. O texto foi traduzido do original em inglês (Disponível em russellmeans.com), pois a única tradução para português que eu encontrei estava incompleta e havia adições e alterações significativas no texto.]

O seguinte discurso foi feito por Russell Means, em julho de 1980, para o Black Hills International Survival Gathering, em South Dakota, EUA.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Grand Rapids Lip Dub

            Em janeiro de 2011, a Newsweek publicou uma matéria chamada “America’s dying cities” (As cidades moribundas da América), em que listava as 10 cidades com menor taxa de crescimento populacional nos Estados Unidos. A cidade de Grand Rapids, Michigan, estava na lista. Em março, o produtor de eventos Rob Bliss começou a organizar uma resposta a isso. Seu plano era criar um vídeo viral para promover a cidade de Grand Rapids. O vídeo ficou pronto em maio, e se trata de um recorde mundial em “dublagem”. É um vídeo que contou com a participação e o financiamento da população, e custou cerca de 40 mil dólares. É uma dublagem do clássico “American Pie” de Don McLean, com quase 10 minutos de filmagem direta.

            O vídeo está fazendo muito sucesso, pois conseguiu mais de 3 milhões de acessos em menos de 20 dias. A descrição do vídeo diz que esta é uma resposta oficial ao artigo da Newsweek. A reação das pessoas ao redor do mundo, inclusive no Brasil, foi bastante favorável, pelo que se pode notar nos comentários do vídeo. Porém, não houve uma boa recepção aos comentário que eu fiz sobre os fatores econômicos e políticos por trás do vídeo. Um dos participantes do projeto me chamou de “amargo” e “sem coração”. O fato é que o artigo da Newsweek está apenas apresentando o resultado de uma análise de dados do censo americano no período de 2000 a 2009. Esta análise aponta as cidades cuja população está diminuindo mais rápido, e Grand Rapids aparece em décimo lugar, com uma taxa de -2.1%. Mas o que provavelmente provocou a reação não foi o fato de que esta cidade foi chamada de moribunda, mas sim que o artigo interpreta esses dados populacionais como um sinal de queda na economia. Segundo o artigo, Grand Rapids estaria enfrentando altas taxas de desemprego e de despejos, graças ao colapso da indústria automobilística. É natural pensar que o principal fator por trás do interesse de promover a imagem de Grand Rapids, que em 2010 foi considerada a cidade mais sustentável dos EUA, provavelmente está relacionado com o projeto de revitalização econômica planejado pelos políticos locais.

            A verdade é que o vídeo colocou a cidade no foco das notícias, o que poderá atrair visitantes e quem sabe empresários interessados em estabelecer negócios ou investimentos na cidade. É com base nisso que eu gostaria de fazer comentários mais provocativos. O lado bom do vídeo já está bastante comentado. Eu gostaria de usá-lo como um exemplo como o capitalismo age como um necromante que faz os mortos dançarem. O vídeo não foi feito para afirmar que a cidade está viva. Afinal, ela ainda é a segunda maior cidade de Michigan, só perdendo para Detroit. A questão é a dominação exercida pela sociedade do espetáculo por meio de um discurso que é facilmente aceito tanto pela comunidade local quanto pela global.

            Porque deveríamos “comprar coisas legais” (buy cool stuff) para ajudar essa cidade a voltar para a área luminosa do capitalismo? De certo ponto de vista, a melhor coisa que pode acontecer com uma cidade é morrer. Uma cidade morta para o capitalismo poderia ser o começo de uma comunidade livre. Porque os negócios locais investiram na imagem da cidade? Certamente não é por causa de algum orgulho local. Há interesses comerciais envolvidos.

            O disfarce de “comunidade ativa” é perfeito para atrair a atenção. A dominação ideológica não permite que a maioria das pessoas perceba que este tipo de evento é mais político do que se imagina. O projeto é uma oportunidade para “fortalecer a economia local”? Bem, ele funciona como uma propaganda. Muitas pessoas declararam nos comentários que o vídeo os fez querer visitar a cidade. Isto parece se encaixar perfeitamente no conceito de subpolítica usado por Ulrich Beck, por exemplo.

            Além do mais, não há nada de errado em viver numa cidade que não cresce. Goiânia está crescendo e está cada dia pior. O problema é que os pobres são sacrificados quando não há crescimento econômico. É realmente um mundo invertido. Uma agenda política local se torna atração global. Uma cidade que foi explorada e então abandonada pela indústria automobilística agora implora para poder voltar para o jogo, e nós tratamos isso como entretenimento. Mas este jogo não tem vencedores, e é triste ver pessoas dançando e cantando por esse motivo. 

segunda-feira, 20 de junho de 2011

A paradoxalização moderna

            Um texto chamado “O paradoxo de nossa era”, escrito nos anos noventa, circulou o mundo por meio da internet, e até hoje é repassado por meio de detestáveis correntes de mensagens “profundas” e “tocantes”. Sua atratividade provavelmente se deve ao fato de que resume em termos simples aquilo que mais incomoda a maioria das pessoas com acesso à internet, criticando os “valores da modernidade” e ao mesmo tempo servindo de catarse. O mais irônico é que o texto foi atribuído a George Carlin, famoso comediante ateu estadunidense, quando de fato o autor é Bob Moorehead, ex-pastor de uma igreja cristã estadunidense, que por sua vez é acusado de ter copiado as frases principais de um poema do 14º Dalai Lama. Eis o texto original, traduzido:

“Nós temos prédios mais altos, mas o temperamento mais curto; rodovias mais largas, mas pontos de vista mais estreitos; nós gastamos mais, mas temos menos; nós compramos mais, mas aproveitamos menos as coisas; nós temos casas maiores e famílias menores; mais conveniências, mas menos tempo; nós temos mais diplomas, mas menos bom-senso; mais conhecimento, mas menos juízo; mais especialistas, mas ainda mais problemas; mais engenhocas, mas menos satisfação; mais remédios, mas menos bem-estar; nós tomamos mais vitaminas, mas vemos menos resultados. Nós bebemos demais; fumamos demais; gastamos inconseqüentemente; rimos muito pouco; dirigimos rápido demais; ficamos bravos rápido demais; ficamos acordados até tarde; acordamos muito cansados; lemos raramente; assistimos muita televisão e oramos muito raramente.

Nós multiplicamos nossas posses, mas reduzimos nossos valores; nós voamos em aviões mais rápidos para chegarmos lá mais rápido, para fazermos menos e voltarmos mais cedo; nós assinamos mais contratos só para percebermos menos lucros; nós falamos demais; amamos muito raramente e mentimos demais. Nós aprendemos a sobreviver, mas não a viver; nós acrescentamos anos às nossas vidas, mas não vida aos nossos anos. Nós já chegamos até a Lua e voltamos, mas temos dificuldades em atravessarmos a rua e conhecer o novo vizinho. Nós conquistamos o espaço sideral, mas não o espaço interno; nós fizemos coisas maiores, mas não coisas melhores; nós limpamos o ar, mas poluímos a alma; nós fissionamos o átomo, mas não nosso preconceito; nós escrevemos mais, mas aprendemos menos; planejamos mais, mas conquistamos menos; fazemos aviões mais rápidos, mas filas mais longas; aprendemos a correr, mas não a esperar; temos mais armas, mas menos paz; salários mais altos, mas menos moralidade; mais festas, mas menos diversão; mais comida, mas menos contentamento; mais conhecidos, mas menos amigos; mais esforço, mas menos sucesso. Nós montamos mais computadores para armazenarmos mais informação, para produzirmos mais cópias do que nunca, mas nos comunicamos menos; dirigimos carros menores que tem problemas maiores; construímos fábricas maiores que produzem menos. Nós nos tornamos grandes em quantidade, mas pequenos em qualidade.

Estes são os tempos de comidas rápidas e digestão lenta; homens altos, mas de pouco caráter; lucros profundos, mas relacionamentos superficiais. Estes são os tempos de paz mundial, mas guerra doméstica; mais lazer e menos diversão; mais postagem, mas correio mais lento; mais tipos de comida, mas menos nutrição. Estes são os dias de dois salários, mas mais divórcios; estes são os tempos de casas mais chiques, mas lares despedaçados. Estes são os dias de viagens rápidas, fraldas descartáveis, vidas padronizadas, morais para se jogar fora, encontros de uma noite, corpos obesos e pílulas que fazem tudo, desde animar, prevenir, aquietar ou matar. É um tempo em que há muito na vitrine e nada no estoque. Realmente, estes são os tempos.”

            Se você prestar atenção, vai perceber que o texto é apenas uma lamentação pelo fato de que a modernidade não cumpriu suas promessas, mas em nenhum momento a “nossa era” é realmente criticada. O autor passa a ideia de que o problema é que temos todos esses benefícios por um lado, e por outro lado as coisas não ficaram melhores. E ele chama isso de paradoxo, como se os benefícios citados devessem necessariamente levar ao “progresso” em todos os aspectos da vida humana, mas surpreendentemente não levam. Surpreendentemente? Qual seria a relação correta? Gastar menos e ter mais? Isso seria algo mais próximo de um paradoxo moderno. Ou ele quis dizer que deveríamos ter mais benefícios e menos prejuízos? Ora, mas que tipo de constatação é essa?

            Não quero ser duro demais, mas sinceramente a mensagem não tocou meu coração. Eu reconheço que ela apela aos sentimentos, mas não expressa nada de relevante. Para piorar, esta inspiradora coleção de clichês foi escrita por um pregador acusado de molestar 17 homens na sua igreja. Sim, Dr. Bob Moorehead, autor de vários livros cheios de mensagens como essa, foi acusado de molestar sexualmente vários homens, e ainda assim pregou contra a perda dos valores morais. Os casos de assédio sexual foram comprovados por uma investigação feita pelos próprios líderes da igreja. Eles estavam acreditando totalmente na inocência de um dos seus maiores pregadores, mas foram obrigados a mudar de opinião diante das evidências, e do fato de que o próprio pastor decidiu abandonar o cargo sem dar explicações.

            Este é um exemplo de como coisas aparentemente simples podem ficar tão complicadas e confusas graças ao efeito do “nosso tempo”. Temos a mensagem de um pastor hipócrita atribuída a um ateu, e não conseguimos discernir o que é do que não é. Não sabemos se ele é realmente culpado do que foi acusado, ou se o texto foi de fato baseado na poesia do Dalai Lama. Só há uma grande confusão de fatos e de sentimentos. Esta sim é a característica central da nossa era. Apesar de toda essa iluminação sobre a degradação humana, não conseguimos ser mais do que “homens do nosso tempo”. Esta é a estranha lição de “O paradoxo de nossa era”.